1- O canário morto na gaiola.
Um bicho tristemente pequenininho como este ocupa uma enormidade de espaço no coração de uma família bem intencionada. Morto, o canário deixa um vazio insuperável. Nenhum canto bonito e longo irá ocultar pela manhã a miséria do sem sentido cujo fim é a morte óbvia e absurdamente inesperável.
Nietzsche, ou algum desses, disse que os canários não cantam por estarem felizes na gaiola mas, na verdade, os canários cantam de raiva. A crença de que um canário pode ser feliz vivendo numa gaiola durante anos é a prova de que é possível acreditar efetivamente, na bobagem que melhor nos convenha, por mais que, objetivamente (!!), ela seja completamente infundada.
2- "2013 seré melhor" - Gustavo Poli, 31/12/2011; 23:47
3- Então a voz da mãe misturou-se ao sabor da cachaça injetada compulsivamente no cérebro. O Jornal Nacional continuava ganhando espaço, tomando a casa toda, e a casa se reduzia a pouquíssimos espaços sem ar, sem acesso às testemunhas de Jeová e aos bandidos: chama-se tranquilidade esperar pela morte em um compartimente de um bloco de concreto onde o sol não bate bem e não se diz mais que um bom dia de elevador a desconhecidos viventes de outros compartimentos do mesmo bloco. O álcool foi lenta e progressivamente calando o silêncio interminável do irmão, nascido póstomo, no mal sentido...
4- Segundo Deleuze, escrever um romance não pode ser como escrever um relato pessoal.
E um bom romance não é simplesmente um relato pessoal comovente. Fazer com que o público alvo sinta-se comovido é propaganda ideológica, religiosa, auto-ajuda, ou campanha de marketing.
5- a construção da imagem de hitler por hollywood tornou o nazismo a expressão do mal puro na terra. consequentemente, as condições históricas a partir das quais ele surgiu foram apagadas, como se ninguém tivesse nada a ver com isso, além de uma geração inteira de psicopatas alemães.
deste modo, as donas de casa, os pais de família e os estudantes universitários, abominam os campos de concentração ao mesmo tempo em que enchem a boca para aprovar o antigo massacre ocorrido no carandiru, a pena de morte e, depois de duas cervejas, a eliminação sistemática de certos indesejáveis vagabundos, inúteis ao funcionamento de uma sociedade honesta.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
domingo, 25 de dezembro de 2011
Em busca da mediocridade perdida
1- Meus tios e todos os homens de sua geração são tão bem informados quanto são ignorantes. Estes homens valorosos que sabem todos os detalhes a respeito de todas as coisas, conhecem completamente suas causas e suas óbvias consequências...
São pais de família que nunca leram um livro na vida. Mas o que é um livro?... O problema é a relação,... :: a relação com o cinema como entretenimento, a relação com a música como alienação, a relação com as pessoas como mercadoria.; a/A relação com a morte, com relação de exterioridade - consciência separada e alienação de si mesmo.
Mas o que é um livro? Posso dizer que ninguém passa por um Kafka impunemente? Não. É possível ler Kafka como quem lê Sidney Sheldon/Terry Prachett? Talvez. A relação entre um livro e o mundo (realidade objetiva...) depende da relação que é (materialmente) possível estabelecer entre um livro e outros livros (Ver Darnton, Burke, Ginzburg).
Nesse caso o homem bem informado e bem pago se estrepa. Resta-lhe enfiar cu a dentro toda a verdade que conhece sobre Jesus, a zona do Euro e os rumos da educação brasileira. - Porque a relação entre livro e livro em relação com o mundo é uma relação de produção de dúvida. Zaratustra + Crimecastigo pode levar a Frankfurt, e assim por diante, e daí à consciência de classe e à superação das relações capitalistas de produção.
Mas a dúvida é um valor em si? Sim, porque para Descartes apenas o ato de duvidar é indubtável. ou algo assim, portanto eis a base de ser homem, ou algo assim, cogito... . : porque a dúvida é um antídoto contra a inércia que levará ao nazismo. (hihi!) :)
2- Stephen Hawking sentado [...] ao sol. Sua cabeça vai derretendo e caindo por todo o jardim, e a grama verde se cobre de miolos sanguíneos ardidos de se ver.
3- Carl Sagan mostra fotos do universo. Nebulosas brilhantes se destacando do vácuo preto-infinito como árvores de natal e luminosos de propaganda que desgraçam a cidade noturna. Carl Sagan mostra este tipo de foto porque seria monótono mostrar tipos mais representativos de foto. Isso porque mostrar fotos mais representativas significaria mostrar uma enormidade de fotos de nada. Isso porque no universo, o nada é a regra, coisas são excessão; a escuridão é predominante, a luz é raridade.
4- O óbvio é o óbvio. Certos homens bem informados também querem passar por cultos, querem se distinguir dos meros assistidores de Jornal Nacional, leitores da Folha de São Paulo. Pra isso, além do Globo News também existe o History Channel e a Super-Interessante (Há quem se considere ainda melhor que estes por serem leitores da Scientific American. Entretanto, mesma coisa é mesma coisas).
5- Um certo Philip... escreveu sobre os mongóis. As conquistas mongóis do século XIII submeteram meio mundo (literalmente) ao nomadismo. Isso incluia, além das estepes intermináveis, partes asiáticas reconecidamente civilizadas, no bom sentido: os últimos persas, os chineses, dinastias indianas e os bizantinos, tiveram partes de seus territórios tomadas por hordas de arqueiros montados em cavalos estranhos, ou, no mínimo, pagaram tributo para não se fudeh (isso inclui os russos e os japoneses).
A questão é que após a grande expansão do último neto de Gengis Khan, Kublai, as conquistas mongóis foram sendo perdidas até se reduzirem a nada. A reação dos asiáticos conquistados e a impossibilidade de tomar a Europa, botaram fim à última tentativa de fazer predominar o nomadismo sobre o sedentarismo. Foi a derrota de um modo de vida.
O óbvio: no nomadismo nossas questões seriam outras. A verdade: as coisas são o que são. (O modo de produção capitalista pressupõe a derrota dos mongóis[!!!]).
São pais de família que nunca leram um livro na vida. Mas o que é um livro?... O problema é a relação,... :: a relação com o cinema como entretenimento, a relação com a música como alienação, a relação com as pessoas como mercadoria.; a/A relação com a morte, com relação de exterioridade - consciência separada e alienação de si mesmo.
Mas o que é um livro? Posso dizer que ninguém passa por um Kafka impunemente? Não. É possível ler Kafka como quem lê Sidney Sheldon/Terry Prachett? Talvez. A relação entre um livro e o mundo (realidade objetiva...) depende da relação que é (materialmente) possível estabelecer entre um livro e outros livros (Ver Darnton, Burke, Ginzburg).
Nesse caso o homem bem informado e bem pago se estrepa. Resta-lhe enfiar cu a dentro toda a verdade que conhece sobre Jesus, a zona do Euro e os rumos da educação brasileira. - Porque a relação entre livro e livro em relação com o mundo é uma relação de produção de dúvida. Zaratustra + Crimecastigo pode levar a Frankfurt, e assim por diante, e daí à consciência de classe e à superação das relações capitalistas de produção.
Mas a dúvida é um valor em si? Sim, porque para Descartes apenas o ato de duvidar é indubtável. ou algo assim, portanto eis a base de ser homem, ou algo assim, cogito... . : porque a dúvida é um antídoto contra a inércia que levará ao nazismo. (hihi!) :)
2- Stephen Hawking sentado [...] ao sol. Sua cabeça vai derretendo e caindo por todo o jardim, e a grama verde se cobre de miolos sanguíneos ardidos de se ver.
3- Carl Sagan mostra fotos do universo. Nebulosas brilhantes se destacando do vácuo preto-infinito como árvores de natal e luminosos de propaganda que desgraçam a cidade noturna. Carl Sagan mostra este tipo de foto porque seria monótono mostrar tipos mais representativos de foto. Isso porque mostrar fotos mais representativas significaria mostrar uma enormidade de fotos de nada. Isso porque no universo, o nada é a regra, coisas são excessão; a escuridão é predominante, a luz é raridade.
4- O óbvio é o óbvio. Certos homens bem informados também querem passar por cultos, querem se distinguir dos meros assistidores de Jornal Nacional, leitores da Folha de São Paulo. Pra isso, além do Globo News também existe o History Channel e a Super-Interessante (Há quem se considere ainda melhor que estes por serem leitores da Scientific American. Entretanto, mesma coisa é mesma coisas).
5- Um certo Philip... escreveu sobre os mongóis. As conquistas mongóis do século XIII submeteram meio mundo (literalmente) ao nomadismo. Isso incluia, além das estepes intermináveis, partes asiáticas reconecidamente civilizadas, no bom sentido: os últimos persas, os chineses, dinastias indianas e os bizantinos, tiveram partes de seus territórios tomadas por hordas de arqueiros montados em cavalos estranhos, ou, no mínimo, pagaram tributo para não se fudeh (isso inclui os russos e os japoneses).
A questão é que após a grande expansão do último neto de Gengis Khan, Kublai, as conquistas mongóis foram sendo perdidas até se reduzirem a nada. A reação dos asiáticos conquistados e a impossibilidade de tomar a Europa, botaram fim à última tentativa de fazer predominar o nomadismo sobre o sedentarismo. Foi a derrota de um modo de vida.
O óbvio: no nomadismo nossas questões seriam outras. A verdade: as coisas são o que são. (O modo de produção capitalista pressupõe a derrota dos mongóis[!!!]).
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
estou esperando meu onibus passar...
...e enquanto isso vou te contar uma história. ela fumava muito. não importa o que eu dissesse, ela continuava fumando. grávida, fumava o dobro. o curioso é que seus filhos aparentemente não tiveram problemas com isso. vai saber. um dia, então, pedi a ela um cigarro e o isqueiro. quando ela se aproximou de mim, eu senti um cheiro muito forte de podridão e tabaco. ela me disse que seu hálito cheirava assim porque assim estava seu pulmão. "Como você vive?", perguntei. me disse que não vivia, mas ficava a espreita no ponto de ônibus esperando algum distraído ficar sozinho. aí vem meu ônibus. mas fique tranquilo que hoje ela não vem. Casei com ela, tirei ela dessa vida.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
amenidades
só há duas coisas que o homem não erra: o próprio nome e a privada, se lhe convém. outro dia me deram uma "lembrancinha" de viagem. engraçado como materializamos tão fácil nossa mente. o cara tem uma loja de lembranças. dizer "troco lembranças por dinheiro" me parece muito confortável hoje em dia. tanta coisa que queremos esquecer e ainda nos pagam por isso. não deve ser fácil, no entanto, para este senhor proprietário de uma loja que vende pedaços de sua mente. os estoques não esgotam. ele está sempre relembrando o que foi vendido. e conforme os negócios vão bem, novas lembranças chegam. cada vez mais complexas, árduas, luminosas, sonoras e coloridinhas. não posso nem imaginar o trauma que esta pobre alma sofreu.
algum dia eu disse que esse blog cultivava uma estética do desespero, ou coisa que o valha. mudei de ideia. o que eu faço aqui está mais para uma poética da digressão aleatória. não que isso seja melhor ou pior.
algum dia eu disse que esse blog cultivava uma estética do desespero, ou coisa que o valha. mudei de ideia. o que eu faço aqui está mais para uma poética da digressão aleatória. não que isso seja melhor ou pior.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
[sem nome]
a.
Às dez horas da manhã de sábado, em um bar no centro da cidade, Falcão, i'm not dog no, toma uma dose de baba de gato.
*
b.
No local do antigo restaurante vegetariano, verde vida, ou algo que o valha, foi inaugurada uma churrascaria. Nos tempos de hoje não é fácil ser vegetariano. Deus maltrata.
*
c.
Oráculo: "O médico disse: 'se parar de beber, morre'".
*
Publicidade
A Bíblia Sagrada segundo Cid Moreira.
O consagrado jornalista deixa a imparcialidade inerente ao seu ofício para contar, à sua maneira, os fatos bíblicos.
Brilha, Cid!
*
d.
- Como você atravessou o cercado e o riozinho?
- Muuuuuuuuuuuuu.
- Pela ponte?!?!
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Uísque Chanceler: 9,90 + desgraça classe média
Você seria capaz de aceitar que aquele jeito meio masculino da sua vó é, sem dúvida, uma evidência incontestável de que ela é lésbica?
Acontece que lésbicas de tempos de antigamente, sobretudo nas cidades de interior, não podiam ser lésbicas. A atração sexual que tua vó, quando era mocinha, sentia por outras mocinhas era reprimida tanto externamente pela autoridade do pai, guardião da família, quanto internamente pela ideologia religiosa e várias outras verdades absolutistas.
O fato é que aqueles tempos eram tão mesquinhos - hoje em dia... - que mesmo a atração heterossexual era motivo de vergonha. Sua vó, uma mocinha que nunca chegou a ser bonita, nunca chegou a nada, foi casada pela força da circunstância com um desses brutamontes - seu vovozinho lindo -, (...) . Um cavalo subindo por cima da vovó mocinha pra fazer o que tinha que fazer. 5, 10, 13 filhos...
A vovó, que além de não gostar de homens foi submetida a manter relações com este seu belíssimo vovô-cavalo, teve sua sexualidade completamente anulada... (O clichê de sempre). De todo modo as mães e as vovós são criaturas assexuadas por excelência. É o pressuposto do bom cumprimento de sua função social. A assexualidade de uma vovó lésbica dos tempos do antigo regime interiorano (1950-1968) vai mais longe. Ela não gostava de pau, mas teve que aceitar um pau que, além de ser pau era pau de cavalo... Nunca soube do que gostava, além do mais, - embora seja possível duvidar disso até o limite do bom senso -, (...) . Devido a uma questão de relação de dominação, sua vó concluiu - de forma obscura, no campo da sensibilidade (,não no campo da razão [!!]), que não gostava de sexo, quando na verdade não gostava de pau.
Não importa... a questão é que constituiu família partindo de condições absolutamente indignas de receber qualquer reconhecimento... Da família nasce mais família, é como um câncer. Tornou-se uma vovó atenciosa e preocupada, entretanto...
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
gustavo poli e a intriga implícita
"de santa eu não tenho nada!" - meu deus. e essa era para ser uma narrativa linear, tradicional, quase reaça. não vou mais conseguir um texto simplesmente descritivo depois disso. beijava os ladrilhos. e eu só queria isso. não podia querer mais que tudo isso. o que aconteceu ali eu não saberia explicar porque não presenciei. Apenas vislumbrei o que meus sentimentos e minha percepção criaram em minha mente: não podia distingui-lo de um desejo pueril. "amanhã é quando tudo acontece". porque me diziam isso? isso não fez sentido e tampouco faz agora. tudo acontece sempre. amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada. eu já estava ficando medíocre nesse nível quando me alertaram. saí de lá sozinho, desacompanhado, e me perdi. estou perdido, mas sei pra onde ir. um beijo pra torcida.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
italo calvino
Aconteceu-me uma vez, num cruzamento, no meio da multidão, no vaivém.
Parei, pisquei os olhos: não entendia nada. Nada, rigorosamente nada: não entendia as razões das coisas, dos homens, era tudo sem sentido, absurdo. E comecei a rir.
Para mim, o estranho naquele momento foi que eu não tivesse percebido isso antes. E tivesse até então aceitado tudo: semáforos, veículos, cartazes, fardas, monumentos, essas coisas tão afastadas do significado do mundo, como se houvesse uma necessidade, uma coerência que ligasse umas às outras.
Então o riso morreu em minha garganta, corei de vergonha. Gesticulei, para chamar a atenção dos passantes e – Parem um momento! – gritei – Tem algo estranho! Está tudo errado! Fazemos coisas absurdas! Este não pode ser o caminho certo! Onde vamos acabar?
As pessoas pararam ao meu redor, me examinavam, curiosas. Eu continuava ali no meio, gesticulava, ansioso para me explicar, torná-las participantes do raio que me iluminara de repente: e ficava quieto. Quieto, porque no momento em que levantei os braços e abri a boca a grande revelação foi como que engolida e as palavras saíram de mim assim, de chofre.
E daí? – perguntaram as pessoas. – O que o senhor quer dizer? Está tudo no lugar. Está tudo andando como deve andar. Cada coisa é consequência de outra. Cada coisa está vinculada às outras. Não vemos nada de absurdo ou de injustificado!
E ali fiquei, perdido, porque diante dos meus olhos tudo voltava ao seu devido lugar e tudo me parecia natural, semáforos, monumentos, fardas, arranha-céus, trilhos de trem, mendigos, passeatas; e no entanto não me sentia tranquilo, mas atormentado.
– Desculpem – respondi. – Talvez eu é que tenha me enganado. Tive a impressão. Mas está tudo no lugar. Desculpem. – E me afastei entre seus olhares severos.
Mas, mesmo agora, toda vez (frequentemente) que me acontece não entender alguma coisa, então, instintivamente, me vem a esperança de que seja de novo a boa ocasião para que eu volte ao estado em que não entendia mais nada, para me apoderar dessa sabedoria diferente, encontrada e perdida no mesmo instante.
Parei, pisquei os olhos: não entendia nada. Nada, rigorosamente nada: não entendia as razões das coisas, dos homens, era tudo sem sentido, absurdo. E comecei a rir.
Para mim, o estranho naquele momento foi que eu não tivesse percebido isso antes. E tivesse até então aceitado tudo: semáforos, veículos, cartazes, fardas, monumentos, essas coisas tão afastadas do significado do mundo, como se houvesse uma necessidade, uma coerência que ligasse umas às outras.
Então o riso morreu em minha garganta, corei de vergonha. Gesticulei, para chamar a atenção dos passantes e – Parem um momento! – gritei – Tem algo estranho! Está tudo errado! Fazemos coisas absurdas! Este não pode ser o caminho certo! Onde vamos acabar?
As pessoas pararam ao meu redor, me examinavam, curiosas. Eu continuava ali no meio, gesticulava, ansioso para me explicar, torná-las participantes do raio que me iluminara de repente: e ficava quieto. Quieto, porque no momento em que levantei os braços e abri a boca a grande revelação foi como que engolida e as palavras saíram de mim assim, de chofre.
E daí? – perguntaram as pessoas. – O que o senhor quer dizer? Está tudo no lugar. Está tudo andando como deve andar. Cada coisa é consequência de outra. Cada coisa está vinculada às outras. Não vemos nada de absurdo ou de injustificado!
E ali fiquei, perdido, porque diante dos meus olhos tudo voltava ao seu devido lugar e tudo me parecia natural, semáforos, monumentos, fardas, arranha-céus, trilhos de trem, mendigos, passeatas; e no entanto não me sentia tranquilo, mas atormentado.
– Desculpem – respondi. – Talvez eu é que tenha me enganado. Tive a impressão. Mas está tudo no lugar. Desculpem. – E me afastei entre seus olhares severos.
Mas, mesmo agora, toda vez (frequentemente) que me acontece não entender alguma coisa, então, instintivamente, me vem a esperança de que seja de novo a boa ocasião para que eu volte ao estado em que não entendia mais nada, para me apoderar dessa sabedoria diferente, encontrada e perdida no mesmo instante.
“O Raio”, traduzido por Rosa Freire D’Aguiar, presente no livro Um general na biblioteca, da Companhia das Letras, p. 14-15.
domingo, 13 de novembro de 2011
Desdobramentos de psicoses mais ou menos
1- Sempre eu penso na minha morte. Penso em quem iria chorar ao lado do caixão, em quem iria sentir culpa. Quem sentiria minha falta?
Penso em quem se sentiria punido pela minha ausência, mesmo na inocência.
2- Sempre penso que você teria uma enorme dificuldade para aceitar o fato de que seu pai tem certas fantasias homossexuais.
Ele nunca admitiu isso pra si mesmo; não tem vocabulário pra isso. No entanto ele não é capaz de ver uma bicha na t.v. sem rir. Norbert Elias diz que o riso é uma forma de lidar com desconfortos de origem pouco clara, ou algo assim. Portanto é disso que se trata.
3- O vizinho do seu primo acredita completamente que a mãe dele já não se masturba há muito tempo, apesar de tudo. E, de fato, ela não se masturba. Mas de uma forma muito obscura, misturada à muita coisa diversa, é isso o que ela deseja profundamente, mas não tem vocabulário para expressar em gestos este desejo. E, segundo Santo Agostinho, o pecado está na intenção, ou algo assim. Hehe, a convicção na natureza assexuada das mães é a base sólida a partir da qual se constrói todo o mal
*: - O mal?! Puta que pariu!
#: - O que?
*: - Puta simplificação moralizante da porra!
#:- Foda-se!
4- Às vezes eu penso na morte dos meus pais. Isso vai acontecer. Ainda assim, no momento o que me preocupa é comer essas meninas da balada. Me preocupa minha independência financeira. Me preocupa receber reconhecimento de meus comparsas e de meus superiores no trabalho.
*: - Mas a vida é assim mesmo, fazer o que?
#: - E o que isso tem a ver com a morte dos seus pais?
Antes da morte dos meus pais eles irão envelhecer e adoecer. Hoje em dia as pessoas bem sucedidas pagam especialistas para cuidar de velhos doentes. As coisas são o que são...
É melhor não ter filhos, e morrer cedo, com saúde, sabe?
5- Descobri, ultimamente que A Sociedade dos Poetas Mortos é um filme de auto ajuda pra pessoas inteligentes.
#: - Nãao... não é isso. Tem várias coisas...
Por mim tanto faz.
Penso em quem se sentiria punido pela minha ausência, mesmo na inocência.
2- Sempre penso que você teria uma enorme dificuldade para aceitar o fato de que seu pai tem certas fantasias homossexuais.
Ele nunca admitiu isso pra si mesmo; não tem vocabulário pra isso. No entanto ele não é capaz de ver uma bicha na t.v. sem rir. Norbert Elias diz que o riso é uma forma de lidar com desconfortos de origem pouco clara, ou algo assim. Portanto é disso que se trata.
3- O vizinho do seu primo acredita completamente que a mãe dele já não se masturba há muito tempo, apesar de tudo. E, de fato, ela não se masturba. Mas de uma forma muito obscura, misturada à muita coisa diversa, é isso o que ela deseja profundamente, mas não tem vocabulário para expressar em gestos este desejo. E, segundo Santo Agostinho, o pecado está na intenção, ou algo assim. Hehe, a convicção na natureza assexuada das mães é a base sólida a partir da qual se constrói todo o mal
*: - O mal?! Puta que pariu!
#: - O que?
*: - Puta simplificação moralizante da porra!
#:- Foda-se!
4- Às vezes eu penso na morte dos meus pais. Isso vai acontecer. Ainda assim, no momento o que me preocupa é comer essas meninas da balada. Me preocupa minha independência financeira. Me preocupa receber reconhecimento de meus comparsas e de meus superiores no trabalho.
*: - Mas a vida é assim mesmo, fazer o que?
#: - E o que isso tem a ver com a morte dos seus pais?
Antes da morte dos meus pais eles irão envelhecer e adoecer. Hoje em dia as pessoas bem sucedidas pagam especialistas para cuidar de velhos doentes. As coisas são o que são...
É melhor não ter filhos, e morrer cedo, com saúde, sabe?
5- Descobri, ultimamente que A Sociedade dos Poetas Mortos é um filme de auto ajuda pra pessoas inteligentes.
#: - Nãao... não é isso. Tem várias coisas...
Por mim tanto faz.
sábado, 12 de novembro de 2011
f.
"As pessoas todas dormem com as cortinas fechadas
e despertam com o relógio", estive pensando.
4:16
4:18
4:17
Nem o tempo de piscar e as horas me aceleram.
4:43
4:48
4:44
Acordo cinco e meia.
Não me lembro do caminho até o trabalho.
O café tá gelado.
A minha máquina de escrever quebrou e
meu chefe não.
Quando chego em casa minha cabeça não funciona. Eu tentei de tudo, eu tentei de tudo, eu tentei de tudo. Não, não funciona. Não, não funciona. Não, não, nããããããão. Não funciona. Funci. Ona. Ona. Ona. Não funci, funci, funci. Não, não, não. Tá, turum tá, turum tá, turum tá, tá, tá, tá. Tchuuuuuuu prarararum pá. Tidum, tidum, tidum, tidum tadá. Tidum, tchudum dum, tchudum, tchudum dum prrrrrrrrrra, pra pá. Não, não. I miss you. Não, funci, funci, não. Não.
domingo, 6 de novembro de 2011
Cinismo e dor no estômago
A: - Eu quero que se foda, na verdade.
B: - Não, cara! Isso é niilismo! Você tem que acreditar em alguma coisa...
*Alguma coisa...? Qualquer coisa? No limite, o argumento desses donos de verdades novas coincidem com a visão de mundo das mães de família: "Você tem que acreditar em alguma coisa..."
A: - Ah tá.
B: - Sua omissão de posicionamento significa adesão inconsciente à ideologia dominante.
A: - Quero que se foda... Essa sua coisa qualquer na qual preciso acreditar para escapar do niilismo é desespero disfarçado de socialismo.
*Essas conversas de bêbados ofensivos, essas acusações baseadas em conceitos bem definidos... tudo despropósito diante da consciência separada que aliena as pessoas da realidade da morte próxima...
#Se isso não é niilismo, então o que é?
*foda-se
B: - Foda-se você!
B: - Não, cara! Isso é niilismo! Você tem que acreditar em alguma coisa...
*Alguma coisa...? Qualquer coisa? No limite, o argumento desses donos de verdades novas coincidem com a visão de mundo das mães de família: "Você tem que acreditar em alguma coisa..."
A: - Ah tá.
B: - Sua omissão de posicionamento significa adesão inconsciente à ideologia dominante.
A: - Quero que se foda... Essa sua coisa qualquer na qual preciso acreditar para escapar do niilismo é desespero disfarçado de socialismo.
*Essas conversas de bêbados ofensivos, essas acusações baseadas em conceitos bem definidos... tudo despropósito diante da consciência separada que aliena as pessoas da realidade da morte próxima...
#Se isso não é niilismo, então o que é?
*foda-se
B: - Foda-se você!
domingo, 23 de outubro de 2011
e.
ouvi-la.
e ficarmos preenchidos de sentido meu.
dia desses percebi da música. entender metáforas, perceber referências. mesmo assim, só algumas vezes, depois de muito tempo, ela ganha um sentido intenso.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
resenha (à combinação tola de palavras)
Pressão,
Repressão,
Sob pressão,
Supressão,
Só.
Depressão,
Depredação,
Sem ação,
São.
--
Repressão,
Sob pressão,
Supressão,
Só.
Depressão,
Depredação,
Sem ação,
São.
--
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Caetanin
Caetanin foi passear
Vinte anos, namorar talvez
De azul e ele é infeliz
Suas mãos estão vazias
Por que estão tão frias?
Tanto amor pra dar
Ele quer ser feliz
Ele só quer seu par
Caetanin foi passear,
Caetanin vai encontrar o amor
Caetanin está a pensar
Sonha um dia encontrar as mãos
E com as suas virão conversar
Mas serão mãos vazias
E irão ser frias
Com amor pra dar
Que queiram ser feliz,
Que queiram ser seu par
Caetanin está a girar
Véu, arroz, igreja a rodar
De azul, como é bonito amar
Suas mãos não estão vazias,
Nem serão mais frias
Quanto amor pra amar
Ele já é feliz
Ele encontrou seu par.
sábado, 1 de outubro de 2011
estamos presos a prazeres bobos, a manias intolerantes e ridículas, a posturas frágeis e a identidades tão efêmeras quanto pensamos que são eternas. e, nem por isso, temos que nos desrespeitar. só porque é uma construção não torna nada inválido. todo sentimento, bom ou ruim, vale, se é sincero na alma. e é por isso que a existência é tão insuportável.
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