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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

diálogo monólogo

-- Oi, filhodaputa!
-- Olá, meuquerido!
-- E essa força, como anda, filhodaputa?
-- Mais duro do que o pau de sua mãe numa bacanal, meuquerido!
-- Assim que eu gosto!
-- É, afinal, as maravilhas do cotidiano sempre deslumbram-nos, pobres mortais, né não?
-- Ô, e põe deslumbre nisso, meuquerido filho da puta! Há dias em que acordo, pós-coito ou não, com uma vontade tremenda de gritar por gritar, só pela certeza de propiciar barulho e tirar quem quer que seja da situação calma e certa de sua respiração e rotina.
-- Filhodaputa, meu querido, você é escroto!
-- Ô! Gostaria de ser ainda mais, todavia, tenho minhas limitações. Somente acho que você, meuquerido filho da puta, possui um potencial não aproveitado, nem vislumbrado por você mesmo, de causar mais terror às suas redondezas do que qualquer filho da puta mequetrefe encontrado em toda e qualquer esquina, ônibus, praça, sala de aula, igreja, assembléia, caralho a quatro e etc!
-- Pare de lamber meu saco, filhodaputa, somos, nós-dois-em-um, nada mais nem menos do que dejetos, matéria temporária logo relegada para os confins da podridão. Nem um osso sobrará para elucidar em belos artigos científicos nossa ignomínia.
-- Mas, meuquerido, veja bem, extinção é o que há!
-- Babaca, nunca perca a piada.
-- Ô, mas não sou o babaca, acho que sou o filhodaputa!

Todos em um.

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quarta-feira, 26 de maio de 2010

diálogo monólogo

M.F. estava tranqüilo com seus 27 anos de idade. Aos 23 anos pensava em mudar o mundo a partir da educação, foi professor por algum tempo. Aos 25 desistiu de mudanças e trabalhou mais um ano apenas por inércia. Há seis meses deliberadamente sem emprego, utilizando as economias guardadas com ajuda de ascetismo e descrença no consumo, sobrevive por aí, conversando entre paredes com objetos inanimados, animados, vez ou outra algum ser vivo, até mesmo da sua espécie, mesmo sem vontade.

[Casa pequena de periferia. Silêncio no interior. Alguns sons vindos da rua, principalmente buzinas distantes. M.F. sentado em um sofá. Em sua frente, outro sofá. Entre os sofás uma pequena mesa.]

[M.F.]: O dia amanheceu bonito hoje... Talvez poderíamos dar uma volta.

[...]: Clonazepam.

[M.F.]: Não. Melhor continuar sentado mais um tempo. Esperar anoitecer.

[...]: Chumbinho.

[M.F.]: Não espero mais. Nada.

[Alguns minutos de silêncio]

[M.F.]: Nada. Melhor continuar assim. Apenas conversar com minha respiração e deixar você por conta de sua sorte.

[...]: Pedra 90.

[M.F. levanta. Olha mais uma vez para o espelho do banheiro que estava no sofá em sua frente, despede-se. Dois passos depois tropeça no sono e cai na morte.]


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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

diálogo monológico

[Sol. Descampado, um pasto. Cupinzeiros. Não há árvores. Um homem com chapéu de palha na cabeça e camisa aberta sentado em um cupinzeiro. Imensidão e cercas. Dez minutos passam, vento leve, mesmo assim muito calor e barulho de guizos. Uma cascavel sai de buraco da parte mais baixa do cupinzeiro, enrola-se, mantém o guizo guizando e olha para o homem.]

[Cascavel]: Qual o problema?

[Homem]: Consertar a cerca.

[Cascavel]: Qual o problema?

[O homem cala-se por alguns minutos, pensa em uma árvore, vê os mourões da cerca, imponentes, cruzando horizontes com seu formato vertical. Guizos.]

[Homem]: Eu não sei.

[Cascavel]: E o gado?

[Homem]: Em outras pastagens.

[Cascavel]: E você?

[Homem]: Conversando com uma cascavel.

[Cascavel]: Além?

[Não há nuvens. Não há trégua do calor. Não há silêncio nem barulho nem guizos, o mundo derrete em suor e trabalho. Guizos. O homem estica os braços, lambe os beiços, escarra. Cascavel impassível.]

[Homem]: Logo mais tenho que continuar o serviço, esticar o arame, prender, um, dois, três, quatro fios de farpa.

[Cascavel]: Onde está algum significado?

[Homem]: O arame está meio bambo naquele lado.

[O homem aponta um ponto à sua esquerda ao longe. Cupinzeiros, pasto, sol e cerca. A cascavel e seu guizo despreocupada.]

[Cascavel]: Não quero mais perguntar.

[Homem]: Falou comigo?

[Cascavel]: Talvez.

[O homem salta do cupim, pega suas ferramentas e anda pelo pasto rumo à cerca. A cascavel rasteja para o seu buraco.]

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