Mindinho era um bom moleque. Um moleque com seus poucos anos bem vividos, bem vividos no conceito dele e também dos seus pais, um futuro homem respeitador daquilo que ele aprendeu dever ser respeitado. Um tanto nanico, por isso Mindinho, mas não tinha problemas com isso, reclamou do apelido apenas na primeira vez em que foi proposto, quando o Zé Fuligem assim disse você é o Mindinho de agora em diante e ele fez cara de bravo e disse que mindinho era o pau do Zé Fuligem, bastou essa leve braveza para Mindinho ser conhecido como Mindinho por toda sua juventude. Todo dia, depois da escola, esse futuro grande homem, antes de jogar videogame, assistia videoclipes na televisão e deciciu, com muita calma e consistência argumentativa, ser ou dançarino da Lady Gaga ou membro de uma dupla sertaneja com o Zé Fuligem.
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quarta-feira, 11 de agosto de 2010
sábado, 1 de maio de 2010
parágrafo
M.F. vivia tranquilamente em seu condomínio fechado até o dia em que o mesmo foi alvo de um arroubo de barbaridade perpetrado por meliantes sui generis (engravatados, sotaque afrancesado e máscaras do Faustão). Roubaram bens de M.F., encostaram o metal frio de uma arma em sua cabeça, na frente de K.F., 6 anos, e de H.F., sua esposa, 32 anos. Dois vigilantes foram mortos. M.F. pensou que ficaria catatônico, mas apenas mudou-se para um condomínio com mais câmeras e cercas elétricas, pagou terapeutas vários para mulher e filha, dois meses depois foi promovido em seu emprego, trocou de carro e, finalmente, pensava em ter mais um filho.
quinta-feira, 4 de março de 2010
parágrafos
Pedaços do teto refletidos no chão enquanto tentava olhar dentro de si mesmo. Os restos da luz de um dia passado eram o contraponto à penumbra do quarto no presente. Sem mais sons, arremessa o espelho: cacos espalhados. Reflexos de um mundo não desejado. Resignação: abaixa a cabeça, pedaços do teto refletidos enquanto encara o vazio.
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Depois de acordar, costumava apreciar o movimento suave das folhas das poucas árvores observáveis a partir da janela do meu quarto. Era uma época agradável, hoje percebo. As árvores permaneceram. Eu perdi as raízes. Estou seco. Peço esmolas e tento amainar minha sede afogando-me em aguardente e lembranças roídas.
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A imagem da Santa foi encontrada no rio perto do qual vivi minha infância. Interpretei isso como demonstração inequívoca de bom agouro. Pedi para meus dois filhos reunirem toda a família para visitarem-me no hospital, minha residência permanente nos últimos três meses. Todos espremidos em minha morada: olhei serenamente para esse conjunto de existências. Ordenei, sem demonstrar raiva ou nervosismo, que me matassem. Não esperava respostas, nem consolações, petrifiquei-me com um sorriso sincero no rosto.
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Depois de acordar, costumava apreciar o movimento suave das folhas das poucas árvores observáveis a partir da janela do meu quarto. Era uma época agradável, hoje percebo. As árvores permaneceram. Eu perdi as raízes. Estou seco. Peço esmolas e tento amainar minha sede afogando-me em aguardente e lembranças roídas.
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A imagem da Santa foi encontrada no rio perto do qual vivi minha infância. Interpretei isso como demonstração inequívoca de bom agouro. Pedi para meus dois filhos reunirem toda a família para visitarem-me no hospital, minha residência permanente nos últimos três meses. Todos espremidos em minha morada: olhei serenamente para esse conjunto de existências. Ordenei, sem demonstrar raiva ou nervosismo, que me matassem. Não esperava respostas, nem consolações, petrifiquei-me com um sorriso sincero no rosto.
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