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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Luris e as Duas Hospedeiras

           Conta-se que, certa vez, Luris viajava até Volmuria para eliminar um demônio que aterrorizava os habitantes dali. Nessa época, a cidade ainda não era o grande porto que viria a se tornar se não fosse pela intervenção do Senhor da Luz, era apenas um pequeno posto comercial.
No caminho, Luris passou por uma vila. Como era noite, ele já viajava a dias e via que em breve começaria a chover, ele resolveu pedir em uma casa se poderia passar a noite. Quem atendeu era uma mulher ranzinza com um olhar que parecia odiar a todos e até si mesma. Ao ver aquele homem estranho a sua porta não quis ajudá-lo.
- Mas eu aceito até dormir no seu estábulo. Só quero um teto para me proteger da chuva.
- Não tenho vaga e você assustaria os meus animais, que precisam estar bem relaxados para o trabalho duro de amanhã. Vá na casa da vizinha de baixo, ela talvez te aceite. – E fechou a porta na cara do estranho, sem saber que ele era o Grande Senhor.
Luris não se chateou. Para ele era um direito dos mortais de duvidarem das intenções daqueles que batem na sua porta. Ele seguiu a estada mais um pouco até chegar em outra casa. Bateu na porta e foi atendido por outra senhora:
- Se você realmente não se importa de dormir no estábulo, eu não tenho problemas. E eu acabei de fazer uma sopa, se quiser um pouco.
Luris aceitou grato a comida e o lugar para dormir. Naquela noite, se abrigou no estábulo e dormiu no feno. Acordou logo cedo, antes que todos, para seguir sua viagem. A mulher, sem saber que seu hóspede não se encontrava mais ali, foi lhe acordar, pois precisava retirar os animais para o trabalho no campo. Eis sua surpresa ao ver que, o feno onde nosso senhor dormiu, havia se tornado ouro. Ela mal pode acreditar nos seus olhos. Estava rica.
Mal fez essa descoberta, sua vizinha chegou para fofocar e lhe contou sobre o estranho que havia passado na sua casa tarde da noite e como ele teve a coragem de pedir um lugar para dormir. A hospedeira do senhor Luris lhe disse que esse mesmo homem veio e que ele devia ser o próprio Luris, pois o lugar em que ele dormiu havia virado de ouro. A primeira não acreditaria, se ela não tivesse visto o feno por ela mesmo.
A hospedeira então, pegou todo esse ouro e investiu na sua fazenda. Comprou animais, aumentou suas terras e sua plantação e começou a trabalhar que nem louca para dar conta dos seus novos bens. Enquanto isso, a mulher que havia recusado Luris se roía de inveja e falava mal da vizinha pelas costas. Estava indignada como ela era burra e havia transformado todo aquele ouro em mais trabalho. Ela, se tivesse toda essa riqueza, teria vivido uma vida de rainha.
Um mês se passou e Luris voltava pelo mesmo caminho após ter eliminado o demônio que atazanava Volmuria. As pessoas do local lhe ofereceram várias recompensas pelo seu feito, as quais ele agradecidamente refutou, exceto por umas pequenas doações que ele usaria para pagar o seu caminho de volta. E foi assim que, ele se encontrou novamente na vila do começo de nossa história, mas, dessa vez, ele foi até uma estalajem aonde pagou por comida e pretendia pagar por um quarto.
Estava sentado no seu canto, sem chamar atenção, pois ninguém sabia que ele era o Senhor da Luz, quando a primeira mulher o viu ali. Ela correu até ele, pois não queria que ele dormisse em outro lugar a não ser na sua casa.
- Ó senhor. Você por aqui de novo? Desculpe-me aquela noite, estava de mau humor e não fiz o bem como devia em ajudá-lo. Já tem um lugar para ficar?
- Pagarei por um quarto aqui hoje a noite.
- Não, eu faço questão que você durma em casa, assim não precisará gastar um tostão com acomodações.
Ela tanto insistiu que nosso Senhor aceitou sua oferta, mas fez questão de dormir no estábulo, embora ela tenha lhe oferecido uma cama dentro de sua casa. Luris passou a noite ali e, antes que qualquer outra pessoa acordasse, ele já estava de pé e seguiu viagem de volta a Valwick.
A mulher acordou o mais cedo que pode, mas não mais cedo que Luris, e correu para o local em que o Senhor havia passado a noite. Ela pulou de alegria ao ver todo aquele feno transformado em ouro, como o da sua vizinha. Com tanto ouro, ela parou de trabalhar, pois podia comprar tudo o que precisava. Começou a comprar várias jóias e os vestidos mais caros.
Alguns bandidos, sabendo dos boatos das duas vizinhas que ficaram misteriosamente ricas se dirigiram até o local para se enriquecerem. Eles invadiram a casa da primeira mulher e levaram tudo o que ela tinha. Não deixaram nenhuma das suas riquezas recém-adquiridas com ela e nem seu ouro. Foram então para a segunda casa e levaram o que encontraram de riquezas, que foi pouco, pois a segunda mulher havia investido seu ouro em animais e plantações, e esses bandidos não estavam interessados nem em um e nem no outro.

Assim, chegou o inverno e a época da colheita. A segunda mulher ficou rica com tanto que colheu. A primeira se afundou em dívidas e logo perdeu tudo e foi forçado a pedir ajuda, mas como não gostavam muito dela, sempre lhe fechavam a porta na cara. Assim, ela morreu de frio numa das noites de inverno.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Portas para Lugar Nenhum


Era uma vez um país cheio de pessoas que falharam na vida, ou pelo menos era o que queriam que elas acreditassem, ou talvez não seja o que queriam que acreditassem pois isso pressupõe que existe alguma entidade superior as pessoas, manipulando-as. Mas o fato é que nesse país existia um discurso sobre pessoas que falharam na vida e para resolver o problema o governo fez um prédio. Esse prédio possuía 20 andares, e em cada andar havia uma porta que levava a lugar algum. A verdade, é que é uma mentira dizer que a porta levava a lugar algum, pois ela levava inexoravelmente a um único lugar: o chão. Qualquer pessoa era livre para entrar nessa construção e peregrinar por suas escadas. A principio, o governo não tinha posto um elevador por corte de custos. Afinal, porque investir dinheiro num prédio que só será usado uma vez por cada pessoa que entra nele? Mas logo após a construção, teve que fazer algumas gambiarras arquitetônicas para colocar um. A verdade é que, muitas das pessoas que entravam decididas nesse prédio tinham uma preferência ardorosa pelo último andar e a peregrinação até ele, pelas suas escadas frias e fatigantes, levava as pessoas a refletirem, perderem aquela chama de decisão do pulo, e retornarem ao mundo. O elevador foi feito para ser rápido o suficiente para essa chama se manter acessa até a chegada no último andar.
A peregrinação era um momento único na vida dessas pessoas. Elas  podiam olhar suas vidas, encarar seu destino e se questionar sobre suas decisões. O futuro estaria apenas um passo, um passo e elas voaríam, livres e poderiam sorrir, experimentando toda aquela liberdade única e mágica. Mas apenas por um instante, um curto instante de tempo, até encontarem o chão.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Era uma vez...


Era uma vez duas pessoas sensuais que se sensualizaram com amor puro e sincero da montanha no meio do supermercado. Começou assim:
- Oi. Você por acaso sabe aonde ficam as ervilhas?
- Hum. Vai até o final do corredor, vire a direita e ande por três prateleiras e vire a esquerda.
- Obrigado. Seus olhos são tão lindos.
- Hihi. E o seu pipi é tão charmoso.
- Ui. Vamos comer pão com manteiga em casa?
- Só se eu puder levar a cerveja.
- A vontade. Mas já aviso: não tenho lasanha.
- Tudo bem, sou alérgica a moluscos.
- Moro na rua atras do Lanchão, número 678. Aqui está a chave reserva, pode entrar sem bater.
- Ok. Até +.
            Algumas horas depois, Natalia foi até o número 678 da rua atras do Lanchão e entrou sem bater, mas não sem alguma dificuldade. Era necessário certa manha para conseguir abrir a fechadura. Ela aprendeu rápido e entrou. Parecia não haver ninguém. Pensou em gritar o nome do rapaz e o teria feito se não fosse pelo fato de não sabê-lo.
            Cruzou a sala em silêncio, que era bem simples: um sofá, um rack com uma televisão, um aparelho de DVD, vários filmes espalhados, entre eles, Dogville capturou seus olhos, talvez por tê-lo visto na semana anterior e achado bem interessante. A sala tinha uma mesa redonda e bem pequena, com quatro cadeiras dispostas aleatoriamente. Em cima havia um vaso com a cabeça de um animal, um veado. Estava ficando tão na moda isso, que ela ficou um pouco frustrada. Curtia seus homens com gostos exóticos e não comuns. Flores seriam tão mais inovadoras. Entretanto, havia algo naquela cabeça grotesca que prendeu sua atenção. Os olhos mortos divergentes apontavam, um para uma janela aberta, através da qual se podia vera tardede segunda-feira e o outro um espelho, no qual era forçado a fixar sua imagem imutável, acomodada ali dia após dia. Mas do que importava isso, para os mortos não existe mais futuro e nem passado. Somente aquele presente eterno, resignado, dilacerado.
            Haviam duas portas na sala, uma estava fechada a outra levava para a cozinha. Optou pela segunda e foi direto para a geladeira colocar a cerveja. Não houve nem um problema para espaço, estava praticamente vazia. Havia uma panela com resto de miojo, uma caixa de leite, queijo, algumas maçãs e outras coisas que ela nem deu muita atenção. Ao fechar a porta, olhou em volta. A cozinha estava um brinco de limpeza, isso quase a fez ter um enfarto. Como assim? Como ele deixa um resto de miojo na geladeira e o resto tudo tão limpo? Ela não podia aceitar isso. Precisava cuidar daquilo agora, era o minimo que o senso de limpeza virginiano dela exigia.
            Pegou panelas, abriu as prateleiras, tirou os ingredientes que precisava, começou a preparar uma bela macarronada, deixou o molho cair no chão de propósito e sorriu quando o óleo dos quibes espirraram em tudo. Pegou copos e encheu com coca, e os esvaziou na pia. Mas deixava um restinho. Espalhou esses copos estratégicamente pela cozinha, e um deles colocou na geladeira, por que não? Terminou de fazer a macarronada, serviu dois pratos e jogou a comida deles no lixo, mas não sem deixar um pouquinho para tampar o filtro na pia quando os colocasse lá. Começou o arroz e a fritar uns bifes. A cozinha estava ficando tão maravilhosa que nem podia acreditar. Jogou um dos quibes no teto, só por brincadeira, os outros foram pro lixo também, mas não sem passar por um prato antes, junto com um pouco de arroz.
            Quando Natalia terminou com a cozinha, ela estava imunda. Nem parecia a mesma de quando havia entrado. Ela sorriu, estava perfeita. Pegou os bifes, colocou no prato e levou para a mesa, abriu uma cerveja e começou a beber, já estavam geladas. Sentou-se ali e esperou. Quando chegou no meio da lata mais ou menos ele apareceu. Veio do quarto que ficava do lado da sala. Olhou em volta e gritou:
- Está louca?
- Não... Por que?
- O que você fez aqui?
- Dei um jeito de leve na sua cozinha ué.. Você não arruma nada.
- De leve?! Como assim de leve? Você a deixou perfeita! E você nem me conhece. Meu Deus! Meu Deus! Você é perfeita.
- Hihihi. Não é para tanto.
- Po! Não precisava, a gente nem se conhece...
- Ainda! Coloquei as cervejas na geladeira. Pegue uma e vamos comer esses bifes.
- É pra já.
- Ah. Esqueci de pegar as colheres, faz o favor.
            Ele pegou a cerveja e trouxe duas colheres. Devoraram os bifes, esfomeados como estavam. Beberam as cervejas durante toda a tarde, conversando e descobrindo tantas coisas similares entre si que era até assustador. Quando perceberam, já era de manhã e tinham feito sexo a noite toda, tão pacifica e carinhosamente que a cama até quebrara. E ficaram ali, abraçados, sem saber o que fazer. A verdade é que não queriam fazer nada. Só ficar ali, e ali ficaram. Viveram felizes para sempre durante 2 anos, quando as brigas começaram e três meses depois se separaram. Deixaram de amar um ao outro para voltarem a amar a si mesmos apenas.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

italo calvino

Aconteceu-me uma vez, num cruzamento, no meio da multidão, no vaivém.
Parei, pisquei os olhos: não entendia nada. Nada, rigorosamente nada: não entendia as razões das coisas, dos homens, era tudo sem sentido, absurdo. E comecei a rir.
Para mim, o estranho naquele momento foi que eu não tivesse percebido isso antes. E tivesse até então aceitado tudo: semáforos, veículos, cartazes, fardas, monumentos, essas coisas tão afastadas do significado do mundo, como se houvesse uma necessidade, uma coerência que ligasse umas às outras.
Então o riso morreu em minha garganta, corei de vergonha. Gesticulei, para chamar a atenção dos passantes e – Parem um momento! – gritei – Tem algo estranho! Está tudo errado! Fazemos coisas absurdas! Este não pode ser o caminho certo! Onde vamos acabar?
As pessoas pararam ao meu redor, me examinavam, curiosas. Eu continuava ali no meio, gesticulava, ansioso para me explicar, torná-las participantes do raio que me iluminara de repente: e ficava quieto. Quieto, porque no momento em que levantei os braços e abri a boca a grande revelação foi como que engolida e as palavras saíram de mim assim, de chofre.
E daí? – perguntaram as pessoas. – O que o senhor quer dizer? Está tudo no lugar. Está tudo andando como deve andar. Cada coisa é consequência de outra. Cada coisa está vinculada às outras. Não vemos nada de absurdo ou de injustificado!
E ali fiquei, perdido, porque diante dos meus olhos tudo voltava ao seu devido lugar e tudo me parecia natural, semáforos, monumentos, fardas, arranha-céus, trilhos de trem, mendigos, passeatas; e no entanto não me sentia tranquilo, mas atormentado.
– Desculpem – respondi. – Talvez eu é que tenha me enganado. Tive a impressão. Mas está tudo no lugar. Desculpem. – E me afastei entre seus olhares severos.
Mas, mesmo agora, toda vez (frequentemente) que me acontece não entender alguma coisa, então, instintivamente, me vem a esperança de que seja de novo a boa ocasião para que eu volte ao estado em que não entendia mais nada, para me apoderar dessa sabedoria diferente, encontrada e perdida no mesmo instante.

“O Raio”, traduzido por Rosa Freire D’Aguiar, presente no livro Um general na biblioteca, da Companhia das Letras, p. 14-15.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O Último Vôo do Pássaro Sem Asas - Final Alternativo

Pensei num final alternativo para o conto: http://intelectuaistransgenicossatanicos.blogspot.com/2011/07/o-ultimo-voo-do-passaro-sem-asas.html
Sinceramente, o final original não me satisfez tanto, embora seja mais próximo da idéia que eu queria trabalhar no texto. Mas, ao mesmo tempo, eu queria criar um labirinto, uma prisão de sonhos, e para isso, acho que o final alternativo é melhor. Sem mais delongas:

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Na manhã seguinte, Clarice acordou e olhou para sua cama vazia, estava sozinha ali. Tivera um sonho estranho aquela noite. Ou seria um pesadelo? Sonhara que ia numa festa e conhecia um tal de Fausto e após algumas conversas ficava com ele e chegavam até mesmo a dormir juntos. No final do sonho, ela acordava e o olhava ali, ao seu lado, dormindo tranquilamente com um sorriso no rosto e ela sabia, ele estava morto.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O Último Vôo do Pássaro Sem Asas

Fausto a amava. A amava desde a primeira vez que a tinha visto na distância. Ela era linda. Possuía o cabelo loiro com as raízes escuras, usava roupas e maquiagem que a deixavam perfeita. Ele queria muito tê-la ao seu lado, dizer o que sentia. Queria conversar e conhecê-la, compreendê-la, queria ser alguém importante para ela. Mas o fato era que não a conhecia, e tudo o que podia fazer era observar enquanto passava.

Talvez por tanto desejá-la naquela noite sonhou com ela. Foi um sonho curto, estava sentado no banco de um ponto de ônibus, ela passava e ele a cumprimentava, cumprimento retribuído com um sorriso. Acordou levemente alegre, mas logo a dor no seu coração assumiu. Não era impossível de ocorrer, mas improvável.

Sua vida seguiu normalmente, até que a viu de novo, passando. Nessa mesma noite sonhou com ela de novo, no mesmo banco da praça. Mas depois do cumprimento ela se sentava ao lado dele. Acordou em seguida. E nas próximas noites esse sonho foi se alongando e eles se conhecendo. Começaram conversando de coisas banais, como o tempo e o último acontecimento catastrófico no mundo. Logo foram adentrando seus gostos e conversavam de música, cinema e literatura. Ouviam coisas diferentes, ele curtia mais um rock e ela MPB. Ambos se interessaram pelo gosto do outro. Nos filmes, alguns coincidiram, ambos adoravam Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e concordaram que Antes do Por do Sol era melhor que Antes do Amanhecer. A discussão ficou um pouco acirrada quando ele disse que A Origem não era um filme bom. Ela se irritou, e tentou convencê-lo do contrário, mas sem sucesso. Nos livros, o que o surpreender e muito é que ambos estavam lendo o mesmo: Ficções do Borges. Para cada noite era um conto diferente sobre o que conversam, cada um dando sua interpretação, e maravilhados com a capacidade de pensar do outro. Se sentiam perfeitos juntos. Um ajudava o outro a alcançar níveis de idéias que nunca tinham imaginado. Foi quando, em determinado sonho o ônibus chegou e com muito pesar eles se despediram, ela o beijou antes de entrar nele. E ali ele ficou, solitário.

E solitário acordou, na sua cama, com o coração partido. Seu único sentido de viver o havia abandonado, e lágrimas rasgaram-lhe o rosto quando se olhou no espelo e percebeu a verdade. Ele só queria uma alma para compartilhar as emoções de seu coração, alguém com quem pudesse conversar sobre o que sentia, alguém a quem pudesse dar seu amor e afeição. Seguiu sua rotina.

Depois do trabalho foi a festa na casa do Fábio. Os planos eram beber a noite toda. Fábio era um cara social, diferente de qualquer coisa que Fausto poderia ser, ele conhecia meio mundo, e isso se mostrou na sua festa. A casa estava cheia. Mas toda aquela multidão não importou quando ele a viu ali. Estava lá também, mais bela do que nunca. Descobriu que era conhecida de um conhecido seu e logo estavam conversando. Se chamava Clarice. Com o auxílio do alcool, conversaram sobre tudo sem inibições. Descobriu que não curtiam as mesmas músicas, e para sua frustração, ele não gostava de nada do que ela ouvia. Ela não vira nenhum dos filmes que ele adorava e ele odiava qualquer um que ela mencionasse. E quando ele mencionou Borges, ela só perguntou: "Quem?". A conversa não ia muito bem. Ele não se sentia tão confortável ao seu lado, mas num impulso de sonho tentou beijá-la quando ficaram sozinhos. Ela se surpreendeu, mas retribuiu o beijo. E naquele contato físico, conversas se tornaram irrelevantes Levou-a para casa naquela noite, aonde se amaram.

Naquela noite ele sonhou que estava no ponto de ônibus novamente, ouvindo Watcher of the Skies da banda Genesis no seu MP3 player quando um ônibus parou e ela desceu. A Clarice dos sonhos estava ali e disse que não conseguia parar de pensar nele. Ele sorriu, se abraçaram e se beijaram. Riram muito, uma risada gostosa por ser compartilhada. Sentiam o mesmo e sabiam disso. Aquela era a única realidade possível para eles.

Na manhã seguinte, Clarice acordou e olhou para Fausto dormindo ali, sereno, um sonho tão quieto, tão simples que ele poderia muito bem estar morto. E ele sorria.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Prefácio da Segunda Edição de "Fragmentos Caóticos de uma Mente Esquecida"

Foi com grande prazer e supresa que acompanhei o sucesso da primeira edição de Fragmentos Caóticos de uma Mente Esquecida. O prazer é óbvio, quanto a surpresa, confesso que não esperava o sucesso. Em menos de um mês o editor me ligava falando que planejavam uma segunda edição e se eu estava disposto a revisar o texto. Respondi que sim, e revisitei minha obra. Algumas alterações se fizeram necessárias, a maior parte pequenas correções no português e a adição desse prefácio, em que pretendo comentar o processo de elaboração do livro.

Por começar, fico até surpreso de ser um livro, originalmente a idéia era ser um conto. Ela me veio em um dia na casa de um amigo, José Antônio. Na noite anterior haviamos ido numa festa, aonde pela primeira vez eu exagerei na bebida a ponto de perder a memória. Conforme me contavam o que aconteceu naquela festa, eu percebia que não lembrava de nada. E isso me fez pensar na fragilidade da percepção humana e na fragilidade da realidade. Para mim, tudo aquilo simplesmente não ocorreu. Meus amigos poderiam dizer qualquer coisa que eu havia feito que era potencialmente real, eu não poderia discordar. Por algum momento, até entrei em desespero com as piadas que faziam.

Enquanto num universo consciente tudo isso ocorria, em algum lugar da minha mente brotou uma idéia, escrever a história de um homem bebado, caído em um corredor após subir uma escada. A sua frente, seguindo o corredor, havia uma porta, que era a única possibilidade de caminho. Mas ele não se lembrava aonde estava ou como havia chego ali. Seu estado era certa naturalidade, por ainda estar bebado e não querer se mover. Simplesmente continuar caído passivo ali enquanto tenta unir suas memórias de momentos anteriores. Mas ele falha. A última coisa que lembra é estar bebendo com alguns amigos no bar e mais nada. Minha idéia inicial era tentar escrever esses fragmentos de memórias, deixando os devidos espaços em brancos, fatos omitidos, associados a uma curiosidade do que há por detrás da porta. O conto teria que ser escrito de maneira a deixar para a mente dos leitores completarem as potencialidades da história desse bebado e do local em que ele se encontrava. Quanto mais possibilidades de interpretação eu conseguisse criar, melhor seria meu conto. Mas logo desanimei. Não me achei capaz de tal empreendimento e guardei a idéia em minha cabeça.

Foi só alguns meses depois, quando li o livro Der Unendliche Sonneuntergang [O Pôr-do-Sol sem Fim, não traduzido para o português] de Albert Kaufmann, que eu compreendi como proceder. No livro de Kaufmann, Judas é o protagonista, e Deus o pune por ter traído Cristo com a vida eterna. Judas, seria, então, testemunha da humanidade, testemunha dos resultados de seu ato contra o filho de Deus. Ele começa a vagar pela Terra, assumindo diferentes nomes e identidades ao longo dos séculos. O interessante do livro é como o autor trabalha a questão da memória. Apesar de ver tudo, testemunhar tudo, Judas não compreende mais do que as pessoas de sua época e nem dá importância para eventos considerados importantes. Para ele, a Revolução Francesa foi uma época de regada de prostituas e cervejas em algum lugar da Inglaterra. "- Que me importa lembrar o que fazia Napoleão?" dizia ele para a perplexidade de um historiador contemporâneo. Mas ele sabia contar perfeitamente a história do seu amor, Margareth, uma atriz alemã que não ficou conhecida de meados do século XVIII. Ter 2 mil anos de história não o tornou uma testemunha objetiva de tudo, apenas demonstra a fragilidade da memória humana e essa necessidade social criada de estabelecer o que é importante ou não lembrar, que Judas claramente ignora.

Voltando ao meu conto, a leitura desse livro me deixou inspirado, compreendi coisas que estavam dentro de mim, só esperando uma chave para libertá-las. Retornei ao projeto do meu conto. Trabalharia a existência apenas do presente. O passado não existiria, senão como memória e o futuro senão como esperança. E decidi adicionar um elemento místico. Capotado ali, o bebado é visitado por um gato que pula do muro e se aproxima dele. Mas esse gato tem uma particularidade, ele possui três olhos. O bebado não sabe se é sua visão turva ou se é algo real do animal. Além disso, o bicho fala e se apresenta como Azrael e começa a conversar com o bebado, fazendo-o perguntas, revivendo memórias. O homem é levado a presenciar e recontar novamente eventos do seu passado. Mas esses fragmentos teriam que ser contados de maneira não linear e de maneira duvidosa. As falas de Azrael precisavam ser duvidosas o suficiente para o leitor não acreditar que ele era um portador da verdade, embora essa fosse uma das interpretações possíveis.

Conforme escrevia essa história, percebi que um conto não daria, e cada capítulo se tornou uma lembrança do bebado, contada de forma não-linear. Para brincar um pouco mais, decidi fazer com que, com exceção do primeiro capítulo, cada capítulo pudesse ser lido na seqüência que o leitor desejasse, de tal modo que, a seqüência escolhida afetasse sua interpretação da obra. Foi um desafio, e confesso que me deu grandes dores de cabeça. Entre essa decisão e o texto final, foram quase 3 anos de escrita e re-escrita. Tenho que agradecer a José Antônio que me ajudou a organizar essas idéias em conversas estimuladas com uma leve garrafa de pinga ao lado. E aos meus amigos que leram o texto e me ajudaram em vários pontos. As vezes, sinto que o fato de eu ser autor desse texto é mera circunstancialidade. Sem essas pessoas ele nunca teria sido possível.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Os Três Niveis do Amor das Flores no Rochedo ou Considerações Sobre a Navalhada, a Punhalada e a Facada

I. A Navalhada da Decepção

Jorge chegou no apartamento de Eduardo de maneira inesperada. Ele acabava de sair do banho quando recebeu a mensagem que Jorge logo estaria ali. Na realidade, sabia que ele viria, só não sabia o horário.
- Então - começou Jorge, depois que já estavam na cozinha, cada um com um copo de cerveja na mão - descobri algo. Algo que vai te animar.
- O que?
- Você precisa ver com seus próprios olhos.
- Fala logo!
- Não! Preciso de mostrar, se não você vai fugir como sempre faz. E, o loco, já vai abrir outra garrafa? Ta tomando muito rápido!
- Eu preciso beber.
- O que aconteceu?
Ficaram em silêncio por algum tempo. Eduardo queria contar ao amigo, só não sabia como. Os pensamentos fluíam em sua mente de maneira desordenada. Uma memória ia para outra, enquanto sentimentos dispares dançavam sobre elas. E tudo isso precisava ser condensado em palavras. Meras palavras. Jorge esperava, enquanto olhava para o amigo. Uma de suas qualidades era saber dar o silêncio para as pessoas quando precisavam. Não sentia a necessidade de ficar falando como um louco. Era isso que fazia dos dois grandes amigos. Eduardo era bem inteligente, mas tinha problemas para passar em palavras suas idéias, o que o fazia demorar, as vezes, para conseguir comunicar algo.
- Então - começou, depois de alguns minutos, enquanto ia pegar a terceira garrafa de cerveja - é a Cristina de novo cara. Sempre ela. Por que eu não consigo esquecê-la? Eu a amo.. Essa é a verdade. A amo mais do que gostaria. E tipo, você me entende não? Eu tento. Eu só gostaria que ela me considerasse um amigo, mas não sei, por mais que a gente converse ela parece me considerar um nada. E ontem, ontem foi foda.
- O que aconteceu?
- Eu descobri que ela vai fazer uma festa de aniversário esse final de semana. Ela convidou todo mundo, menos eu, todo mundo! E ontem eu fiquei com ela a tarde inteira, e ela não mencionou nada. Acredita nisso? E sei la. O que me irrita mais, é que eu converso bastante com ela, conto coisas para ela, que sei la, são coisas que eu só teria coragem de contar para você. E ela me trata como se eu não existisse. Esse esquecimento dela é uma facada pro meu coração.
- Te entendo. Mulheres são cruéis mesmo. Mas você não pode deixar ela te abater assim cara.
- Eu tento. Tento mesmo, mas só a visão dela despedaça meu coração. É muito forte.
- Mas você tem duas opções só, ou você diz tudo para ela ou larga disso.
- Eu tento, mas se eu não consigo que ela se importe comigo como amigo, como esperar que ela se importe comigo como algo mais? Eu realmente tento.
Dessa vez foi Jorge que foi pegar uma outra garrafa de cerveja. Aproveitou o momento para dar um silêncio estratégico.
- Quais tão mais geladas aqui?
- Pega as do fundo.
- Então - começou Jorge, voltando para a mesa - você tem que curtir mais a vida, sair mais. É que você fica limitado no seu mundo, ai ela parece a única opção. Sair e conhecer pessoas, é o que você precisa.
- Não tenho animo, nem curto tanto assim sair, você sabe.
- Chega disso. A gente vai sair, e vai ser hoje!
- Sair aonde?
- Você vai ver, já marquei com o pessoal, o Marcos e o André vão também. Vai ser uma boa oportunidade para gente trocar umas idéias e curtir.
- Sei la..
- É sexta-feira poxa! Você trabalha amanhã? Não! Então, vamo lá! Chega de ficar deprimido e solitário em casa. Vai te ajudar a refrescar a mente.

Algumas horas depois, eles estavam dentro de um astra cinza rumo a algum lugar que Eduardo não sabia aonde era. Mas que os outros, principalmente Jorge, pareciam muito empolgados em ir. Foi só quando entraram naquela rua ali que ele percebeu. Mas já era tarde demais.
- Porra, vocês tão me levando pro puteiro? - falou Eduardo, realmente irritado e com um sentimento de fuga no seu coração. Queria voltar para casa imediatamente, sem pensar.
- Cara, essa casa é das boas! A gente descobriu ela ontem! O nível das mulheres aqui é muito foda! Compensa cada centavo! - disse Marcos.
- Porra! Não quero saber! Caralho. Mancada isso ai! - tentou argumentar Eduardo, mas percebia que os outros nem ligavam.
- Cara, vamos ae. Vamos curtir! Você não precisa pegar nenhuma puta não. A gente nem ta muito afim também. Vamos ficar mais no barzinho tomando uma só e olhando uns peitinhos! Olhar é de graça hehe - disse Jorge.
- Eu não curto essas coisas, po! Vocês sabem disso. Relaxo! Vamos embora. - Eduardo estava realmente frustrado com a situação, queria pular fora do carro, seu coração batia bem rápido.
- Cara, como eu disse, vamos ai só para tomar umas, é de boa! Você não precisa comer nada se não quiser. Vai ficar tomando sozinho em casa? Vamos ae!

Depois de uma longa discussão, finalmente os três conseguiram levar Eduardo para dentro do puteiro, e eles ficaram ali. Procuraram uma mesa, e ficaram tomando umas, enquanto olhavam o movimento no local. Algumas mulheres quase totalmente sem roupas dançavam no palco, outras passavam exibindo suas curvas pelas mesas, provocandos os homens ali. Jorge, André e Marcos pareciam curtir bastante o ambiente. Só Eduardo que estava mais quieto que o de costume. Estava extremamente irritado, considerava os amigos uns traídores. Não confiaria mais neles. Nem um pouco. André e Marcos até vá, mas não esperava isso de Jorge. Nunca de Jorge. Olhava para ele com raiva, mas o amigo retribuía com um olhar sorridente e passava uma mão boba numa das moças em volta.
Em certo momento, Eduardo precisou ir ao banheiro e foi quando estava saindo dele que aconteceu. Trombou com Cristina, ali, saindo do banheiro feminino do lado. Aquelas roupas que ela vestia, ou melhor, aquelas roupas que ela não vestia, aquela maquiagem e aquele lugar, só podiam significar uma coisa. E foi nesse momento que Eduardo sentiu uma navalhada de decepção estilhaçar seu coração.

II. A Punhalada da Rejeição

- Cristina?! - falou com uma voz baixa, mas forte. Ia perguntar para ela o que ela fazia ali, mas a resposta era tão óbvia, que nem terminou de abrir a boca ao fazê-lo.
Ela olhou para ele, soltou uma baforada do cigarro que fumava.
- Olá - disse, como se tivessem se encontrado casualmente entre as prateleiras de um supermercado - Tudo bom? Estou atrasada, depois a gente conversa.
A indiferença dela o irritou. Ela sabia o que ele sentia, ele tinha certeza disso. Não era possível não saber. Ele era um cara óbvio em relação aos seus sentimentos, não sabia disfarçá-los. Se fosse outra situação, ele engoliria essa indiferença dela. Mas ali, misturados a decepção que sentia, não aguentou. Segurou-a pelo braço. Queria a atenção dela. Mas nisso um homem grande de terno os separou.
- Algum problema? - disse o homem.
- Nenhum. Eu só perdi o equilibrio e ele me ajudou a não cair - disse Cristina - Mas agora tenho coisas a fazer - disse ela, e andou até um canto, aonde um homem de uns 50 anos, bem vestido a esperava. A pegou pelo braço e os dois foram para o local aonde ficavam os quartos dando umas risadinhas.
Eduardo ficou em silêncio enquanto observava tudo isso. Voltou para a mesa aonde os amigos estavam, não sem passar no bar antes.
- Estamos pensando em ir embora, já que você nem está curtindo muito - disse André, nisso reparou no copo de uísque na mão de Eduardo - Ou será que você está mudando de idéia?
- Vamos ficar - disse, e virou a dose numa só e pediu outra.
- Encontrou algum rabo de saia que te interessou por ai? - disse Jorge.
Eduardo o olhou. Será que o amigo sabia? Teria trazido ele aqui de propósito? Ficou o olhando, olhando aquele sorriso maroto. Todos sorriam naquele lugar, sem se importar com sua alma em ruínas, com seu espírito em decadência. E em algum canto ali, ela ria também, ria enquanto alguém a comia. A imagem daquele senhor com o bigode entre as pernas dela o desesperava. Sua alma gritava em fúria, e ele descontava na bebida. Em vez de pedir outra dose, pediu a garrafa. Cerveja era muito fraca para aquela agonia.
Suas memórias e seus sentimentos voavam, como se estivessem vivos. Sua pele se arrepiava com as idéias que tomavam conta de sua mente. Ele sempre tentou compreender porque ela não o tratava como amigo. Ele sempre quis essa respostava enquanto esperava por ela. Sempre esperando como um tonto. E tudo que ele pedia a ela, no fundo de seu coração, é que ela esperasse por ele uma vez. Uma vez. Que ela demonstrasse algum interesse por ele. Mas no fim, a verdade era que ele nem existia para ela. A navalha da indiferença retalhava o interior do seu peito, sem misericórdia alguma. E uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Os amigos o olhavam atonitos, e tentavam entender o que aconteceu. Mas ele ignorava as vozes deles. Apenas falava para deixar ele em paz. Foi quando Jorge disse:
- Cara, ela nunca ia dar o cuzinho para você mesmo! Vamos comer umas putas e se divertir!
Eduardo se irritou e agarrou a gola do amigo em fúria. Sentiu olhos virando na direção da mesa. Dois homens de terno vinham rápido em direção a ela. Mas ele soltou logo. Sabia que sua raiva não era em relação ao amigo. Não, o amigo só tinha aberto os olhos dele. Os olhos para a verdade que ele nunca quis ver. Pensava nessas coisas, enquanto Jorge dizia que estava tudo bem para os segurança.
- Ela é uma das mais caras aqui. 400 a hora com ela. - disse Jorge.
- Por que cara? Por que?
- Se eu te dissesse você acreditaria? Você tem que esquecer ela.
- Do que estão falando? - Perguntou André.
- Nada não - disse Jorge.
- Pelo jeito nosso amigo aqui quer uma puta muito cara pro salário dele - disse Marcos, e jogou uma nota de 100 na mesa - Pegai! Te ajudo a pagar!
André fez o mesmo. Jorge olhou para os dois peixinhos, olhou para o amigo, e tacou um cheque de 200 reais na mesa enquanto dizia: "Pronto. Vá viver seu sonho."

III. A Facada do Amor

Eduardo olhou para a grana, e para os amigos. Mas não disse nada, apenas encheu seu copo mais uma vez e começou a beber. Sua alma estilhaçada não permitia a ele esboçar nenhuma reação. André e Marcos logo saíram da mesa para aproveitar a noite com duas putas nas quais estavam de olho por um tempo, Jorge falou que cuidaria de Eduardo enquanto eles estivessem fora.
- Foi mal cara. Eu queria te falar, mas você não acreditaria - Eduardo ficou quieto. A única maneira com que expressava algo era o levantar e baixar do copo - Eu fui falar com ela ontem, quando vi ela aqui. Fiquei bem surpreso, bem surpreso mesmo! E cara, eu falei para ela, falei tudo sobre você, como você é apaixonado por ela e tudo mais, que ela precisava dizer para você que não te ama, assim você poderia ficar mais sussegado e esquecer ela.
- E ai? - Havia certo brilho nos olhos de Eduardo ao ouvir as palavras do amigo. O primeiro sinal de vida que ele dava desde que descobriu a verdade das coisas.
- Bom. Eu sei que é dificil. Mas ela deu uma risada e disse que sabia de tudo, que você era claro como o dia - Eduardo levou a mão no coração. Jorge não precisava de muito para saber que a punhalada do menosprezo entrava ali. - E que ela não ia dizer nada. Que ela gostava de você, assim, atras dela.
Eduardo ia encher outra dose, mas Jorge tirou a garrafa de perto e falou prum garçom levar ela embora, mesmo a protestos de Eduardo.
- Você já bebeu muito hoje cara. Eu queria mesmo ter te dito essas coisas. Mas você não ia acreditar, ia achar que era só eu tentando te incentivar a esquecê-la. Mas é isso, essa é a verdade das coisas. Quando o André e o Marcos voltar a gente vai embora.
Ficaram ali, em silêncio, os dois. Sem mais sorrir. A risada estava morta. Em certo momento, Eduardo se levantou e foi ao banheiro. Ficou ali além do tempo da mijada, apreciando sua própria dor. Quando saiu viu que Cristina e o homem haviam acabado. Ele provavelmente já tinha enfiado e tirado a vara de dentro dela várias vezes nessa hora que ficaram juntos. A raiva de Eduardo voltou a brotar. Ele foi até a mesa, aonde Jorge esperava, pegou a grana e falou:
- Eu vou tê-la. Nem que seja por uma noite. Aquela vadia, puta, vou gozar dentro dela.
Ele foi. Irritado. Esticou as duas notas e o cheque e disse:
- Agora vai ser comigo!
- Já tenho um cliente marcado para daqui 10 minutos. Você não vai conseguir nada comigo hoje. - ela deu um sorriso para ele, enquanto acendia um cigarro.
- Pago o dobro do que você vale!
- Não.
- O triplo! Pago o triplo!
- Não.
- Puta que o pariu! Você é puta ou não é?! Vou ter pagar quatro vezes mais, mas você vai dar para mim!!!!
- Não - disse ela com um sorriso no rosto, enquanto soltava uma baforada no rosto dele.
- Você dá para todo mundo caralho! Por que você não quer dar para mim?
Ela se sentou numa mesa vazia, e apontou para a cadeira a frente. Eduardo, tremendo de raiva se sentou, e os dois ficaram se olhando.
- Para você, o preço é diferente.
- Quanto? Me diz seu valor que eu pago.
- Quero seu coração.
Eduardo ficou parado. Sem entender, confuso. Aquelas palavras quebraram qualquer expectativa que ele poderia ter.
- Quero seu coração - disse ela - Porque não cobro dinheiro de quem amo.
O coração de Eduardo palpitava, teria ele entendido certo?
- Me ama?
- Sim. Meu expediente acaba daqui uma hora, depois que eu atender aquele senhor - apontou para um velho que caminhava em direção a eles.
Eduardo a olhava confuso para ela
- Como assim?
- É só para você saber - Ela se levantou e cochichou no ouvido dele - Saber a hora que pode me acompanhar até em casa - e foi até o velho, pegou no braço dele, e o levou até o quarto.
Eduardo voltou até a mesa sem perceber que sorria. Jorge o estranhou:
- E ai cara?
Eduardo não disse nada. Ficou apreciando a alegria em seu coração. Logo, Marcos e André estavam ali, prontos para ir embora.
- Podem ir - disse Eduardo - Eu vou esperar por ela.

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Esse conto foi escrito em conjunto por Caetano e Zeh (que pensa em um final alternativo hehe)

sábado, 18 de junho de 2011

Diálogo 9 - Transcendência

- Então, falando nisso, ontem aconteceu algo muito estranho.
- O que?
- Então, sabe quando você está dormindo, mas não está completamente? Você fica num estado de semi-consciência e tal?
- Acho que sim..
- Isso tem acontecido muito comigo nos últimos dias. Eu sinto que estou acordado, estou consciente dos meus arredores, mas não consigo me mexer. No começo eu entrava em pânico, e tentava lutar contra isso até eu despertar de vez.
- Tenso, heim?
- Um pouco! Mas eu comecei a tentar a aceitar esse estado, tentar me controlar! No começo é bem difícil. Imagens começam a aparecer e elas parecem reais e eu entro em pânico e acordo. Aí...
- Reais, como assim?
- Então, é meio que uma alucinação, entende? São imagens que aparecem, mas não são realmente reais, mas parecem ser. Memórias, ilusões, medos, realidade começam a se misturar. Por exemplo, quando você está desperto você sabe que está sozinho no quarto, mas não no estado de semi-consciência. Ali você começa a sentir que tem alguém por perto, mas é só seu medo se manifestando. Mas ele se torna real a ponto de você entrar em pânico. E, como você não consegue se mexer, a sensação de desespero, insegurança é brutal.
- Acho que entendo. Vi em um filme uma vez, que para nossa mente, sonho e a percepção sensorial são, no fundo a mesma coisa. São imagens em nossas cabeças e é nosso cérebro que determina o que é real ou não quando estamos despertos. Mas, no meio de um sonho, essa seleção não ocorre. Então, para nossa mente, as imagens do sonho são reais. Por isso sentimos brutalmente os sonhos.
- Sim, algo assim. Faz sentido. Mas acho que tem algo a mais.
- O que?
- Algo além do estado de sonho.
- Hum.
- Então, não cheguei no fim da minha história ainda! Como eu tava te dizendo, as imagens começam a aparecer, e mesmo que objetivamente elas não sejam reais, você acredita que são. Mas eu comecei a dominar isso. Comecei a concentrar na minha respiração, e tentar ignorar, acalmar meus sentimentos. E deixar minha consciência desvanecer, se apagar. É uma sensação bem estranha, você começa a escutar um zumbido estranho pelo ouvido, que não sei explicar. Seu corpo começa a se arrepiar, e sua mente começa a imergir na escuridão. Sua consciência começa a sumir. E não é fácil lidar com isso! Não sei, é meio que uma sensação de morte. Se é que dá para dizer isso. E você entra em pânico e acorda. Mas ontem eu consegui controlar. Eu imergi na escuridão completamente.
- Como assim? O que aconteceu?
- Eu acordei.
- ...
- Bom. Não acordei no sentido de despertar. Mas num sentido mais amplo entende? Como se eu realmente tivesse ganho consciência. Ou talvez eu a tivesse superado. O fato é que, de repente, tudo ficou claro para mim. Não sei quanto tempo se passou, sinceramente, mas eu fiquei ali, deitado na cama, de olhos fechados, imerso. Como se eu tivesse entrado em algum lugar obscuro, e eu não precisava mais de palavras, porque eu sentia tudo. E eu conseguia ver todas minhas memórias, andar por elas, revivê-las, abandoná-las. E eu sentia, conseguia sentir tudo, ao mesmo tempo que não sentia nada. Mas eu sentia, não pensava. É dificil.
- Cara, que drogas você andou usando?
- É díficil por em palavras! Mas foi uma experiência única. E eu abri os olhos! E pude ver na escuridão e eu percebi que a escuridão, na realidade, é apenas outra luz. Uma luz que nos condicionamos a não enxergar! Percebi que o mundo, o mundo que acreditamos real é apenas uma simplificação tola, e uma simplificação que acreditamos fazer sentido. E ai aconteceu algo fantástico.
- Foi aquele seu chá com uísque?
- Não cara.. Eu não tava usando nada. E eu ponho pouco uísque no chá você sabe.
- Sei.. Aham.
- Então, deixa eu terminar. Porque eu levantei. Levantei naquele estado, que não sei como chamar, super-consciência talvez? Eu levantei, olhei em volta e olhei para tras, porque eu queria acender a luz, e sabe o que eu vi? Eu vi a mim mesmo, deitado na cama e tomei um susto! Eu estava separado de mim mesmo!
- Caraaa.. Caraaa. O que você colocou no seu chá?
- Eu estava ali, me observando. Mas, o mais estranho é que eu não me assustei, pareceu tudo tão óbvio, tão natural. Tudo fazia tanto sentido. Mas foi então que eu senti as verdadeiras trevas, a verdadeira dor. Eu comecei a ser sugado. Algo começou a me puxar. Eu me senti como se estivesse sendo sufocado, e de repente... eu fui expelido, torturado, aprisionado. E eu estava acordado novamente. Respirando de maneira ofegante, todo suado, na minha cama. E tudo parecia tão pálido, tão falso. E eu me sentia limitado. Não conseguia mais ter acesso aquelas coisas, eu não conseguia mais. Eu não conseguia lembrar quase nada do que eu havia experienciado. Parecia tudo como um sonho.
- Mano! Cê ta loco!
- Todos estamos...

domingo, 22 de maio de 2011

Melancolia

Ele estava sozinho, procurando as palavras mas elas simplesmente não surgiam. Deu outro gole na bebida e deixou o liquido dourado passear pela sua boca, primeiramente no meio da língua, e não sentiu gosto de nada. Depois na ponta, e sentiu-o excitando sua língua, embora não apreciasse tanto o gosto ali, e por fim engoliu. No fundo da língua apreciou o gosto amargo e esfumaçado da bebida. A mistura dele com a sensação na língua lhe deu arrepios pelo corpo, e ele ficou alguns segundos sem pensar em nada, apenas apreciando aquele momento perdido no espaço e no tempo. No espaço e no tempo.
Em volta, as pessoas riam e conversavam alegremente, ou pelo menos pareciam alegres. E ele sentia que não pertencia aquele lugar. Olhar essas pessoas era como olhar caricaturas, exageros de existência. Sua solidão foi violada pelo garçom:
- Outra dose?
- Por favor.
E voltou aquele momento, só dele. E desejou que nunca acabasse, que o tempo não o profanasse. Mas era impossível ele sabia. Apreciou sua última dose e se preparava para ir embora quando ela se sentou ali, a sua frente, com um vestido vermelho, os cabelos negros, ondulados, soltos . Seu belo rosto. Ela lhe disse:
- Permaneça comigo, por um momento.
Ele se sentiu confuso. Todo seu corpo, todo seu inconsciente já tinha aceitado a solidão, já tinha aceitado que ia embora. Mas o pouco que restava do seu consciente lhe disse para se sentar. Depois de se olharem por um tempo, ele se sentou. O garçom se aproximou de novo e ela disse:
- Por favor, uma água para mim, e para ele pode trazer o mesmo que ele estava bebendo.
Com um aceno da cabeça, o garçom saiu. E os dois ficaram se olhando, sem dizer nada. O garçom voltou com as bebidas, colocou-as na mesa e partiu para atender outros clientes. Olhou para sua dose, e ficou um pouco confuso. Não entendia a razão de tudo isso. Ela quebrou o silêncio:
- Não precisa ficar assustado, pode tomar. É só para te agradecer.
- Me agradecer?
- Sim. Por tentar salvar minha vida - ele a olhou confuso, não conseguia se lembrar de tê-la visto antes, tentou forçar a memória, mas nada. - Mesmo tendo falho. Mas não foi culpa sua, ninguém poderia ter feito nada mesmo.
Ele riu levemente, não sabia se tinha bebido demais, ou se ela que era louca. Pegou o copo e tomou um gole.
- E quando foi isso?
- Daqui a pouco.
- Então não aconteceu ainda? - perguntou, juntando suas energias nas tentativa de entender.
- Propriamente, ainda não. Mas de certa maneira, já aconteceu.
Ele a olhou confuso. Quem era essa mulher? Ela notou a confusão no rosto dele e deu uma risadinha. Deu um gole na sua água:
- Ontem eu tive um sonho, mas não dá para dizer que é propriamente um sonho. Talvez um delírio? Não sei. Eu estava num estado de semi-consciência, deitada na minha cama. Eu olhei para o lado e havia uma pessoa ali. Me assustei, mas não conseguia me mexer. Quando olhei melhor, percebi que era eu mesma. Mas era eu em todas as idades possíveis, como se elas pudessem existir no mesmo espaço, independente do tempo. Sim, imagino que a ausência do tempo causaria isso. É como se todos nós, e todas as coisas, existíssemos em todas as nossas formas, da criação até a morte, e o tempo decidisse qual devemos assumir. Entende?
Olhou-a. Mas não disse nada, apenas fez um aceno com a cabeça e bebeu.
- Então, em seguida eu comecei a ver diversas cenas em sucessão. É dificil explicá-las e não importam tanto. O que importa é que elas avançavam rapidamente, até que começaram a diminui de velocidade e eu estava aqui, nesse bar.
- Deixe-me adivinhar: ai você me pagava uma bebida?
- Não... A gente não se encontrava, pelo menos não nessa situação. Mas mais pra frente. Um pouco antes de eu morrer.
- Morrer?
- Eu vi minha morte. Hoje é o dia em que eu morro. E gostaria de te agradecer, porque não poderei fazê-lo. Mas preciso ir. Até daqui a pouco.
Ela se levantou e foi até outra mesa, aonde um rapaz a esperava. Ela se sentou e eles conversavam alegremente. Ele ficou observando, curioso. Ela era bela. Mas qual a razão de tudo isso? Talvez uma aposta, talvez ela quisesse tirar com a cara dele. Havia bebido muito para se importar. Levantou, pagou a conta e saiu.
Chegou até seu carro no estacionamento, entrou nele. Se sentou. Estava muito bêbado para dirigir e estava cansado. Havia um carro de polícia lá fora. Resolveu esperar um pouco, até eles saírem para sair também. Encostou no banco e fechou os olhos. Quando os abriu de novo não sabia quanto tempo havia passado, o carro de polícia já não estava mais lá, nem vários outros no estacionamento. Não sabia quanto passou. Estava atordoado ainda. Procurou a chave no bolso e colocou na ignição. Quando ia ligar, ouviu passos e olhou para o lado. A mulher estava entrando no estacionamento. De algum lugar das trevas surgiu um cara que tentou pegar a bolsa dela. Ela não a soltou, e ele deu um disparo.
Abriu a porta do carro, o bandido, ao ouvir o barulho, pegou a bolsa e saiu correndo. Ele foi até a mulher. Ela estava no chão, sangrando. Eles se olharam. Ela deu um sorriso, tombou a cabeça e morreu ali, na companhia do homem.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Abismo

Marcos chegou em casa 20h cansado. Sabia que precisava escrever um relatório para amanhã, mas o sono era mais forte que ele e deixou-se deitar por alguns momentos. Acordou em direção ao trabalho, em seu carro, quando, de repente, alguém bateu em sua traseira e, devido ao empurrão, ele bateu no cara da frente. Mas continuaram seus caminhos. Sem parar.
Quando finalmente estacionou o carro, olhou o estrago. Havia amassado demais e o desespero tomou conta de seu coração. Era a primeira vez que batia, e não gostava do resultado da sua obra. Uma obra que duraria para todo o sempre. Mas não teve tempo de degustar a sensação, pois logo um automóvel furioso parou ao seu lado. O dono saiu e começou a xingá-lo, perguntar como ele bate o carro e simplesmente foge da cena. Não sabia o que responder e o homem continuava. Simplesmente disse que era culpa do carro da frente. Isso pareceu acalmar o homem que encostou-se no carro e acendeu um cigarro. Enquanto soltava fumaças delirantes, fumaças que começavam como espirais mas viravam cavalos selvagens que logo se tornavam bailarinas a se dissolver na chuva que começava.
O homem começou a andar e deixou o carro ali no meio do estacionamento mesmo. Sem se importar. Virou para Marcos e falou:
- Vou até o show aqui do lado.
Várias pessoas caminhavam em direção a uma tenda e Marcos resolveu segui-las. Chegou lá e percebeu que, só metade da construção era uma tenda, a outra metade era um palco e observou a multidão sentada em frente a ele, todos os tecidos cobrindo o lugar eram vermelhos. E Marcos ficou ali, parado do lado do estranho que acabara de conhecer, enquanto esperavam as cortinas se abrirem. O céu estava extradiornário, a lua maravilhosa, e as estrelas fantásticas. Nunca havia presenciado tanta paz. As cortinas se abriram e ali estava ela. Bela, deitada de maneira retorcida com vestes azuis no branco do chão. E começou a se levantar, e começou a dançar. Se tão leve, tão frágil, como se seu corpo fosse feito de água. Começava a amá-la.
E logo, ela estava sorrindo para ele. E, aonde estava o estranho estava ela agora, olhando-o, com um sorriso brincalhão. Não mais as vestes da dança, mas roupas casuais. Segurou o seu braço e puxou-o. Os ventos batiam em seu cabelo, e eles quase encostavam na face de Marcos. Sentiu o cheiro da moça, o que o deixou sem energias, e logo chegou a um barzinho. Sentaram-se no balcão. Ela pediu um vinho, ele um uísque. Beberam, enquanto conversavam, riam e se amavam. Atrás deles, criaturas como que saídas de uma pintura de Bosch, deleitavam-se com o ambiente. Algumas dançavam, outras tocavam e algumas apenas conversavam enquanto apreciavam sua bebida.
Naquele momento, o bar já se encontrava praticamente vazio. Apenas a banda e alguns casais. Foi quando ela decidiu se sentar no balcão e começar a cantar. Ficou maravilhado e não podia acreditar que ela era real. Mas não deixou tais questões se formarem por completo em sua mente, apenas deleitou-se com o momento, deleitou-se com a voz dela, cada vez mais potente. Toda aquela potência atingiu o frágil vidro das lâmpadas e elas estouraram. Mas, em vez de escuridão, um jorro de luz dourada e fresca começou a sair delas, como um conto de Gabriel Gárcia Marquez. Marcos se assustou e subiu no balcão, mas ela, ela fez o contrário. Mergulhou em toda aquela luminosidade. As outras criaturas pareceram não se importar. Continuaram a fazer o que faziam antes, até serem consumidas pela luz.
Marcos já estava na mais alta prateleira de bebidas, sem saber o que fazer. Quando ela emergiu de toda aquela luz. E sorria para ele, convidando a pular também. Ele contemplou aquela visão e, entre a sanidade de se manter na prateleira e a loucura de mergulhar nos braços dela, escolheu a segunda opção.
Nadaram com prazer e sem rumo, contemplando o céu, as criaturas que nadavam com eles e as ilhas. Foi numa dessas que decidiram fazer sua parada. E permaneceram ali, parados, entre duas árvores gêmeas, cheias de flores amarelas e violetas. Se olhavam e se beijavam. E logo, estavam numa montanha. Nela, Marcos conheceu o amor puro e sincero.
Quando acordou estava sozinho. Sua amada havia desaparecido e a luz secado. No silêncio e desespero voltou para casa e sentou-se na sua cama. Olhou para suas coisas, mas nada o contentava. Precisava revê-la. Pegou um pedaço de pau e quebrou a lampada do seu quarto,mas a esperança logo se tornou desespero, quando só escuridão saiu dali. A mais completa e brutal escuridão. A escuridão do silêncio. Mas não desistiu. Foi até a cozinha, pegou uma faca e cortou seus pulsos. E esperou. Logo, toda a cozinha estava cheia de seu sangue. Mergulhou nele e nadou, até encontrar novamente aquela ilha. Mas as árvores não tinham mais flores nem folhas. Apenas galhos retorcidos. E ali, entre elas, deixou sua vida esgotar-se.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

miguel torga

"O tempo em S. Cristóvão anda devagar. As terras são cascalho puro, de maneira que é preciso dar prazo às raízes para roerem o granito até fazerem de uma areia um grão de cevada ou de centeio. Um ano, ali, são trezentos e sessenta e cinco dias bem medidos. E as pessoas que lá moram, afeitas a horas longas, têm uma paciência de relojoeiro, cheia de mil cálculos e de mil ponderações. Exactamente como nas leiras, onde a gente vê semanas a fio o mesmo pé de milho parado, meditativo, enigmático, a aloirar encobertamente a sua espiga, assim nos homens mas pasmados, mais lentos e mais metidos consigo, anda às vezes uma resolução secreta a criar e a amadurecer. E saem obras tão perfeitas destas meditações, tão acabadas na concepção e na forma, que só o dedo da providência, porque aponta do céu, é capaz de lhes evidenciar os defeitos de fabrico. Mas mesmo assim são às vezes precisos anos para que Deus descubra a fenda do cântaro. Tal é a perfeição dos artífices de S. Cristóvão!
No cado do tio do Artur, a façanha foi de pura prestidigitação. Na altura exacta em que o rapaz, trabalhador e zeloso como sempre, murava o lameiro da ribeira, o velho sumiu-se como por encanto. Viram-no à noitinha ir buscar a jumenta da relva e trazer-lhe depois feno do palheiro da Chã, mas daí por diante os seus passos apagaram-se sem deixar rastro. Essa noite, embora de Agosto, foi escura e comprida, a condizer com a manha e a perseverança do lugarejo. E nela nem se ouviram gemidos, nem passos suspeitos, nem uivo de cão, nem pio de coruja. Nada. Ao cantar do galo, quando a aldeia acordou, havia no ambiente a mesma calma serenidade do dia anterior. As mulheres acenderam o lume e fizeram o caldo, os pedreiros, na obra do Artur, assentaram os alicerces do novo troço de parede, e só tarde, quase à hora do almoço, é que a jerica, cansada do esquecimento em que o dono a deixara na loja, deu de lá um impaciente sinal de enfado. E foi através desse aviso animal que S. Cristóvão compreendeu que o Bento Caniço habitualmente tão madrugador, não acordara ainda e que o melhor seria bater-lhe à porta.
Bateram, realmente, entraram, e não há dúvida que durante o sono lhe acontecera alguma desgraça. De que natureza, é que ninguém sabia.
A casa não estava roubada, não havia vestígios de luta nem de violência, reinava uma tal melancolia no sepulcro vazio, que o dono parecia ter subido ao céu.
De busca em busca, de suspeita em suspeita, de interrogatório em interrogatório, o mistério cada vez se adensava mais. O Caniço, nem mau nem bom, como era de regra no lugar, se não tinha amigos, também não tinha inimigos. Solteirão, o que lhe pertencia, embora de tentar, fizera-o há muito por escritura ao Artur, seu único sobrinho. De forma que ninguém descortinava maneira de encontrar fio à meada.
Ora, por mais absurdo que seja o mundo, uma criatura não desaparece de noite para dia sem fazer pensar. O homem necessita de sentir uma segurança vital a longo prazo. A morte é aceite por todos como senhora de baraço e cutelo, mas a esperar pelo freguês lá muito longe, numa encruzilhada que tem vários desvios. Por isso, o caso do Bento Caniço, evaporado na terra por obra e graça, desencadeou em S. Cristóvão um vendaval de suspeitas e de investigações. Tudo inútil. Os dias passaram, as raízes de várias sementeiras digeriram os carolos de várias colheitas, e o problema cada vez mais intrincado.
De todos os zelos pela claridade daquele sumiço, o maior era, como de justiça, o do Artur. Honrado homem no conceito da aldeia, bom cristão nos anais da igreja, dedicado à família, não houve passo que não desse, esforço a que se poupasse, a ver se conseguia decifrar o enigma. E, quando verificou que de maneira nenhuma podia valer ao corpo do tio, tentou ao menos salvar-lhe a alma. Nesse capítulo, até o padre Maurício reconheceu que a piedade do Artur roçara pelo exagero. Vinte missas em S. Cristóvao, já são missas! Juntando ainda o ofício a sete vozes, com que mandou encomendar a sombra do defunto, subiu-lhe a coisa a conto e pico, maquia de considerar.
E foi assim, dignificada na diligência vã dos estranhos e no amor devotado do sobrinho, que a memória do Bento Caniço desbotou. Outras mortes vieram, desta vez mais claras e menos perturbadoras, outros interesses ocuparam a atenção lenta e ruminadora de S. Cristóvão, e outras missas de sufrágio fizeram esquecer as vinte do Artur. Apenas as não rezou o padre Maurício. Chegara também no céu a sua vez. E da terceira indigestão do ano, rebentou. Venceu a dos pepinos e a dos pimentos, mas na dos melões o fígado não pode mais.
Era um homem bonacheirão e aberto, da boca de quem saíam, de vez em quando, confidências indiscretas que criavam o pânico no pequeno mundo de silêncio que pastoreava. Talvez para compensar a mudez colectiva, falava ele. E cada paroquiano ou arrostava o ano inteiro com o pesadelo de se não ter descosido na desobriga, ou escarolava a alma publicamente através daquele alto falante. Mas morreu e foi substituído por um colega que infelizmente não lia pela mesma cartilha. Muito mais comedido nas refeições e na língua, o novo prior tinha ideias unificadoras do animal com o meio e punha-as em prática. Seco de carnes, depressa compreendeu que a voracidade palreira do antecessor não estava de acordo com a magreza sisuda do chão de S. Cristóvão. De maneira que fartava o corpo no confessionário dos pecados da aldeia e do que ouvia nessas horas intermináveis de cochicho não vinha nunca sinal ao mundo. Fechado na batina negra, que o amortalhava do pescoço aos pés, acabava de descarregar as consciências da povoação enigmático como um cipreste. Até parecia que nascera ali e mamara a sorna germinação da terra!
No apogeu do seu reinado, chegou a vida do Artur ao fim. Apesar de moroso, o tempo vai batendo à porta de todos em S. Cristóvão. E, quando o Artur menos esperava, soou-lhe também a hora, e foi preciso prepará-lo para a grande viagem com a extrema-unção.
Morreu lúcido e é de crer que despejou o saco, na confissão demorada que fez. Pelo menos o padre Lobato, no fim, deu-lhe a absolvição, ungiu-o, e acompanhou-o depois à última morada.
-- Requiescat in pace...
-- Amen.
Honrada, a mão do Paivoto deixou então cair sobre o caixão as pazadas de terra gorda do cemitério, na comoção devida a uma alma lavada.
-- Que lhe seja leve... - choramingou a Ester.
-- Se fosse inverno, era pior... - gracejou o Jacinto.
Choravam e riam como faz a vida. Mas havia neles o sentimento pungente da negrura do momento, porque ao cabo e ao rabo o defunto fora um homem, e urdira a sua teia de mortal em tudo de acordo com os usos e costumes de S. Cristóvão.
A prova disso é que o próprio Criador, se lhe quis descobrir as malhas caídas, teve de arranjar na serra uma trovoada desmedida e fazer crescer as águas da ribeira como no dilúvio. Só assim a corrente pôde levar o muro do lameiro e mostrar sob os alicerces o esqueleto branco do Bento Caniço -- o que restava do corpo inteiro que o sobrinho ali enterrara na noite do crime, e sobre o qual os pedreiros, no dia seguinte, acamaram pedras inocentes."

Miguel Torga, "Teia de Aranha", do livro Novos contos da montanha.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Último Post

Se você está lendo essa mensagem, significa que algo aconteceu comigo. Descobri a função de postagem agendada a algum tempo atrás e é a primeira vez que a uso. Esse post só se tornará público se eu não estiver mais aqui amanhã para cancelá-lo. Ou seja, se você está lendo isso, eu já estou a pelo menos um dia morto. Morto! Ah! Só rezo para que minha morte seja rápida... Mas talvez eu esteja louco, sim, só pode ser isso. Louco! Insano! Demente! Mas se eu estiver certo é um adeus a minha última esperança.

Tudo começou no mês passado, quando ela se mudou para a casa ao lado. Chegou a noite provavelmente, pois só percebi algo diferente pela manhã, quando vi o carro na garagem. Mas não me importei. Não tinha como saber. Não.. Realmente. Vivemos nas trevas, meus amigos, nas trevas! Essa é a única verdade. Pensamos que sabemos tudo, pensamos que conhecemos a nós mesmos, pensamos que sabemos os limites! Quanta farsa, quanta mentira. Não conseguimos perceber as simples verdades na nossa frente. Mas só fui saber quem era ela a noite. Quando fui tirar o lixo. Terminei de colocá-lo na lixeira. A noite estava fresca. A luz cheia brilhava no céu, bela. Parecia me chamar, quando senti a brisa e o perfume. Senti alguém atras de mim, meu coração disparou e me virei, tomei um susto. Ela estava ali, a um passo de distância. Primeira vez que a vi, bela. A pele pálida contrastada pelos belos cabelos negros que emolduravam seu rosto, um cabelo cacheado, olhos verdes, usava um vestido vermelho.
- Desculpe. Não queria assustá-lo. Me mudei ontem a noite para a casa ao lado.

Estendeu a mão e se apresentou. Elizabete seu nome. Bela Elizabete. E o perfume, ah, me deixou atordoado. Mas se eu soubesse a loucura que essa mulher me traria, eu não teria ficado tão feliz, não. Um trouxa! Um fraco! isso que sou. Conversamos por algum tempo ali, debaixo do belo céu, abençoados pela lua. Minha alma seria dela naquele momento, se ela pedisse. Minha alma... Estou mesmo disposto a sacrificá-la? Alma. Não! Não posso deixá-la ter minha alma, é por isso que... Preciso me conter. Os fatos precisam ser ditos em ordem, só assim vocês poderão julgar se estou louco! Mas tenham uma mente aberta, porque vivemos nas trevas meus amigos. Viajamos pela escuridão. Isso é a vida. Um grande salão escuro. E o bizarro é que acendemos uma vela e acreditamos que tudo aquilo que vemos na luz fosca e limitada é a realidade! Realidade, essa palavra me faz rir! Se pudessemos acender a luz, se pudessemos deixar o sol entrar no salão, perceberíamos o quão errado estamos.

Naquela noite não consegui dormir. Estava feliz, confesso, feliz. A família ao lado, um casal e duas crianças, foram embora e agora a bela Elizabete morava ali. Bela, bela, bela. Seu perfume, sua voz. Eu sorria e girava na cama. Não conseguia dormir. Não perguntei quantos anos tinha, mas aparentemente éramos da mesma idade. Talvez alguns poucos anos de diferença. Pensava isso. Hoje penso diferente... Estou louco? Ousaria dizer que ela é mais velha, e não alguns anos nem algumas décadas,... Insano? Para você que me lê, talvez pareça um relato sem nexo. Mas chegarei lá. preciso contar os eventos em ordem. Preciso me concentrar. Mas nem o uísque que bebo me ajuda a conter meus nervos. Preciso da verdade.

No outro dia cheguei do trabalho e a encontrei de novo e conversamos de novo. Já era noite. Trabalho na cidade ao lado, e sempre chego em casa já de noite. De noite. Sim, só a noite. Estava feliz em poder conversar com ela, me fez esquecer da fome e do cansaço. E assim foi por um tempo. Eu costumava encontrá-la as vezes na frente de casa e conversavamos. Mas sempre a noite! Esse fato hoje parece de suma importância. Só depois que sabemos das coias é que damos valores específicos a eventos do passado. Só depois que sabemos... Até alguns dias atras isso seria irrelevante, mas hoje! Com tudo que penso é importante.. Mas o que faço? O que faço!? Tento encaixar fatos corriqueiros numa teoria maluca?!

Mas foi a duas semanas atras que começou... Não, talvez não tenha começado, mas foi a primeira vez que percebi. É engraçado como o ser humano tende a acreditar que suas percepções ditam a realidade. Por que eu não ouvia nada não existia nada? Ou estava apenas muito surdo para ouvir? Eu não conseguia dormir naquela noite, não estava muito bem do estomago. Ficava girando na cama, quando não estava no banheiro. E ouvi barulhos. Barulhos no telhado. Lembro que quando era criança e ouvia esses barulhos eu corria acordar minha mãe, e ela sempre me dizia que eram apenas gatos e para mim voltar a dormir. Naquele dia pensei o mesmo. Gatos. Mas será que eram gatos mesmo? Ou algo maior? A verdade é que todas as noites, quando eu estava acordado passei a ouvir esses barulhos. Gatos...

Foi na mesma semana que ganhei meu gato: Alfa. Pensei em nomeá-lo Carlo por um momento, mas decidi que não. Carlo era o nome que um amigo da época de faculdade gostaria de dar para seu gato, quanto o tivesse. Senti que estaria roubando a idéia dele, e optei por Alfa mesmo. Lembro que cheguei do trabalho com ele e a Elizabete estava ali fora. Resolvi mostrá-lo para ela, mulheres gostam de animais não? E foi quando aconteceu. Ainda tenho as cicatrizes no meu braço, que me fazem lembrar o momento que Alfa ficou eriçado, como se algo o tivesse possuído quando me aproximei dela com ele no colo. E ele correu. Não consegui segurá-lo. Correu para debaixo do carro e ficou lá. Fiquei olhando-o perplexo. Não entendi o que havia ocorrido. Mas isso me deu assunto para conversar com a Elizabete por algum tempo. O que me agradou, embora ela não parecesse muito confortável com a situação. Lógico que não estaria, ela... Demorou um tempo naquela noite até que Alfa decidisse sair debaixo do carro e inspecionar sua nova casa. Acho que a agradou, fiquei brincando com ele por um tempo até ir dormir.

Não dormi muito naquela noite, pois logo Alfa me acordou, ficou dando patadas leves na minha cara e se esfregando nela. Queria sair para a rua. Fui até a sala e abri a janela. Mas ele ficou ali parado, sentado do meu lado, olhando para mim. Devolvi o olhar, um pouco irritado. Só queria que ele saísse para eu voltar a dormir, precisava acordar cedo. Depois de um tempo, cheguei a conclusão que aquela situação não levaria a nada, e que talvez eu estivesse errado, e Alfa não quisesse sair. Levei minhas mãos para fechar a janela e ouvi-o soltar um grunhido. Olhei para ele e ele estava com os pelos todos eriçados olhando para o nada. Senti um frio na espinha, e por um minuto fiquei com medo de olhar pela janela, com medo do que veria. Mas pensei que era tudo bobeira e olhei. Pro meu alivio não havia nada. Foi então que surgiu um vulto pulando pelo muro e para cima. Escutei os barulhos no telhado e silêncio. Alfa havia sumido. Não sabia aonde ele estava. Eu tremia. Tremia. O que tinha sido aquilo? Fechei a janela e acendi as luzes. Estava em pânico. Resolvi tomar um uísque. Foi o começo. O começo da minha queda mental. Ah meus nobres leitores. Talvez vocês já saibam, já tenham teorizado tudo. Mas é possível? É possível? Mas tem mais.

Quando criança, eu sempre fui medroso. E lembro que eu costumava ver coisas. Uma vez acordei e posso jurar que havia um demônio no meu quarto, ao lado do armário. Fiquei olhando para ele em pânico e comecei a gritar pela minha mãe, que veio correndo e quando ela acendeu a luz, não havia nada ali. Apenas o armário. Hoje, penso que foi apenas um delírio infantil depois de um pesadelo. Mas será? Será que não tinha nada ali? Outra vez, também criança, presenciei algo único. Olhando pela janela de vidro da sala, eu posso jurar que vi uma sombra passando por elas. Foi rápido. Eu sai correndo, procurei meu pai, abracei ele e fiquei ali com medo. Uma sombra. Também, hoje, acredito que foi um delírio, talvez um jogo de vista, quando você passa o olho rápido por algo e tem impressão que tem algo, mas quando volta o olhar, percebe que não era nada. Mas, quando criança, esses eventos me pertubaram. Poderia nomear alguns outros mais. Mas não. Sempre pensei nesses eventos como manifestações de meu medo. Aquele medo irracional, que ninguém conseguiria entender, por mais que se tente explicar. Eu estava nessa situação. Esses vultos, delírios de infância que tanto tentei racionalizar voltavam a tona. O que eu acabara de ver pela janela não seria apenas uma passada de olho? Foi uma impressão rápida com certeza. E os barulhos no telhado? Não seriam só coincidência. Isso. Coincidência. Me convenci que era coincidência. Nessa noite, dormi com as luzes acessas, algo que eu não fazia desde pequeno. A partir de então, sempre que eu ouço um barulho deitado eu acendo a luz. Amedrontado. Alfa costuma sumir a noite, quando eu chego do trabalho, e volta de manhã, quando estou saindo. Me pergunto se isso é normal de todo o gato, ou se ele se sente mais seguro dormindo de dia e o mais longe possível de casa a noite.

Elizabete. Bela Elizabete. Contei para ela sobre essas coisas. Não deveria ter feito. Não. Não deveria realmente. Me arrependo profundamente. Talvez seja isso... Ou estou vendo coisas demais aonde elas não existem? Como quando criança, me apavorando por nada. As trevas meu amigo! São as trevas! A verdade é outra. A verdade é que quando somos crianças somos mais abertos para o mundo. Crescer é receber um vendas sobres seus olhos, ganhar restrições nas suas percepções. Será que não é isso? Será que, naquela época eu não estava mais aberto para outras possibilidades do mundo, para outras verdades? Os adultos as ignoram com certeza. E o que sou, se não um adulto? Mas não tenho como saber. Eu disse para ela. Contei sobre a noite anterior e ela riu. Me fez sentir como um tonto. E deitei mais sussegado naquela noite. Deitei rindo, pensando em como tudo aquilo não era besteira. Ilusões de uma mente em pânico. Talvez uma essência de minha alma medrosa da infância, que ainda permanecia mesmo adulto. E dormi.

Sonhava com a querida e bela Elizabete. Mas havia algo de sinistro no sonho e acordei assustado. Acendi a luz, recuperei um pouco de minha sanidade, e a apaguei de novo. Me virei, estava quase dormindo quando ouvi um barulho no quintal. Meus ouvidos ficaram mais atentos. Talvez não fosse nada. Então ouvi um barulho na janela do meu quarto, uma pancada. Pulei da cama, acendi a luz desesperado, meu coração a mil. O que era aquilo? Um morcego que talvez se chocou na janela? Estava ofegando, desesperado. Ficava olhando para ela. Mas nada. Nenhuma resposta, nenhum barulho. Desespero. Trevas. Criei alguma coragem e avancei até ela. Fiquei parado ali em frente, observando-a. Comecei a pensar que não era nada. Algum pássaro talvez. Silêncio. Meu coração começou a se acalmar, minha respiração normalizou. Foi só então que percebi o barulho, bem baixo do outro lado. Aquele som. Podia jurar, jurar que do outro lado da janela havia alguém. Eu ouvia o barulho de uma pessoa respirando, e o pânico subiu a minha cabeça. Eu estava ficando louco. O que eu deveria fazer?! Abrir a janela era a única resposta. Abrir a janela e ver o que estava do outro lado. Mas não tinha coragem. Não sei quanto tempo se passou ali, até que decidi que para minha própria sanidade só havia uma resposta. Girei a chave do cadeado. Respirei, e puxei a janela. Não havia nada. Apenas escuridão. Fechei-a e sentei na cama aliviado. Me deitei de novo e dormi, pela segunda vez com a luz acessa.

Eu estava sendo possuído pela insanidade. Mas era a doce Elizabete que me trazia de volta ao reino da razão. Contei para ela de novo minha experiência estranha. Ela me disse para procurar um psicólogo e deu risada. Me sentia como um tonto quando conversava com ela sobre essas coisas. O mundo parecia tão óbvio, tão real. As trevas se dissipavam. Meus medos irracionais iam embora. Quanta ingenuidade, existe algo de sinistro em tudo isso. Eu sei que existe e provarei. Mas antes preciso terminar meu relato. Até aqui, talvez não tenha nada demais, só minha mente perturbada. Talvez, vocês achem que eu deva ir a um psicólogo lendo tudo isso. Mas não. Sinto que eu nunca pude ver tão claramente. Eu sei o que preciso fazer.

Foi a quatro dias atras. Eu estava trabalhando num relatório em casa até tarde e tenho a mania de andar pela casa enquanto reflito. Odeio escrever. Mas é necessário... E entre um paragrafo e outro eu dava uma volta pela casa. Até que resolvi andar pelo quintal também. Estava ali, era lua cheia novamente. Maravilhosa lua, nos olhando da distância. Ela deve saber das coisas mais do que eu, do seu ponto de vista privilegiado. E eu estava ali no quintal, andando de um lado para o outro com uma caneca de chá na mão pensando quando eu ouvi os barulhos no telhado e isso fez um frio percorrer minha espinha e posso jurar que vi minha doce Elizabete no telhado da casa dela. Foi muito rápido, muito rápido. Mas a vi nos olhos e, por isso, tenho certeza que ela me viu também se ela realmente estivesse ali. Muito rápido, um segundo ela estava ali, e no outro já tinha desaparecido. Deixei a canecar cair e o chá quente queimou meu pé, embora só fosse perceber isso alguns minutos depois, quando estivesse com a porta bem fechada e sentado no meu sofá. O que foi aquilo? Real? Mesmo que fosse real, com certeza tinha uma explicação. Não conseguia explicar. Lembrei do Alfa e da reação estranha a ela. E comecei a tremer. Meu coração, minha respiração. Estava em pânico. Essa noite não dormi. E confesso que senti um alívio quando sai de manhã para o trabalho.

Esperava encontrar Elizabete e contar essa estranha história para ela. Imaginei ela me chamando de loucos, nós dois rindo juntos e eu mais aliviado. Mas não a encontrei quando cheguei do trabalho. Achei que seria muito ousado ir até a casa dela buscando conversa. Não sabia se tínhamos já intimidade para tanto. Fiquei em casa, pensando em tudo aquilo, em todas as experiências recentes. E talvez por não ter dormido na noite anterior, cai no sono ali no sofá mesmo, o dia tinha sido estressante. Acordei no meio da madrugada. Resolvi tomar um copo de água e ir para a cama. Andei até a cozinha e parei na porta, travado. A janela da cozinha dá para o quintal de casa e ela é de vidro. Não dava para ver muita coisa por causa da escuridão, mas havia uma sombra estranha ali. Meu coração disparou e eu acendi a luz da cozinha e do quintal ao mesmo tempo e gritei, gritei em terror. Ela estava no quintal. Ela estava ali, os olhos vermelhos, e os dentes, os dentes... Eu estava em pânico. Não sabia o que fazer. Comecei a rezar, rezar, pelo amor de deus! E quando abri os olhos de novo ela havia sumido. Não dormi. Fiquei no meu quarto, sentado num canto com uma faca a noite inteira, e só quando amanheceu que me aliviei. Peguei meu carro e fui pro trabalho. Deus, o que foi tudo isso? Não voltei para casa, fiquei num hotel e estou aqui até hoje, aonde estou escrevendo.

Estou louco? Estou Insano? Não! Tem que haver explicação. Tem que haver uma explicação. E eu preciso das respostas. Preciso delas. Não conseguirei viver sem tê-las. Minha mente está em agonia E eu conheço a cura. A única cura possível. Preciso voltar para casa e enfrentar a situação. Preciso investigar Elizabete, dar um jeito de entrar na casa dela, dar um jeito de saber quem ela é. Eu preciso disso! E se eu estiver certo, ah se eu estiver certo. Preciso de respostas para toda essa escuridão. E esse post será meu testamento para vocês, caso eu não volte. Não deixo nenhum bem material a vocês, meus queridos leitores, mas deixo minha insanidade.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Variação: Dexter

Eles estavam ali: sentados e observando. No céu a lua cheia brilhava, bela, agraciando-os nessa longa noite. Longa. Mas eles tinham paciência. Apreciavam cada minuto em silêncio.

Alguns metros dali estava ele: sentado e observando. Assistia os últimos minutos do jornal no conforto de seu sofá, dentro de sua aconchegante casa. Quando acabou o programa, desligou a TV e foi para seu quarto.

Eles inspiraram com satisfação. As mãos apertadas no volante. A qualquer minuto agora. Faltava pouco, pouco. A noite seria longa, só mais alguns minutos. Precisavam se assegurar que ele já estaria dormindo quando entrassem. Era assim que a caçada funcionava, embora, com certeza, fosse mais divertido quando a caça tinha ciência do seu predador. E eles iriam assegurar que ela soubesse, mas no momento certo. Por enquanto aguardavam. A qualquer momento. Uma hora , uma eternidade, mas o agora chegou, finalmente, e eles desceram do carro.

Caminharam até a porta pelas sombras. Se asseguraram que não havia olhos indesejados e em segundos arrombaram a porta. Estavam experientes nisso já, tão rápidos e eficientes como se tivessem a chave. Moveram-se silenciosamente. Estava escuro, mas não se importaram. Os sentidos estavam no auge. Tudo parecia tão claro. E já estiveram ali, claro, conheciam muito bem a casa. E se moveram rapidamente até o quarto. Deram uma espiada lá dentro. Dormia. Muito bom. Foram ao banheiro primeiro, não porque precisavam usá-lo, mas para deixar uma pequena linda supresa. E retornaram ao quarto, desta vez para ficar.

Observaram a caça e uma estimulante sensação percorreu cada músculo de seus corpos. Eles suspiraram em prazer. Logo ele seria deles. Inspiraram. Logo. Expiraram. Ele tinha uma poltrona logo ao lado da cama. O lugar perfeito para se sentar e observar. Admiravam sua caça, enquanto aguardavam. Não havia graça em eliminá-la assim, inconsciente, sem saber porque e por quem. A qualquer minuto. Cada segundo a fome aumentava. Eles resistiam, sabiam que isso só aumentaria a satisfação. E aconteceu.

Do banheiro uma música começou a soar. Ele acordou assustado. Conhecia aquela música, eles sabiam, e observavam. Ele correu até o banheiro, sem perceber que não estava sozinho no quarto e ali estava ele, dentro da pia, soando. Ele conhecia aquele celular, mas o que fazia ali? Caminhou trêmulo e o pegou. Na tela havia uma mensagem: "Bu!". Eles sabiam que não era muito criativo, mas fazia o serviço, e antes que ele pudesse reagir, um cabo estava em torno do seu pescoço. Tão forte que ele não conseguia respirar.

- É inútil resistir contra nós. - E logo ele estava inconsciente de novo.

A lua, bela, bela, bela lua. No seu auge, tão perfeita, tão cheia, dominando o céu. Assim como eles dominavam o homem na terra. Tão bela lua, os agraciando em seus movimentos. E finalmente o homem acordou. Confuso. Olhou em volta, estava sozinho naquele bosque. Como fora parar ali? Estava na sua casa e... Medo começou a lhe encher a alma. Olhou em volta, conhecia aquele lugar, era familiar. Seus sentidos alerta, se levantou e de novo o cabo estava em torno do seu pescoço. Forte, como da última vez. Sentiu uma pancada nas suas costas e caiu de joelhos. O cabo afrouxou um pouco e conseguiu respirar.

- Reconhece esse lugar? - Eles disseram, saboreando cada palavra.
- Eu, eu... quem é vo... - antes que pudesse terminar a frase sentiu o cabo apertar contra seu pescoço. Não podia respirar.
- Nós sabemos o que você fez. De novo e de novo e de novo. Mas nunca mais. - e eles aliviaram o cabo um pouco, o suficiente para deixá-lo respirar. Eles estavam em controle. E eles garantiram que ele soubesse disso.
- Argh.. Não sei do que estã... - E novamente ficou sem poder respirar. Eles se deliciavam com aquela sensação.
- Nós sabemos. E você sabe também. - Eles respiraram, o ar nunca parecia tão fresco como nesses momentos - vamos começar?

Eles entraram no carro. Estava feito e era hora de se despedirem. Deixou o demônio desvanecer-se nas trevas de sua alma. Ligou o carro. Sacrificou seu poderes para ser humano novamente, por um tempo. Acelerou. Por um tempo apenas, pois eles se veriam de novo e de novo, num ciclo sem fim.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

murilo rubião

"O seu tempo está próximo a vir, e os seus dias não se alongarão.
(Isaías, XIII, 22)

1 No terceiro dia em que dormia no pequeno apartamento de um edifício recém-construído, ouviu os primeiros ruídos. De normal, tinha o sono pesado e mesmo depois de despertar levava tempo para se integrar no novo dia, confundindo os restos de sonho com fragmentos da realidade. Por isso não deu de imediato importância à vibração de vidros, atribuindo-a a um pesadelo. A escuridão do aposento contribuía para fortalecer essa frágil certeza. O barulho era intenso. Vinha dos pavimentos superiores e assemelhava-se aos produzidos pelas raspadeiras de assoalho. Acendeu a luz e consultou o relógio: três horas. Achou estranho. As normas do condomínio não permitiam trabalho dessa natureza em plena madrugada. Mas a máquina prosseguia na impiedosa tarefa, os sons se avolumando, e crescendo a irritação de Gérion contra a companhia imobiliária que lhe garantira ser excelente a administração do prédio. De repente emudeceram os ruídos.
Pegara novamente no sono e sonhou que estava sendo serrado na altura do tórax. Acordou em pânico: uma poderosa serra exercitava os seus dentes nos andares de cima, cortando material de grande resistência, que se estilhaçava ao desintegrar-se.
Ouvia, a espaços, explosões secas, a movimentação de uma nervosa britadeira, o martelar compassado de um pilão bate-estaca. Estariam construindo ou destruindo?
Do temor à curiosidade, hesitou entre verificar o que estava acontecendo ou juntar os objetos de maior valor e dar o fora antes do desabamento final. Preferiu correr o risco a voltar para sua casa, que abandonara, às pressas, por motivos de ordem familiar. Vestiu-se, olhou a rua, através da vidraça tremente, na manhã ensolarada, pensando se ainda veria outras.
Mal abrira a porta, chegou-lhe ao ouvido o matraquear de várias brocas e pouco depois estalos de cabos de aço se rompendo, o elevador despencando aos trambolhões pelo poço até arrebentar lá embaixo com uma violência que fez tremer o prédio inteiro.
Recuou apavorado, trancando-se no apartamento, o coração a bater desordenadamente. -- É o fim, pensou. -- Entretanto, o silêncio quase que se recompôs, ouvindo-se ao longe apenas estalidos intermitentes, o rascar irritante de metais e concreto.
Pela tarde, a calma retornou ao edifício, encorajando Gérion a ir ao terraço para averiguar a extensão dos estragos. Encontrou-se a céu aberto. Quatro pavimentos haviam desaparecido, como se cortados meticulosamente, limadas as pontas dos vergalhões, serradas as vigas, trituradas as lages. Tudo reduzido a fino pó amontoado nos cantos.
Não via rastros das máquinas. Talvez já estivessem distantes, transferidas a outra construção, concluiu aliviado.
Descia tranquilo as escadas, a assoviar uma música em voga, quando sofreu o impacto da decepção: dos andares inferiores lhe chegava toda a gama de ruídos que ouvira no decorrer do dia.

2 Ligou para a portaria. Tinha pouca esperança de receber esclarecimentos satisfatórios sobre o que estava ocorrendo. O próprio síndico atendeu-o:
-- Obras de rotina. Pedimos-lhe desculpas, principalmente sendo o senhor nosso único inquilino. Até agora, é claro.
-- Que raio de rotina é essa de arrasar o prédio todo?
-- Dentro de três dias estará tudo acabado -- disse, desligando o aparelho.
-- Tudo acabado. Bolas. -- Encaminhou-se à minúscula cozinha, boa parte dela tomada por latas vazias. Preparou sem entusiasmo o jantar, enfarado de conservas.
Sobreviveria às latas? -- Olhava melancólico o estoque de alimentos, feito para durar uma semana.
O telefone tocou. Largou o prato, intrigado com a chamada. Ninguém sabia do seu novo endereço. Inscrevera-se na Companhia Telefônica e alugara o apartamento com nome suposto. Um engano, certamente.
Era a mulher, a lhe aumentar o desânimo:
-- Como me descobriu? -- Ouviu uma risadinha do outro lado da linha. (A gorda devia estar comendo bombons. Tinha sempre alguns ao alcance das mãos.)
-- Por que nos abandonou, Gérion? Venha para casa. Você não viverá sem o meu dinheiro. Quem lhe arranjará emprego? (A essa altura Margarerbe já estaria lambendo os dedos lambuzados de chocolate ou limpando-os no roupão estampado de vermelho, sua cor predileta. A porca.)
-- Vá para o diabo. Você, seu dinheiro, sua gordura.

3 Desligara-se momentaneamente dos ruídos, imerso na desesperança.
Buscou no bolso um cigarro e verificou com desagrado que tinha poucos. Esquecera de fazer maior provisão de maços. Mandou o nome da mãe.
A mão pousada no fone, colocado no gancho, Gérion fez uma careta ao ouvir de novo o toque da campainha.
-- Papai?
Abriu-se num sorriso triste.:
-- Filhinha.
-- Você bem poderia voltar, ler para mim aquele livro do cavalo verde.
A parte decorada terminara e Seateia começava a gaguejar:
-- Pai... A gente gostaria que viesse, mas sei que você não quer. Não venha, se aí é melhor...
A ligação foi interrompida bruscamente. De início suspeitara e logo se convenceu de que a filha fora obrigada a lhe telefonar, numa tentativa de explorá-lo emocionalmente. Àquela hora estaria apanhando por não ter obedecido à risca as instruções da mãe.
Nauseado, lamentava o fracasso da fuga. Tornaria a partilhar do mesmo leito com a esposa, espremido, o corpo dela a ocupar dois terços da cama. O ronco, os flatos.
Mas não poderia deixar que fosse transferido a Seateia o ódio que Margarerbe lhe dedicava. Recorreria a todas as formas de tortura para vingar-se dele, através da filha.

4 Os ruídos tinham perdido a força inicial. Diminuíram, cessaram por completo.

5 Gérion descia a escadaria indeciso quanto à necessidade do sacrifício.
Oito andares abaixo, a escada terminou abruptamente. Um pé solto no espaço, retrocedeu transido de medo, caindo para trás. Transpirava, as pernas tremiam.
Não conseguia levantar-se, pregado ao degrau.
Foi demorada a recuperação. Passada a vertigem, viu embaixo o terreno limpo, nem parecendo ter abrigado antes uma construção. Nenhum sinal de estacas, pedaços de ferro, tijolos, apenas o pó fino amontoado nos cantos do lote.
Voltou ao apartamento ainda sob o abalo do susto. Deixou-se cair no sofá. Impedido de regressar a casa, experimentou o gosto da plena solidão. Sabia do seu egoísmo, omitindo-se dos problemas futuros da filha. Talvez a estimasse pela obrigação natural que têm os pais de amar os filhos.
Gostara de alguém? -- Desviou o curso do pensamento, fórmula cômoda de escapar à vigilância da consciência.
Aguardava paciente nova chamada da mulher e, ao atendê-la, ia nos seus olhos um sádico prazer. Há longo tempo vinha aguardando essa oportunidade, para revidar duro as humilhações acumuladas e vingar-se da permanente submissão a que era constrangido pelos caprichos de Margarerbe, a lhe chamar, a toda hora e na presença dos criados, de parasita, incapaz.
Escolhera bem os adjetivos. Não chegou a usá-los: uma corrente luminosa destruiu o fio telefônico. No ar pairou durante segundos uma poeira colorida. Fechava-se o bloqueio.

6 Depois de algumas horas de absoluto silêncio, ela volvia: ruidosa, mansamente, surda, suave, estridente, monocórdia, dissonante, polifônica, ritmadamente, melodiosa, quase música. Embalou-se numa valsa dançada há vários anos. Sons ásperos espantaram a imagem vinda da adolescência, logo sobreposta pela de Margarerbe, que ele mesmo espantou.
Acordou tarde da noite com um grito terrível a ressoar pelos corredores do prédio. Imobilizou-se na cama, em agônica espera: emitiria a máquina vozes humanas? -- Preferiu acreditar que sonhara, pois de real só ouvia o barulho monótono de uma escavadeira a cumprir taredas em pavimentos bem próximos ao seu.
Tranquilizado, analisava as ocorrências dos dias anteriores, concluindo que pelo menos os ruídos vinham espaçados e não lhe feriam os nervos com o serrar de ferros e madeira. Caprichosos e irregulares, eles mudavam rapidamente de andar, desnorteando Gérion quanto aos objetivos da máquina. -- Por que uma e não várias, a exercer funções diversas e autônomas, como inicialmente acreditou? -- A crença na sua unicidade entranhara-se nele sem aparente explicação, porém irredutível. Sim, única e múltipla na sua ação.

7 Os ruídos se avizinhavam. Adquiriam brandura e constância, fazendo-o acreditar que em breve encheriam o apartamento.
Abeirava-se o momento crucial e custava-lhe conter o impulso de ir ao encontro da máquina, que perdera muito do antigo vigor ou realizava seu trabalho com propositada morosidade, aprimorando a obra, para fruir aos poucos os instantes finais da destruição.
A par do desejo de enfrentá-la, descobrir os segredos que a tornavam tão poderosa, tinha medo do encontro. Enredava-se, entretanto, em seu fascínio, apurando o ouvido para captar os sons que àquela hora se agrupavam em escala cromática no corredor, enquanto na sala penetravam os primeiros focos de luz.
Não resistindo à expectativa, abriu a porta. Houve uma súbita ruptura na escalada dos ruídos e escutou ainda o eco dos estalidos a desaparecerem céleres pela escada. Nos cantos da parede começava a acumular-se um pó cinzento e fino.
Repetiu a experiência, mas a máquina persistia em se esconder, não sabendo ele se por simples pudor ou se porque ainda era cedo para mostrar-se, desnudando seu mistério.
No ir e vir da destruidora, as suas constantes fugas redobravam a curiosidade de Gérion, que não suportava a espera, a temer que ela tardasse em aniquilá-lo ou jamais o destruísse.
Pelas frinchas continuavam a entrar luzes coloridas, formando-se e desfazendo no ar um contínuo arco-íris: teria tempo de contemplá-la na plenitude de suas cores?
Cerrou a porta com a chave."

"O Bloqueio", de Murilo Rubião.

domingo, 31 de outubro de 2010

Revolução - Tudo ou Nada

Era uma vez, em um último domingo do mês... Seu Zé e Dona Maria acordaram logo cedo e foram exercer seu dever cívico de votar. Chegaram no colégio eleitoral às 7 da manhã para trocar figurinhas com os cumpadres, conversar sobre a vida dos outros, falar do clima,... Estavam lá esperando o portão abrir, sem saber do caos que acontecia dentro do colégio.

Lá dentro, a juíza já se desesperava: nenhum dos mesários apareceu para trabalhar! Nenhum, e já eram 7h, pelo menos o presidente de cada seção deveria estar ali. As 7h30m ela já ligava para o cartório eleitoral. Várias vezes, até ser atendida. Quando finalmente o foi, descobriu que o problema não era só dela: todas as seções eleitorais da cidade estavam com o mesmo problema! Os mesários não haviam comparecido até o momento. E logo ela descobriria, isso não era um problema municipal, nem regional, nem estadual. Era nacional.

Todos os mesários do país ao acordar despertaram a consciência de classe e resolveram que era hora de se rebelar contra o trabalho escravo obrigatório nas eleições. Mesmo os que se inscreveram para trabalhar como voluntários ganharam essa consciência que precisavam auxiliar seu companheiros em mais essa luta. E assim, todos os mesários tomaram a atitude mais progressiva e destruídora aos vestígios ditatoriais. Retornaram a cama quentinha para mais algumas horas de sono. Dormiam como no Sono de Endymion, acariciados pela benção da lua enquanto esperavam o período de turbulência passar.

Era hora de tomar alguma medida. Assim, as forças policiais foram mobilizadas. Eles deviam buscar os faltosos e trazê-los a força para o trabalho. Em ação paralela, a juíza deveria convocar compulsoriamente alguns eleitores na fila para compor as seções. Entretanto, algo misteriosamente gratificante para a revolução que tomava conta do país acontecia. Ao serem convocados a trabalhar, e ganharem todos os deveres de um mesário, Seu Zé e Dona Maria se transformavam em Companheiro José e Companheira Maria. A consciência de classe os adentrava e os transformava, e eles também tomavam a atitude revolucionária de retornar as suas casas e tomar a atitude mais revolucionária possível, dormir mais algumas horas. Não havia mais fila, na tentativa de arranjar mesários, todos se tornaram revolucionários. E a polícia também falhou. Como dormiam, ninguém atendeu as portas das casas.

E, logo, num estado de emergência, uma decisão precisava ser tomada. O que fariam? Cancelariam as eleições, puniriam severamente todos os mesários oficiais faltosos e convocariam novas? O país entrava em crise. E os militares acreditaram que era hora de uma nova ditadura. Pois era isso que o povo queria! Intepretavam erroneamente que essa rebelião contra o trabalho era um protesto revolucionário a democracia, e alguns setores começaram a organizar um golpe. Enquanto isso, várias pessoas que acordaram cedo para ir votar e trocar figurinhas, atentos a situação inexplicável da impossibilidade de fazer as seções funcionarem, foram para o espaço de discussão por excelência, o bar. E celebraram a liberdade de pensamento bebendo.

Enquanto isso no Infinito, que na realidade não é o infinito, pois o infinito é só uma palavra e por isso incapaz de explicar em toda sua plenitude esse espaço transcendental aonde se encontram forças além da capacidade de compreensão humana, Ilusão observa o caos no paizinho e sorri. O caos sempre é belo. E é o seu território de domínio, o território da Ilusão! Pois em que outro lugar, além do caos, é possível para as pessoas se embriagarem com sonhos e esperanças de acontecimentos que poderão ou não sair dali? Observar os homens almejando por algo, sem saber se isso se realizará ou não, iludidos pelo seu ideal. É a ilusão que torna um ser humano vivo.
- Os eventos fluem - disse Tempo, se aproximando de Ilusão.
- É uma pena. Ver o fim de espetáculo tão belo quanto este.
- Não há outro jeito. Os eventos irão fluir de acordo com o momento. E o momento pede o fim.
- E Morte?
- Já foi. Há muito trabalho pela frente e ela não quer se atrasar.
E assim os dois partiram.

A revolução continuava, e em todas as camas se via a luta. Os mesários estavam na fronte do combate deitados em sua cama dormindo no quentinho. Aqueles que haviam sido convocados na fila do colégio eleitoral vinham logo atrás, alguns estavam tão ansiosos pelo confronto que deitaram na calçada. O grupo de inteligência e simpatizantes se reuniam nos bares para discutir a situação. Muitos eleitores se juntavam a essa luta. E, se não fosse pelo tom acalentado pela discussão e pela violência da atitude dorminhoca, capaz que dissessem que o país estava metade em festa, metade preguiçosa.

Mas uma minoria se movia. Setores do exército entravam em tanques e marchavam para tomar o poder, enquanto políticos discutiam o que fazer quando a possibilidade de votação é zero. E exisitam alguns que rezavam, achando que tal situação era o anúncio da chegada do anticristo. Lógico que eles não poderiam saber, mas em parte estavam certos, não pela vinda do anticristo, já que ele não existe, mas pelo fim do mundo. E, sem que percebessem, marimbondos gigantes sobrevoavam os céus.

Eram enormes, e tinham rédeas, como cavalos alados, ou melhor, seriam como as rédeas de cavalos alados se eles existissem. Cada marimbondo possuía um ser com formas humanas o guiando. E eles observavam a humanidade lá do alto, sem serem vistos. Tamanha era a concentração no embate revolucionário de todas as frentes. Mas logo seu zumbido se tornou insuportável, e todos olharam. E pela primeira vez houve o silêncio e a ordem e a paz.

Ilusão que ia a frente, num dos marimbondos mais imponentes do grupo, mostrou leves sinais de irritação. Talvez não houvesse coisa que ele odiasse mais que a surpresa e o medo. Dois estados de espiríto que trazem a ordem na mente da pessoas. E a ordem, ah, a ordem é a inexistência de qualquer expectativa, esperança, sonho ou desilução. Nela tudo está pronto e garantido.

O primeiro marimbondo era guiado pela Morte, com suas melhores vestes. Tinha que se vestir bem, afinal o Apocalipse só acontece uma vez. E eram verdes, não que gostasse tanto da cor, preferia preto, mas resolveu manter a tradição. Ela ergueu o braço e todos entraram em formação. E quando abaixou foi o início. E junto com a investida de marimbondos uma chuva de bolas de fogo atingiu a terra.

E, assim, acabou a Revolução e o mundo.