Mais um. Era conhecido como número 14, um irmão. Participava das discussões, prevenia sobre desvios de conduta, estabelecia normas, acreditava. Tinha conhecimentos sobre os costumes antigos de nosso povo, sabia bons conselhos para dinamizar a mudança. Era um dos poucos confiáveis, se é que essa noção ainda era válida [no momento não acredito que fosse possível, mas... muitos são os que caracterizam suas alucinações individuais como verdades absolutas]. Isolado percebi minha doença, curei-me dela e, consciente, morro pela cura.
Chovia, confrontei Saloth Sar, o número um, expus algo, não sei o que, alguma insanidade, não havia mais lucidez, hoje percebo. Reuniões insanas, éramos comunistas? Éramos um partido? Representávamos quem? A morte. As mortes. Trágico demais? Antes fosse tragicômico. Não era, não foi, até onde estive presente. Vi corpos, ou melhor, transformei vidas em corpos: posso esclarecer, um exemplo banal, uma criança que seja, seu pai era suspeito de transgressão, cortei metade de um dedo antes de qualquer “oi”, meu sorriso era a introdução para a morte de... [lamento não saber o nome de todos que matei]; apenas gritos, choro e sangue; o pai também morreu; a mãe, estuprada e morta. Eu sorria, satisfeito.
Muitos foram os que torturei. Uma cova coletiva recebeu meu nome, orgulhei-me disso quando soube. A consciência da tortura, o conhecimento da tortura, o saber-fazer de desumanizar um semelhante: assumi isso como profissão, e com um sorriso, por algum tempo. A morte era minha constante, parte de minha vida, mas apenas como morte dos outros. Percebi minha parcela neste jogo de caminho certo, a vida para a morte, quando duvidei no momento de concordar. Ambição? Não sei, talvez estivesse cansado, questionei Saloth Sar, apontei para ele e gritei algum insulto leve. Estou em Tuol Sleng, ou S-21 para os mais íntimos [eu um deles, doce ironia], tenho meu espaço, pequeno, desconfortável e penso. Sim, ainda penso, agora penso, ainda sorrio, sorrio para mim mesmo, sou minha morte, sei o que me espera. Nada mais, tudo mais, estou morto, estou vivo, sei disso, espero, encaro o pouco de chão que me resta. Sorrio.
“III – Contra a obsessão da morte, os subterfúgios da esperança revelam-se tão ineficazes como os argumentos da razão: sua insignificância só faz exacerbar o apetite de morrer. Para triunfar sobre este apetite só há um único ‘método’: vivê-lo até o fim, sofrendo todas as suas delícias e tormentos, nada fazer para escamoteá-lo. Uma obsessão vivida até à saciedade anula-se em seus próprios excessos. De tanto insistir sobre o infinito da morte, o pensamento chega a gastá-lo, a nos enojar dele, negatividade demasiado plena que não poupa nada e que, mais do que comprometer e diminuir os prestígios da morte, desvela-nos a inanidade da vida.
Quem não se entregou às volúpias da angústia, quem não saboreou em pensamento os perigos da própria extinção nem degustou aniquilamentos cruéis e doces, não se curará jamais da obsessão da morte: será atormentado por ela, por haver-lhe resistido; enquanto quem, habituado a uma disciplina de horror, e meditando sua podridão, reduziu-se deliberadamente a cinzas, esse olhará para o passado da morte e ele próprio será apenas um ressuscitado que não pode mais viver. Seu ‘método’ o terá curado da vida e da morte.
Toda experiência capital é nefasta: as camadas da existência carecem de espessura; quem as escava, arqueólogo do coração e do ser, encontra-se, ao cabo de suas investigações, ante profundidades vazias. Em vão terá saudades do ornamento das aparências.
[...]”.
Emil Cioran, trecho de “Variações sobre a morte”, tradução de José Thomaz Brum.
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quarta-feira, 9 de junho de 2010
terça-feira, 8 de junho de 2010
notas dispersas
Lenin, no começo do século passado, perguntou-se "Que fazer?". Afinal...
“Quem chegasse, por uma imaginação transbordante de piedade, a registrar todos os sofrimentos, a ser contemporâneo de todas as penas e de todas as angústias de um instante qualquer, esse – supondo que tal ser pudesse existir – seria um monstro de amor e a maior vítima da história do sentimento. Mas é inútil imaginarmos tal impossibilidade. Basta-nos proceder ao exame de nós mesmos, praticar a arqueologia de nossos temores. Se avançamos no suplício dos dias, é porque nada detém esta marcha, exceto nossas dores; as dos outros nos parecem explicáveis e suscetíveis de ser superadas: acreditamos que sofrem porque não têm suficiente vontade, coragem ou lucidez. Cada sofrimento, salvo o nosso, nos parece legítimo ou ridiculamente inteligível; sem o que, o luto seria a única constante na versatilidade de nossos sentimentos. Mas só estamos de luto por nós mesmos. Se pudéssemos compreender e amar a infinidade de agonias que se arrastam em torno de nós, todas as vidas que são mortes ocultas, precisaríamos de tantos corações quanto os seres que sofrem. E se tivéssemos uma memória milagrosamente atual que conservasse presente a totalidade de nossas penas passadas, sucumbiríamos sob tal fardo. A vida só é possível pelas deficiências de nossa imaginação e de nossa memória.
Extraímos nossa força de nossos esquecimentos e de nossa incapacidade para imaginar a pluralidade de destinos simultâneos. Ninguém poderia sobreviver à compreensão instantânea da dor universal, pois cada coração só foi moldado para uma certa quantidade de sofrimentos. Existem como que limites materiais para nossa resistência; entretanto, a expansão de cada desgosto os alcança e, às vezes, os ultrapassa; é freqüentemente a origem de nossa ruína. Daí deriva a impressão de que cada dor, cada desgosto, são infinitos. Eles o são, na verdade, mas somente para nós, para os limites de nosso coração; e mesmo que este tivesse as dimensões do vasto espaço, nossos males seriam ainda mais vastos, pois toda dor substitui o mundo e de cada desgosto faz outro universo. A razão esforça-se inutilmente para mostrar-nos as proporções infinitesimais de nossos acidentes; fracassa ante nossa tendência para a proliferação cosmogônica. Daí decorre que a verdadeira loucura nunca é devida aos acasos ou aos desastres do cérebro, mas à concepção falsa do espaço que o coração se forja...”
Emil Cioran, “A chave de nossa resistência”, tradução de José Thomaz Brum.
Facção Central, "Vida baixa"
Facção Central, "Roube quem tem"
Que fazer?
( ) inércia
( ) homicídio
( ) suicídio
( ) "terrorismo"
( ) n(a).d.a.
“Quem chegasse, por uma imaginação transbordante de piedade, a registrar todos os sofrimentos, a ser contemporâneo de todas as penas e de todas as angústias de um instante qualquer, esse – supondo que tal ser pudesse existir – seria um monstro de amor e a maior vítima da história do sentimento. Mas é inútil imaginarmos tal impossibilidade. Basta-nos proceder ao exame de nós mesmos, praticar a arqueologia de nossos temores. Se avançamos no suplício dos dias, é porque nada detém esta marcha, exceto nossas dores; as dos outros nos parecem explicáveis e suscetíveis de ser superadas: acreditamos que sofrem porque não têm suficiente vontade, coragem ou lucidez. Cada sofrimento, salvo o nosso, nos parece legítimo ou ridiculamente inteligível; sem o que, o luto seria a única constante na versatilidade de nossos sentimentos. Mas só estamos de luto por nós mesmos. Se pudéssemos compreender e amar a infinidade de agonias que se arrastam em torno de nós, todas as vidas que são mortes ocultas, precisaríamos de tantos corações quanto os seres que sofrem. E se tivéssemos uma memória milagrosamente atual que conservasse presente a totalidade de nossas penas passadas, sucumbiríamos sob tal fardo. A vida só é possível pelas deficiências de nossa imaginação e de nossa memória.
Extraímos nossa força de nossos esquecimentos e de nossa incapacidade para imaginar a pluralidade de destinos simultâneos. Ninguém poderia sobreviver à compreensão instantânea da dor universal, pois cada coração só foi moldado para uma certa quantidade de sofrimentos. Existem como que limites materiais para nossa resistência; entretanto, a expansão de cada desgosto os alcança e, às vezes, os ultrapassa; é freqüentemente a origem de nossa ruína. Daí deriva a impressão de que cada dor, cada desgosto, são infinitos. Eles o são, na verdade, mas somente para nós, para os limites de nosso coração; e mesmo que este tivesse as dimensões do vasto espaço, nossos males seriam ainda mais vastos, pois toda dor substitui o mundo e de cada desgosto faz outro universo. A razão esforça-se inutilmente para mostrar-nos as proporções infinitesimais de nossos acidentes; fracassa ante nossa tendência para a proliferação cosmogônica. Daí decorre que a verdadeira loucura nunca é devida aos acasos ou aos desastres do cérebro, mas à concepção falsa do espaço que o coração se forja...”
Emil Cioran, “A chave de nossa resistência”, tradução de José Thomaz Brum.
Facção Central, "Vida baixa"
Facção Central, "Roube quem tem"
Que fazer?
( ) inércia
( ) homicídio
( ) suicídio
( ) "terrorismo"
( ) n(a).d.a.
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