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sábado, 5 de janeiro de 2013

fotos muito velhas de um passado recente

Imagem I

Um sobrado. Num grande letreiro, acima da terceira fileira de janelas, lê-se "Hotel 2000". Em primeiro plano uma rodovia, ou algo que assim pareça. Um pouco ao fundo se percebe um posto de gasolina. O ambiente em torno desse hotel de beira de estrada está descuidado. Não é descuido no sentido de abandono. Talvez a construção ainda sirva como hotel. Mas quem administra e cuida daquele lugar é do tempo de quando 2000 ainda era futuro; de quando 2000 inspirava modernidade, mistério. Um velho, quem sabe.

Imagem II

Da direita para a esquerda: um par de rodas e pneus ao lado de uns tambores tombados, enferrujados; um pátio de terra batida; um ônibus velho, ou sua carcaça, tombado de lado, sem vidros, faróis, rodas. Até a tinta parece ter sido removida e reaproveitada. Chama a atenção: a única peça que restou na velha lataria, e, talvez, o único indício de que aquilo tenha sido um ônibus um dia, foi o letreiro na parte superior do buraco que antes ocupava o para-brisas. Nele, através de um vidrinho empoeirado, lê-se "SUMIDENSO", em letras exageradamente grandes, como se fosse um lugar onde não se deveria ter dúvidas sobre ir ou não.

Imagem III

Eu. Eu sentado no que parece ser um banco ou uma banqueta. Roupas negras: calça e camisa de mangas longas. Corpo encurvado e cotovelos apoiados nas pernas. As duas mãos se encontram e os dedos se entrelaçam de forma estranha. O que denunciam? O olhar encara a câmera, inseguro, incomodado, ou talvez seja apenas confiança excessiva. Petulância? Ao fundo um balcão com cabeças brilhantes, brancas. Cinco, das seis, estão cobertas com cabelos, claramente perucas, penteados de formas distintas. Em pé, atrás do balcão, um senhora observa a cena e parece alheia à fotografia. Em suas mãos, um maço negro que parece ter como destino a cabeça careca da fileira sobre o balcão.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

[um texto antigo q achei por aí sem terminar. achei injusto terminá-lo]

acho que me encontrei. ou talvez tenha me perdido em novos caminhos. por onde começar? talvez eu tenha esperado tempo demais e o minuto seguinte não passará tão lentamente. pela primeira vez, no entanto, me liberto novamente. foi assim que percebi que eu nunca morreria. ou morrerei, para tratar dos tempos verbais. quando você pensa em si como centro da sua vida, você percebe que ela não tem fim. você é o ator da sua morte. digo tudo isso, assim, sem sentido, porque espero encontrar eco. digo tudo isso, assim, porque foi aquela noite, e só aquela: a lua, a luz incerta da vela, o ar deliciosamente gelado que conservava o sorvete de minha taça em sua mais imperfeita e irregular forma; conservava também aquela gota de suor em minha fronte, como que medrosa de descer pela minha face, recém barbeada porém áspera e irritada. quando aquela goticula chegasse à toalha da mesa eu seria lançado ao céu escuro, já sem vagalumes. até lá, eu estava submerso em ansiedade. meu estomago tinha tornado-se um triturador de lixo vazio, com suas lâminas ociosas balançando conforme o swing da música que agitou minha alma. "amor, você sabe o que me trouxe aqui?" eu não podia negar balançando minha cabeça e minha boca estava muito seca para articular qualquer palavra sem levantar uma suspeita sobre meu estado psicológico. quando tentei improvisar um "não" ao mesmo tempo que limpava a garganta e tentava varrer o suor da fronte com uma das mãos o que saiu de mim foi um som estranho que mais pareceu um gemido.

sábado, 12 de maio de 2012

{)O(}

É o dia do jogo. Vamos narrá-lo direto da quadra. Aquela adrenalina do público, dos jogadores, minha. Uma hora e quarenta e cinco minutos antes do início da partida são abertos os portões. Todos vão chegando e se recostando. Trazem óculos de sol, bonés, protetores frescos nas faces, roupas limpinhas onde o branco é mais branco e o azul é mais azul que o céu ensolarado. Trazem namorados, mulheres, amigos, mães, filhos. Trazem comida. Meu Deus, como podem comer num dia destes? O nervosismo é grande em mim, nos jogadores. No público já não é considerável. O sol alto do meio dia desce como um manto sobre a quadra, perfeitamente perpendicular. Não existem sombras que não aquelas dos guarda-sóis montados sobre os banquinhos amarelos ainda vazios porque os jogadores ainda não saíram dos vestiários. A iluminação perfeita provida pelo belo dia permite que cada centímetro da quadra esteja bem visível da nossa cabine. Imagine do banco do árbitro. Os juízes de linha não vão errar uma hoje. Não podem errar. O público continua entrando com uma calma que não corresponde com a tensão e o clima pesado que a proximidade do jogo vai criando. Tento me acalmar meditando por alguns minutos. Quando me dou conta, o narrador, meu amigo Jarbas Jaque, já estava iniciando a transmissão e os jogadores já estavam em quadra aquecendo. "...neste belo dia de sol, vamos assistir a partida...". É isso, é agora. Ele vai me apresentar. "...que vocês vão curtir aqui com a gente, não é Álvaro Altares?". Hesito por um nano-segundo. Merda, eu engasguei na minha primeira fala na televisão. "É isso mesmo, Jarbas. Bom dia amigos do esporte, hoje um confronto que vai definir o novo campeão da...ah! verdade!". Um riso sem graça tenta encobrir meu nervosismo enquanto eu corrijo o "bom dia" para "boa tarde". Continuo minha fala como se fosse uma preleção: "...o favorito de todos os tempos enfrenta hoje a sensação desse Grand Slam, um tenista estreante que vem surpreendendo e galgando posições no ranking no entradas e que tornou-se um ótimo candidato ao título...". Foi automático. A primeira grande participação correu bem. Meu texto de apresentação estava interessante, eu falei com naturalidade, calma. Só mais algumas participações como esta e eu estou pronto para ir embora, aliviado.O grande Jarbas segue com a narração impecável. Talvez um dia eu seja como ele. "Álvaro, eu confio que Peter Duck não vai deixar o sucesso recente de Reddie Skin abalar seu ótimo tênis e sua reputação de mais de 13 títulos. Há muito em jogo, mais do que o campeonato deste Grand Slam. E você, quem acha que leva o caneco pra casa?". Nossa, essa foi inesperada. "Ah, Jaques Jarba, esses jogadores iniciantes e inexperientes podem sempre surpreender contra os grandes nomes do esporte. Geralmente trazem grande perigo nos sets iniciais e costumam superar o adversário favorito, mas devo concordar com você de que Duck não deixaria uma derrota no set inicial abalar seu jogo. A experiência de campeão o mantém focado e sabedor de que a vitória só é alcançada ao fim de todos os sets". Uau, se eu continuar assim vou tomar o emprego do Jarbas rapidinho.
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Tudo que sei é que o jogo não terminou bem. Os dois atletas disputaram ponto a ponto. O comentarista da tevê local infartou no fim do terceiro set.
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Construir um personagem durante umas tantas linhas para depois matá-lo em umas poucas. O que isso diz sobre o seu caráter?

sexta-feira, 27 de abril de 2012

que lhe tirou um ponto

necessitava de mais um ponto na média para não apanhar de cinto e ferro quente do pai. para o professor rodolfinho, com carinho.

rico tico

até quando? até durarem os estoques, mas coisas boas estão em falta.

conto deveras pequeno

não duraram dois anos completos, a contar da data de nascimento do filho. sem sentimentalismos, foi como combinaram.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

sábado, 24 de março de 2012

o facundo do ferreira

desde que a identidade se tornou um problema eu venho cultivando argumentos baseados em palavras difíceis e ideias que não fazem tanto sentido assim. prova ae. ninguém passa pelo crivo do desvio padrão. mas o momento é de tristeza para o coletivo pró-identidade: ela não funciona. mas aí usamos o argumento letal que invalida qualquer discussão: "era pra funcionar? você realmente acreditou nela?". a consciência da construção aniquila nossos adversários e nos exime de culpa. afinal de contas, sempre a alegamos, mas nunca nela acreditamos. era uma performance.

Valeu a tentativa. ou não? nós mesmos nunca fomos objetos de reflexão. nem da nossa, nem da alheia. o problema é que não temos mãe para nos dizer que somos especiais. nosso fetiche é outro além do útero (ou do pé) materno.

sexta-feira, 9 de março de 2012

cousa que cae

assistia todo aquele evento carnal, lascivo. admirava cada movimento ritmado e compassado e suado. era um casal como outro qualquer, mas estavam engajados ali, solenes e silenciosos, como se cumprissem uma tarefa ou um dever. cumpriam o protocolo como se soubessem cada passo de cabeça, memorizado na repetição eterna do ato. passava como um filme: o tempo real, a câmera em primeira pessoa, sem cortes e sem trilha sonora. era lindo. dava a impressão de vida. eu vivia o que estava vendo. as luzes apagadas me atiravam no telão; eu podia sentir o cheiro do ar empapado e o gosto do suor misturado a perfume. o toque gelado da pele trêmula. quero morrer e ver o filme da minha vida. celulóide etérea. ângulo onipresente. atuação impecável. deus como diretor e eu como roteirista. fotografia: o secretário de obras públicas e os pichadores da minha cidade.

filme chato. sem ação, sem narrativa. o trailer me enganou. não existe filme chato nos trailers. todos são bons, com uma história intrigante, um must-see. é isso. minha vida vai ser isso. um trailer. vou tirar o fôlego da plateia nos breves dois minutos e dez segundos. ao fim, cochichos animados, logo seguidos do silêncio em respeito a nova vida que se exibe, que compenetra, que suscita sonhos. meu filme não vai estrear.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

estou esperando meu onibus passar...

...e enquanto isso vou te contar uma história. ela fumava muito. não importa o que eu dissesse, ela continuava fumando. grávida, fumava o dobro. o curioso é que seus filhos aparentemente não tiveram problemas com isso. vai saber. um dia, então, pedi a ela um cigarro e o isqueiro. quando ela se aproximou de mim, eu senti um cheiro muito forte de podridão e tabaco. ela me disse que seu hálito cheirava assim porque assim estava seu pulmão. "Como você vive?", perguntei. me disse que não vivia, mas ficava a espreita no ponto de ônibus esperando algum distraído ficar sozinho. aí vem meu ônibus. mas fique tranquilo que hoje ela não vem. Casei com ela, tirei ela dessa vida.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

amenidades

só há duas coisas que o homem não erra: o próprio nome e a privada, se lhe convém. outro dia me deram uma "lembrancinha" de viagem. engraçado como materializamos tão fácil nossa mente. o cara tem uma loja de lembranças. dizer "troco lembranças por dinheiro" me parece muito confortável hoje em dia. tanta coisa que queremos esquecer e ainda nos pagam por isso. não deve ser fácil, no entanto, para este senhor proprietário de uma loja que vende pedaços de sua mente. os estoques não esgotam. ele está sempre relembrando o que foi vendido. e conforme os negócios vão bem, novas lembranças chegam. cada vez mais complexas, árduas, luminosas, sonoras e coloridinhas. não posso nem imaginar o trauma que esta pobre alma sofreu.

algum dia eu disse que esse blog cultivava uma estética do desespero, ou coisa que o valha. mudei de ideia. o que eu faço aqui está mais para uma poética da digressão aleatória. não que isso seja melhor ou pior.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

gustavo poli e a intriga implícita

"de santa eu não tenho nada!" - meu deus. e essa era para ser uma narrativa linear, tradicional, quase reaça. não vou mais conseguir um texto simplesmente descritivo depois disso. beijava os ladrilhos. e eu só queria isso. não podia querer mais que tudo isso. o que aconteceu ali eu não saberia explicar porque não presenciei. Apenas vislumbrei o que meus sentimentos e minha percepção criaram em minha mente: não podia distingui-lo de um desejo pueril. "amanhã é quando tudo acontece". porque me diziam isso? isso não fez sentido e tampouco faz agora. tudo acontece sempre. amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada. eu já estava ficando medíocre nesse nível quando me alertaram. saí de lá sozinho, desacompanhado, e me perdi. estou perdido, mas sei pra onde ir. um beijo pra torcida.

sábado, 1 de outubro de 2011

estamos presos a prazeres bobos, a manias intolerantes e ridículas, a posturas frágeis e a identidades tão efêmeras quanto pensamos que são eternas. e, nem por isso, temos que nos desrespeitar. só porque é uma construção não torna nada inválido. todo sentimento, bom ou ruim, vale, se é sincero na alma. e é por isso que a existência é tão insuportável.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

"primeiro foi um cachorro de lingerie, depois um cara decapitado sorrindo, por mais perturbador que isso seja. qual vai ser a próxima?"

acordei com meu coração batendo num ritmo estranho, almost like skipping a heart beat. por 7 anos de merda eu ouvi essa escavadeira ligada. as chaves batendo no cinto de Barney, o enfermeiro/carcereiro. talvez essa seja uma profissão ingrata. enfim. eu sei que sou louco, sempre fui louco. gostava de imaginar Dorothy correndo pela entrada do rancho, com um coelho pendurado pelos pés em sua mão, o pescoço frouxo indicando nosso jantar. é claro que isso nunca aconteceu. mas minha Dorothy era real. podia fazer combinações aleatórias? mas quem pode? não, minha Dorothy não. ela não era aquela moça apressada do corredor. ela veio pra mim a tira-colo. uma ótima surpresa. começou como uma verruga e me consumiu o quadril. ao fim da guerra, Dorothy já havia brotado e me livrado de um bom peso. o bom de se ter algo como a Dorothy por perto é que nunca estou só. nunca mesmo. as vezes sonho que estou indo encontrá-la e quando chego ao local combinado me deparo comigo mesmo conversando com ela mesma que esteve o tempo todo em meus ombros. e ela sempre está olhando pra mim. nos olhos.

"já reparou como suas histórias sempre têm um personagem central ou muito importante a quem você fica se referindo o tempo todo?"

a árvore. o capim. a maçã. a maça. o solstício. a dor. o pedir. o querer. a cruz. a jóia. a coluna. as colunas. a água. foto. som. cor. álcool. o grito. a música. amor. você.
me disseram para parar. eu parei de rir deste pedido só depois de muito tempo. as vezes constranjo as pessoas, sabe? nunca prometi o contrário também. enfim: não parei. daí tentei explicar minha incapacidade de contar uma história realmente boa e que, por isso, eu escrevia histórias sem sentido. não se interessou muito pelo que eu estava dizendo. resolvi continuar:

sozinho, no quarto, pedro pensava no que faria no outro dia. estava cansado de roubar carteiras, bolsas, apalpar bolsos vazios ou mais furados que o dele. viu no jornal nacional uma chamada: "o Papa Maldito XVI voltará ao Brasil ainda esse ano, Fátima". decidiu que iria ser algo. decidiu ser algo. decidiu ser uma manchete no jornal. visitar o Brasil era difícil. teria que morar fora uns tempos para que sua vinda ao Brasil fosse considerada uma visita e não uma deportação. não. ele tinha que inovar. não iria seguir os passos de um papa qualquer. "já sei!", pensou, "vou subir no Copan!". no outro dia saiu de casa só com a coragem e com a roupa do corpo. desceu do ônibus no ponto em frente ao seu destino. pensou que esmurrando e ameaçando o porteiro conseguiria acesso ao telhado. conseguiu uma viatura e dois policiais brabos dando-lhe cocotes e tapas em meio a esporros. foi jogado numa cela a espera que alguém viesse lhe buscar e por algum motivo foi parar no presídio. passou lá dois anos pela morte do porteiro esmurrado. estuprado, espancado, ofendido e insultado; quebrado em seu espírito e mutilado na sua humanidade. tudo aconteceu tão rápido. rebelião. refém. decapitação. foto sorrindo no jornal.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011



no japão do século XIX, dar um cachorro a uma pessoa podia ser considerado uma ofensa. isso porque o cão poderia atacar o dono em alguma situação aleatória. também era muito elogioso, porque ele protegeria a casa e o han. essa faca de dois gumes era conhecida como buta-no-kakuni. um cachorro de lingerie, no entanto, poderia salvar vidas. um dia cruzei com um pelas ruas de uma cidadezinha ao norte de Kyoto. ele baixava seus 4 sutiãs para mostrar os mamilos e gritava: "ui, vadia". foi realmente sincera minha risada. quando já estava de costas para o cachorro, meus dentes saíram pela nuca e essa "nova" boca, ainda ensanguentada, porém não menos risonha, ria e se divertia chamando o cachorro de "hot dog", num trocadilho que eu achei muito apropriado. meus joelhos cederam ao peso do riso. ao levantar, com alguma dificuldade, percebi outro cachorro vindo pela rua. ele estava seguindo o cão de lingerie. me resignei ao aceno. depois vi os dois tomando tequilas e um drink que mais parecia uma floresta tropical. latiam. ganiam. tudo conforme sua vontade.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Diálogo interno 1 ou Primeiro Manifesto Tirânico do ITS

uma vez me disseram que eu pareço não me importar com o leitor. talvez seja verdade. mas como se importar? não peço que ele se importe comigo quando vai ler meu texto. não ofereço nada redondinho ou com sentido claro não porque não quero, mas porque não posso. se fosse minha escolha, eu seria genial. seria um escritor do caralho. viveria do ITS e isso me daria a chance de não me importar mais ainda com meu leitor. mas não posso, simplesmente não consigo. ler um texto bom me deprime. sei que nunca chegarei ao nível de esmero que invejo da pena alheia. but, hey, that's me. não penso assim o tempo todo. as vezes escrevo textos lindos, em prosa catita, e o entrego ao blog como um ourives que passou os últimos dias sem dormir só polindo aquela peça delicada e bela, tão bela que dói só de pensar. mas por algum motivo, a obra de arte postada no blog se esvai, evapora, desvanece, apaga-se, extingue-se, esmaece e desbota. tornam-se palavras tolas tolamente reunidas por um tolo. eu não me envergonho. apenas sinto falta. mas revisitar textos antigos tem se tornado um hábito. reescrevê-los também, mentalmente que seja. no fim, o que me faz escrever, e também o que dá sentido a minha escrita, é, em último grau, muito pouco: é tudo isso que vocês leem e é tudo isso que eu escrevo. [sim, não sei usar nenhuma das duas ortografias, velha ou nova, e me sinto inteligente por achar que sou superior a essas convenções da língua portuguesa, embora não seja]. assim, que fique expresso o inexpressivo ou o desexpressivo, o que não merece ser expressado e o que ninguém lembra de expressar. com ou sem sentido, com ou sem razão de escrita. com ou sem motivo de leitura. que não sejam lidos, porém nunca desprezados. que nos toquem e nos façam sentir tocados. num texto antigo, quiçá o primeiro de muitos, escrevi sobre minhas paixões: cervejas, músicas, amigos. aí não estava expressa uma paixão vital. hoje me redimo: amo escrever. o que não faz de mim um bom escritor, mas, sim, um escritor. e só. é por isso que sou um ITS.

terça-feira, 28 de junho de 2011

do princípio do vandalismo latente

"um estudo recente feito pela Universidade Nacional, encomendado pela empresa Homero de elevadores, deu conta de que a conservação e a preservação do interior dos elevadores durava mais em prédios e condomínios com porteiros. isso porque o morador não precisa abrir o portão da rua com sua chave, mantendo-a em sua mão até chegar à porta de casa. neste entreato, o elevador é riscado com iniciais, desenhos obscenos ou traços sem nenhum sentido. a conclusão dos pesquisadores indica, então, a existência de um vandalismo. o homem não depredaria uma propriedade de uso coletivo se não tivesse sido gerada a oportunidade de estar com uma chave em mãos enquanto espera o elevador abrir a porta em seu piso. como simples passatempo, surge o que os pesquisadores nomearam "vandalismo latente". apresentadas em congressos internacionais, as discussões sugerem que o homem reprimiu esse vandalismo, que é externalizado em situações de SSO ("solidão social oportuna"), quando foi obrigado pelas transformações sociais e culturais a tolerar o outro. geralmente está presente uma forma de alteridade tosca e mal definida, mas que conserva algum valor e sentido na sociedade atual (por exemplo, no dito "cada um, cada um" e em diversos outros bastante conhecidos), conhecida como "alteridade primitiva". esta entra em conflito com o lado bestial do homem e o torna ansioso diante do diferente. ele suprime o que considera suas falhas, sem saber que elas nunca foram suprimidas, mas reprimidas. quando se crê sozinho, externaliza-as inconscientemente. há casos de moradores que se mataram com as chaves e outros que desenvolveram agorafobia ou múltiplas personalidades após muito tempo sozinhos no elevador. o homem que não compreende o outro não foi feito para viver em sociedade."

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Os Três Niveis do Amor das Flores no Rochedo ou Considerações Sobre a Navalhada, a Punhalada e a Facada

I. A Navalhada da Decepção

Jorge chegou no apartamento de Eduardo de maneira inesperada. Ele acabava de sair do banho quando recebeu a mensagem que Jorge logo estaria ali. Na realidade, sabia que ele viria, só não sabia o horário.
- Então - começou Jorge, depois que já estavam na cozinha, cada um com um copo de cerveja na mão - descobri algo. Algo que vai te animar.
- O que?
- Você precisa ver com seus próprios olhos.
- Fala logo!
- Não! Preciso de mostrar, se não você vai fugir como sempre faz. E, o loco, já vai abrir outra garrafa? Ta tomando muito rápido!
- Eu preciso beber.
- O que aconteceu?
Ficaram em silêncio por algum tempo. Eduardo queria contar ao amigo, só não sabia como. Os pensamentos fluíam em sua mente de maneira desordenada. Uma memória ia para outra, enquanto sentimentos dispares dançavam sobre elas. E tudo isso precisava ser condensado em palavras. Meras palavras. Jorge esperava, enquanto olhava para o amigo. Uma de suas qualidades era saber dar o silêncio para as pessoas quando precisavam. Não sentia a necessidade de ficar falando como um louco. Era isso que fazia dos dois grandes amigos. Eduardo era bem inteligente, mas tinha problemas para passar em palavras suas idéias, o que o fazia demorar, as vezes, para conseguir comunicar algo.
- Então - começou, depois de alguns minutos, enquanto ia pegar a terceira garrafa de cerveja - é a Cristina de novo cara. Sempre ela. Por que eu não consigo esquecê-la? Eu a amo.. Essa é a verdade. A amo mais do que gostaria. E tipo, você me entende não? Eu tento. Eu só gostaria que ela me considerasse um amigo, mas não sei, por mais que a gente converse ela parece me considerar um nada. E ontem, ontem foi foda.
- O que aconteceu?
- Eu descobri que ela vai fazer uma festa de aniversário esse final de semana. Ela convidou todo mundo, menos eu, todo mundo! E ontem eu fiquei com ela a tarde inteira, e ela não mencionou nada. Acredita nisso? E sei la. O que me irrita mais, é que eu converso bastante com ela, conto coisas para ela, que sei la, são coisas que eu só teria coragem de contar para você. E ela me trata como se eu não existisse. Esse esquecimento dela é uma facada pro meu coração.
- Te entendo. Mulheres são cruéis mesmo. Mas você não pode deixar ela te abater assim cara.
- Eu tento. Tento mesmo, mas só a visão dela despedaça meu coração. É muito forte.
- Mas você tem duas opções só, ou você diz tudo para ela ou larga disso.
- Eu tento, mas se eu não consigo que ela se importe comigo como amigo, como esperar que ela se importe comigo como algo mais? Eu realmente tento.
Dessa vez foi Jorge que foi pegar uma outra garrafa de cerveja. Aproveitou o momento para dar um silêncio estratégico.
- Quais tão mais geladas aqui?
- Pega as do fundo.
- Então - começou Jorge, voltando para a mesa - você tem que curtir mais a vida, sair mais. É que você fica limitado no seu mundo, ai ela parece a única opção. Sair e conhecer pessoas, é o que você precisa.
- Não tenho animo, nem curto tanto assim sair, você sabe.
- Chega disso. A gente vai sair, e vai ser hoje!
- Sair aonde?
- Você vai ver, já marquei com o pessoal, o Marcos e o André vão também. Vai ser uma boa oportunidade para gente trocar umas idéias e curtir.
- Sei la..
- É sexta-feira poxa! Você trabalha amanhã? Não! Então, vamo lá! Chega de ficar deprimido e solitário em casa. Vai te ajudar a refrescar a mente.

Algumas horas depois, eles estavam dentro de um astra cinza rumo a algum lugar que Eduardo não sabia aonde era. Mas que os outros, principalmente Jorge, pareciam muito empolgados em ir. Foi só quando entraram naquela rua ali que ele percebeu. Mas já era tarde demais.
- Porra, vocês tão me levando pro puteiro? - falou Eduardo, realmente irritado e com um sentimento de fuga no seu coração. Queria voltar para casa imediatamente, sem pensar.
- Cara, essa casa é das boas! A gente descobriu ela ontem! O nível das mulheres aqui é muito foda! Compensa cada centavo! - disse Marcos.
- Porra! Não quero saber! Caralho. Mancada isso ai! - tentou argumentar Eduardo, mas percebia que os outros nem ligavam.
- Cara, vamos ae. Vamos curtir! Você não precisa pegar nenhuma puta não. A gente nem ta muito afim também. Vamos ficar mais no barzinho tomando uma só e olhando uns peitinhos! Olhar é de graça hehe - disse Jorge.
- Eu não curto essas coisas, po! Vocês sabem disso. Relaxo! Vamos embora. - Eduardo estava realmente frustrado com a situação, queria pular fora do carro, seu coração batia bem rápido.
- Cara, como eu disse, vamos ai só para tomar umas, é de boa! Você não precisa comer nada se não quiser. Vai ficar tomando sozinho em casa? Vamos ae!

Depois de uma longa discussão, finalmente os três conseguiram levar Eduardo para dentro do puteiro, e eles ficaram ali. Procuraram uma mesa, e ficaram tomando umas, enquanto olhavam o movimento no local. Algumas mulheres quase totalmente sem roupas dançavam no palco, outras passavam exibindo suas curvas pelas mesas, provocandos os homens ali. Jorge, André e Marcos pareciam curtir bastante o ambiente. Só Eduardo que estava mais quieto que o de costume. Estava extremamente irritado, considerava os amigos uns traídores. Não confiaria mais neles. Nem um pouco. André e Marcos até vá, mas não esperava isso de Jorge. Nunca de Jorge. Olhava para ele com raiva, mas o amigo retribuía com um olhar sorridente e passava uma mão boba numa das moças em volta.
Em certo momento, Eduardo precisou ir ao banheiro e foi quando estava saindo dele que aconteceu. Trombou com Cristina, ali, saindo do banheiro feminino do lado. Aquelas roupas que ela vestia, ou melhor, aquelas roupas que ela não vestia, aquela maquiagem e aquele lugar, só podiam significar uma coisa. E foi nesse momento que Eduardo sentiu uma navalhada de decepção estilhaçar seu coração.

II. A Punhalada da Rejeição

- Cristina?! - falou com uma voz baixa, mas forte. Ia perguntar para ela o que ela fazia ali, mas a resposta era tão óbvia, que nem terminou de abrir a boca ao fazê-lo.
Ela olhou para ele, soltou uma baforada do cigarro que fumava.
- Olá - disse, como se tivessem se encontrado casualmente entre as prateleiras de um supermercado - Tudo bom? Estou atrasada, depois a gente conversa.
A indiferença dela o irritou. Ela sabia o que ele sentia, ele tinha certeza disso. Não era possível não saber. Ele era um cara óbvio em relação aos seus sentimentos, não sabia disfarçá-los. Se fosse outra situação, ele engoliria essa indiferença dela. Mas ali, misturados a decepção que sentia, não aguentou. Segurou-a pelo braço. Queria a atenção dela. Mas nisso um homem grande de terno os separou.
- Algum problema? - disse o homem.
- Nenhum. Eu só perdi o equilibrio e ele me ajudou a não cair - disse Cristina - Mas agora tenho coisas a fazer - disse ela, e andou até um canto, aonde um homem de uns 50 anos, bem vestido a esperava. A pegou pelo braço e os dois foram para o local aonde ficavam os quartos dando umas risadinhas.
Eduardo ficou em silêncio enquanto observava tudo isso. Voltou para a mesa aonde os amigos estavam, não sem passar no bar antes.
- Estamos pensando em ir embora, já que você nem está curtindo muito - disse André, nisso reparou no copo de uísque na mão de Eduardo - Ou será que você está mudando de idéia?
- Vamos ficar - disse, e virou a dose numa só e pediu outra.
- Encontrou algum rabo de saia que te interessou por ai? - disse Jorge.
Eduardo o olhou. Será que o amigo sabia? Teria trazido ele aqui de propósito? Ficou o olhando, olhando aquele sorriso maroto. Todos sorriam naquele lugar, sem se importar com sua alma em ruínas, com seu espírito em decadência. E em algum canto ali, ela ria também, ria enquanto alguém a comia. A imagem daquele senhor com o bigode entre as pernas dela o desesperava. Sua alma gritava em fúria, e ele descontava na bebida. Em vez de pedir outra dose, pediu a garrafa. Cerveja era muito fraca para aquela agonia.
Suas memórias e seus sentimentos voavam, como se estivessem vivos. Sua pele se arrepiava com as idéias que tomavam conta de sua mente. Ele sempre tentou compreender porque ela não o tratava como amigo. Ele sempre quis essa respostava enquanto esperava por ela. Sempre esperando como um tonto. E tudo que ele pedia a ela, no fundo de seu coração, é que ela esperasse por ele uma vez. Uma vez. Que ela demonstrasse algum interesse por ele. Mas no fim, a verdade era que ele nem existia para ela. A navalha da indiferença retalhava o interior do seu peito, sem misericórdia alguma. E uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Os amigos o olhavam atonitos, e tentavam entender o que aconteceu. Mas ele ignorava as vozes deles. Apenas falava para deixar ele em paz. Foi quando Jorge disse:
- Cara, ela nunca ia dar o cuzinho para você mesmo! Vamos comer umas putas e se divertir!
Eduardo se irritou e agarrou a gola do amigo em fúria. Sentiu olhos virando na direção da mesa. Dois homens de terno vinham rápido em direção a ela. Mas ele soltou logo. Sabia que sua raiva não era em relação ao amigo. Não, o amigo só tinha aberto os olhos dele. Os olhos para a verdade que ele nunca quis ver. Pensava nessas coisas, enquanto Jorge dizia que estava tudo bem para os segurança.
- Ela é uma das mais caras aqui. 400 a hora com ela. - disse Jorge.
- Por que cara? Por que?
- Se eu te dissesse você acreditaria? Você tem que esquecer ela.
- Do que estão falando? - Perguntou André.
- Nada não - disse Jorge.
- Pelo jeito nosso amigo aqui quer uma puta muito cara pro salário dele - disse Marcos, e jogou uma nota de 100 na mesa - Pegai! Te ajudo a pagar!
André fez o mesmo. Jorge olhou para os dois peixinhos, olhou para o amigo, e tacou um cheque de 200 reais na mesa enquanto dizia: "Pronto. Vá viver seu sonho."

III. A Facada do Amor

Eduardo olhou para a grana, e para os amigos. Mas não disse nada, apenas encheu seu copo mais uma vez e começou a beber. Sua alma estilhaçada não permitia a ele esboçar nenhuma reação. André e Marcos logo saíram da mesa para aproveitar a noite com duas putas nas quais estavam de olho por um tempo, Jorge falou que cuidaria de Eduardo enquanto eles estivessem fora.
- Foi mal cara. Eu queria te falar, mas você não acreditaria - Eduardo ficou quieto. A única maneira com que expressava algo era o levantar e baixar do copo - Eu fui falar com ela ontem, quando vi ela aqui. Fiquei bem surpreso, bem surpreso mesmo! E cara, eu falei para ela, falei tudo sobre você, como você é apaixonado por ela e tudo mais, que ela precisava dizer para você que não te ama, assim você poderia ficar mais sussegado e esquecer ela.
- E ai? - Havia certo brilho nos olhos de Eduardo ao ouvir as palavras do amigo. O primeiro sinal de vida que ele dava desde que descobriu a verdade das coisas.
- Bom. Eu sei que é dificil. Mas ela deu uma risada e disse que sabia de tudo, que você era claro como o dia - Eduardo levou a mão no coração. Jorge não precisava de muito para saber que a punhalada do menosprezo entrava ali. - E que ela não ia dizer nada. Que ela gostava de você, assim, atras dela.
Eduardo ia encher outra dose, mas Jorge tirou a garrafa de perto e falou prum garçom levar ela embora, mesmo a protestos de Eduardo.
- Você já bebeu muito hoje cara. Eu queria mesmo ter te dito essas coisas. Mas você não ia acreditar, ia achar que era só eu tentando te incentivar a esquecê-la. Mas é isso, essa é a verdade das coisas. Quando o André e o Marcos voltar a gente vai embora.
Ficaram ali, em silêncio, os dois. Sem mais sorrir. A risada estava morta. Em certo momento, Eduardo se levantou e foi ao banheiro. Ficou ali além do tempo da mijada, apreciando sua própria dor. Quando saiu viu que Cristina e o homem haviam acabado. Ele provavelmente já tinha enfiado e tirado a vara de dentro dela várias vezes nessa hora que ficaram juntos. A raiva de Eduardo voltou a brotar. Ele foi até a mesa, aonde Jorge esperava, pegou a grana e falou:
- Eu vou tê-la. Nem que seja por uma noite. Aquela vadia, puta, vou gozar dentro dela.
Ele foi. Irritado. Esticou as duas notas e o cheque e disse:
- Agora vai ser comigo!
- Já tenho um cliente marcado para daqui 10 minutos. Você não vai conseguir nada comigo hoje. - ela deu um sorriso para ele, enquanto acendia um cigarro.
- Pago o dobro do que você vale!
- Não.
- O triplo! Pago o triplo!
- Não.
- Puta que o pariu! Você é puta ou não é?! Vou ter pagar quatro vezes mais, mas você vai dar para mim!!!!
- Não - disse ela com um sorriso no rosto, enquanto soltava uma baforada no rosto dele.
- Você dá para todo mundo caralho! Por que você não quer dar para mim?
Ela se sentou numa mesa vazia, e apontou para a cadeira a frente. Eduardo, tremendo de raiva se sentou, e os dois ficaram se olhando.
- Para você, o preço é diferente.
- Quanto? Me diz seu valor que eu pago.
- Quero seu coração.
Eduardo ficou parado. Sem entender, confuso. Aquelas palavras quebraram qualquer expectativa que ele poderia ter.
- Quero seu coração - disse ela - Porque não cobro dinheiro de quem amo.
O coração de Eduardo palpitava, teria ele entendido certo?
- Me ama?
- Sim. Meu expediente acaba daqui uma hora, depois que eu atender aquele senhor - apontou para um velho que caminhava em direção a eles.
Eduardo a olhava confuso para ela
- Como assim?
- É só para você saber - Ela se levantou e cochichou no ouvido dele - Saber a hora que pode me acompanhar até em casa - e foi até o velho, pegou no braço dele, e o levou até o quarto.
Eduardo voltou até a mesa sem perceber que sorria. Jorge o estranhou:
- E ai cara?
Eduardo não disse nada. Ficou apreciando a alegria em seu coração. Logo, Marcos e André estavam ali, prontos para ir embora.
- Podem ir - disse Eduardo - Eu vou esperar por ela.

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Esse conto foi escrito em conjunto por Caetano e Zeh (que pensa em um final alternativo hehe)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

schwarz-Code

a missão de john era simples. como soldado aliado, disfaçado convenientemente, ele deveria caminhar por berlin com uma carta no bolso. esta carta continha informações assinadas por mim, um general americano, e instruíam um ataque surpresa feito por soldados infiltrados na capital alemã. obviamente as informações eram falsas, um engodo. john recebeu uma boa quantia de dinheiro e deveria caminhar por berlin na missão mais simples e prazerosa que um soldado podia receber. deveria embebedar-se, arrumar uma briga, acabar morto. a carta cairia nas mãos certas uma hora ou outra. mas john tinha uma amante em berlin e alterou um pouco os planos. depois de um dia todo nos braços da amada, decidiu dar o dinheiro a ela e fingiu-se de louco. se jogou da janela. seu plano era igualmente bom. mas ele não contava com um coração partido. ela buscou em seu corpo alguma lembrança e assim achou: um lenço, um lenço que estava no mesmo bolso da minha carta. ela leu a carta. ela entendeu do que se tratava e, querendo honrar o soldado morto recém-descoberto, guardou-a.

não. não pode ser isso. o corpo estava na calçada. ela gritava da janela. a multidão se acumulava em torno do corpo espirrado. algum vagabundo aproveitou para apalpar os bolsos do morto, levando o dinheiro e a carta na pressa. passou por uma lata de lixo e se livrou daquele papel inútil. ou talvez tenha embrulhado o dinheiro no papel: um acabou no caixa de algum prostíbulo e o outro no lixo, escarrado talvez.

não. deve ter se perdido antes. a amante precisou do lenço para limpar o nariz. desatento, deixou cair a carta. a moça quis saber do que se tratava. ele atirou o papel no lixo para que ela não descobrisse seu disfarce. esqueceu de pegá-la antes de saltar para a morte.

será que ele traiu-nos? apaixonado pela alemã, decidiu queimar a carta para que ninguém a encontrasse. mas por que se matar? se ele simplesmente ignorasse a missão e continuasse vivendo com ela não teríamos como puni-lo até o fim da guerra, tempo suficiente para uma fuga muito bem sucedida. não. o que me faz pensar que ali seria a casa da amante? teria sido assassinado então, como previa o plano. o assassino rouba-lhe tudo o que tinha nos bolsos.
***
não adianta divagar. o plano falhou. não sei porque, mas sei que foi a mulher que tomou nosso sucesso. john era capaz de fazer qualquer coisa por ela.
***
abri a porta e encontrei john com o sorriso mais lindo do mundo no rosto. depois de um beijo demorado perguntei-lhe se ele me amava. ele disse que sim. perguntei se faria qualquer coisa para provar. em um daqueles seus ímpetos inconsequentes, ele tirou um papel do bolso e enfiou-o na boca. entre uma mordida e outra, perguntou-me se comer papel era suficiente. eu, risonha, disse que não. ele então levantou engolindo o papel e foi para o fogão onde começou a queimar um bom maço de dinheiro. gritei pedindo que parasse, que a brincadeira tinha perdido a graça. eu precisava de dinheiro. ele continuou olhando para o fogo, hipinotizado. pulei em seu pescoço tentando salvar algum trocado. ele acabou queimando-me a face com a espátula que usava para manter as notas na chama. num ato de raiva, dei-lhe um tapa, ao qual ele revidou, me derrubando com sua força. ao ver-me no chão, de face ensanguentada, perdeu a cabeça de remorso e se jogou da janela da sala que estava aberta. se ele não o fizesse eu o teria pego pela gola e feito eu mesma com que voasse para a rua.