domingo, 23 de outubro de 2011

e.

ouvi-la.
e ficarmos preenchidos de sentido meu.

dia desses percebi da música. entender metáforas, perceber referências. mesmo assim, só algumas vezes, depois de muito tempo, ela ganha um sentido intenso.



sexta-feira, 14 de outubro de 2011

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Caetanin

Caetanin foi passear
Vinte anos, namorar talvez
De azul e ele é infeliz
Suas mãos estão vazias
Por que estão tão frias?
Tanto amor pra dar
Ele quer ser feliz
Ele só quer seu par

Caetanin foi passear,
Caetanin vai encontrar o amor

Caetanin está a pensar
Sonha um dia encontrar as mãos
E com as suas virão conversar
Mas serão mãos vazias
E irão ser frias
Com amor pra dar
Que queiram ser feliz,
Que queiram ser seu par

Caetanin está a girar
Véu, arroz, igreja a rodar
De azul, como é bonito amar
Suas mãos não estão vazias,
Nem serão mais frias
Quanto amor pra amar
Ele já é feliz
Ele encontrou seu par.



sábado, 1 de outubro de 2011

estamos presos a prazeres bobos, a manias intolerantes e ridículas, a posturas frágeis e a identidades tão efêmeras quanto pensamos que são eternas. e, nem por isso, temos que nos desrespeitar. só porque é uma construção não torna nada inválido. todo sentimento, bom ou ruim, vale, se é sincero na alma. e é por isso que a existência é tão insuportável.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

"primeiro foi um cachorro de lingerie, depois um cara decapitado sorrindo, por mais perturbador que isso seja. qual vai ser a próxima?"

acordei com meu coração batendo num ritmo estranho, almost like skipping a heart beat. por 7 anos de merda eu ouvi essa escavadeira ligada. as chaves batendo no cinto de Barney, o enfermeiro/carcereiro. talvez essa seja uma profissão ingrata. enfim. eu sei que sou louco, sempre fui louco. gostava de imaginar Dorothy correndo pela entrada do rancho, com um coelho pendurado pelos pés em sua mão, o pescoço frouxo indicando nosso jantar. é claro que isso nunca aconteceu. mas minha Dorothy era real. podia fazer combinações aleatórias? mas quem pode? não, minha Dorothy não. ela não era aquela moça apressada do corredor. ela veio pra mim a tira-colo. uma ótima surpresa. começou como uma verruga e me consumiu o quadril. ao fim da guerra, Dorothy já havia brotado e me livrado de um bom peso. o bom de se ter algo como a Dorothy por perto é que nunca estou só. nunca mesmo. as vezes sonho que estou indo encontrá-la e quando chego ao local combinado me deparo comigo mesmo conversando com ela mesma que esteve o tempo todo em meus ombros. e ela sempre está olhando pra mim. nos olhos.

"já reparou como suas histórias sempre têm um personagem central ou muito importante a quem você fica se referindo o tempo todo?"

a árvore. o capim. a maçã. a maça. o solstício. a dor. o pedir. o querer. a cruz. a jóia. a coluna. as colunas. a água. foto. som. cor. álcool. o grito. a música. amor. você.
me disseram para parar. eu parei de rir deste pedido só depois de muito tempo. as vezes constranjo as pessoas, sabe? nunca prometi o contrário também. enfim: não parei. daí tentei explicar minha incapacidade de contar uma história realmente boa e que, por isso, eu escrevia histórias sem sentido. não se interessou muito pelo que eu estava dizendo. resolvi continuar:

sozinho, no quarto, pedro pensava no que faria no outro dia. estava cansado de roubar carteiras, bolsas, apalpar bolsos vazios ou mais furados que o dele. viu no jornal nacional uma chamada: "o Papa Maldito XVI voltará ao Brasil ainda esse ano, Fátima". decidiu que iria ser algo. decidiu ser algo. decidiu ser uma manchete no jornal. visitar o Brasil era difícil. teria que morar fora uns tempos para que sua vinda ao Brasil fosse considerada uma visita e não uma deportação. não. ele tinha que inovar. não iria seguir os passos de um papa qualquer. "já sei!", pensou, "vou subir no Copan!". no outro dia saiu de casa só com a coragem e com a roupa do corpo. desceu do ônibus no ponto em frente ao seu destino. pensou que esmurrando e ameaçando o porteiro conseguiria acesso ao telhado. conseguiu uma viatura e dois policiais brabos dando-lhe cocotes e tapas em meio a esporros. foi jogado numa cela a espera que alguém viesse lhe buscar e por algum motivo foi parar no presídio. passou lá dois anos pela morte do porteiro esmurrado. estuprado, espancado, ofendido e insultado; quebrado em seu espírito e mutilado na sua humanidade. tudo aconteceu tão rápido. rebelião. refém. decapitação. foto sorrindo no jornal.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011



no japão do século XIX, dar um cachorro a uma pessoa podia ser considerado uma ofensa. isso porque o cão poderia atacar o dono em alguma situação aleatória. também era muito elogioso, porque ele protegeria a casa e o han. essa faca de dois gumes era conhecida como buta-no-kakuni. um cachorro de lingerie, no entanto, poderia salvar vidas. um dia cruzei com um pelas ruas de uma cidadezinha ao norte de Kyoto. ele baixava seus 4 sutiãs para mostrar os mamilos e gritava: "ui, vadia". foi realmente sincera minha risada. quando já estava de costas para o cachorro, meus dentes saíram pela nuca e essa "nova" boca, ainda ensanguentada, porém não menos risonha, ria e se divertia chamando o cachorro de "hot dog", num trocadilho que eu achei muito apropriado. meus joelhos cederam ao peso do riso. ao levantar, com alguma dificuldade, percebi outro cachorro vindo pela rua. ele estava seguindo o cão de lingerie. me resignei ao aceno. depois vi os dois tomando tequilas e um drink que mais parecia uma floresta tropical. latiam. ganiam. tudo conforme sua vontade.

domingo, 18 de setembro de 2011

Depressão e Alcool

Esse uísque está com gosto de lágrimas e tristeza.

Nada como encontrar com o Jack as 9:45 da manhã, e vê-lo fatiar em partes seu coração, vagarosamente, apreciando cada corte, como se fosse o primeiro de muitos.

sábado, 10 de setembro de 2011

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Diálogo interno 1 ou Primeiro Manifesto Tirânico do ITS

uma vez me disseram que eu pareço não me importar com o leitor. talvez seja verdade. mas como se importar? não peço que ele se importe comigo quando vai ler meu texto. não ofereço nada redondinho ou com sentido claro não porque não quero, mas porque não posso. se fosse minha escolha, eu seria genial. seria um escritor do caralho. viveria do ITS e isso me daria a chance de não me importar mais ainda com meu leitor. mas não posso, simplesmente não consigo. ler um texto bom me deprime. sei que nunca chegarei ao nível de esmero que invejo da pena alheia. but, hey, that's me. não penso assim o tempo todo. as vezes escrevo textos lindos, em prosa catita, e o entrego ao blog como um ourives que passou os últimos dias sem dormir só polindo aquela peça delicada e bela, tão bela que dói só de pensar. mas por algum motivo, a obra de arte postada no blog se esvai, evapora, desvanece, apaga-se, extingue-se, esmaece e desbota. tornam-se palavras tolas tolamente reunidas por um tolo. eu não me envergonho. apenas sinto falta. mas revisitar textos antigos tem se tornado um hábito. reescrevê-los também, mentalmente que seja. no fim, o que me faz escrever, e também o que dá sentido a minha escrita, é, em último grau, muito pouco: é tudo isso que vocês leem e é tudo isso que eu escrevo. [sim, não sei usar nenhuma das duas ortografias, velha ou nova, e me sinto inteligente por achar que sou superior a essas convenções da língua portuguesa, embora não seja]. assim, que fique expresso o inexpressivo ou o desexpressivo, o que não merece ser expressado e o que ninguém lembra de expressar. com ou sem sentido, com ou sem razão de escrita. com ou sem motivo de leitura. que não sejam lidos, porém nunca desprezados. que nos toquem e nos façam sentir tocados. num texto antigo, quiçá o primeiro de muitos, escrevi sobre minhas paixões: cervejas, músicas, amigos. aí não estava expressa uma paixão vital. hoje me redimo: amo escrever. o que não faz de mim um bom escritor, mas, sim, um escritor. e só. é por isso que sou um ITS.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Baxandall - Olhar de Época

42/43 "[...] Boa parte daquilo que chamamos de 'gostos' consiste na correspondência entre as operações de análise que requer uma pintura e a capacidade analítica de observador. Dá prazer exercitarmos nossa habilidade, e sobretudo nos divertimos em usar essas mesmas capacidade que na vida diária empregamos muito seriamente."

48 "Para resumir: alguns dos instrumentos mentais através dos quais o homem organiza a sua experiência visual é variável, e boa parte desses instrumentos depende da cultura, no sentido de que eles são determinados pela sociedade, que exerce sua influência sobre a experiência individual. Entre essas variáveis existem as categorias por meio das quais o homem classifica seus estímulos visuais, o conhecimento que atingirá para integrar o resultado de sua percepção imediata, e a atitude que assumirá diante do tipo de objeto artificial que a ele se apresenta. O observador deve utilizar na fruição de uma pintura as capacidades visuais de que dispõe, e dado que, dentre essas, pouquíssimas são normalmente específicas à pintura, ele é levado a usar as capacidades que sua sociedade mais valoriza. O pintor é sensível a tudo isso e deve se apoiar na capacidade visual de seu público. Quaisquer que sejam seus talentos profissionais de especialista, ele mesmo faz parte dessa sociedade para a qual trabalha, e compartilha sua experiência e hábitos visuais."

56 "[...] Freqüentemente as melhores pinturas exprimem sua cultura não só diretamente mas também de modo complementar, pois é enquanto complemento da cultura que melhor se prestam a satisfazer as necessidades do público, que não necessita daquilo que já tem."

- Baxandall, Michael. O Olhar Renascente: Pintura e Experiência Social na Itália da Renascença, editora Paz e Terra, SP, 1991

O Último Vôo do Pássaro Sem Asas - Final Alternativo

Pensei num final alternativo para o conto: http://intelectuaistransgenicossatanicos.blogspot.com/2011/07/o-ultimo-voo-do-passaro-sem-asas.html
Sinceramente, o final original não me satisfez tanto, embora seja mais próximo da idéia que eu queria trabalhar no texto. Mas, ao mesmo tempo, eu queria criar um labirinto, uma prisão de sonhos, e para isso, acho que o final alternativo é melhor. Sem mais delongas:

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Na manhã seguinte, Clarice acordou e olhou para sua cama vazia, estava sozinha ali. Tivera um sonho estranho aquela noite. Ou seria um pesadelo? Sonhara que ia numa festa e conhecia um tal de Fausto e após algumas conversas ficava com ele e chegavam até mesmo a dormir juntos. No final do sonho, ela acordava e o olhava ali, ao seu lado, dormindo tranquilamente com um sorriso no rosto e ela sabia, ele estava morto.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O Último Vôo do Pássaro Sem Asas

Fausto a amava. A amava desde a primeira vez que a tinha visto na distância. Ela era linda. Possuía o cabelo loiro com as raízes escuras, usava roupas e maquiagem que a deixavam perfeita. Ele queria muito tê-la ao seu lado, dizer o que sentia. Queria conversar e conhecê-la, compreendê-la, queria ser alguém importante para ela. Mas o fato era que não a conhecia, e tudo o que podia fazer era observar enquanto passava.

Talvez por tanto desejá-la naquela noite sonhou com ela. Foi um sonho curto, estava sentado no banco de um ponto de ônibus, ela passava e ele a cumprimentava, cumprimento retribuído com um sorriso. Acordou levemente alegre, mas logo a dor no seu coração assumiu. Não era impossível de ocorrer, mas improvável.

Sua vida seguiu normalmente, até que a viu de novo, passando. Nessa mesma noite sonhou com ela de novo, no mesmo banco da praça. Mas depois do cumprimento ela se sentava ao lado dele. Acordou em seguida. E nas próximas noites esse sonho foi se alongando e eles se conhecendo. Começaram conversando de coisas banais, como o tempo e o último acontecimento catastrófico no mundo. Logo foram adentrando seus gostos e conversavam de música, cinema e literatura. Ouviam coisas diferentes, ele curtia mais um rock e ela MPB. Ambos se interessaram pelo gosto do outro. Nos filmes, alguns coincidiram, ambos adoravam Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e concordaram que Antes do Por do Sol era melhor que Antes do Amanhecer. A discussão ficou um pouco acirrada quando ele disse que A Origem não era um filme bom. Ela se irritou, e tentou convencê-lo do contrário, mas sem sucesso. Nos livros, o que o surpreender e muito é que ambos estavam lendo o mesmo: Ficções do Borges. Para cada noite era um conto diferente sobre o que conversam, cada um dando sua interpretação, e maravilhados com a capacidade de pensar do outro. Se sentiam perfeitos juntos. Um ajudava o outro a alcançar níveis de idéias que nunca tinham imaginado. Foi quando, em determinado sonho o ônibus chegou e com muito pesar eles se despediram, ela o beijou antes de entrar nele. E ali ele ficou, solitário.

E solitário acordou, na sua cama, com o coração partido. Seu único sentido de viver o havia abandonado, e lágrimas rasgaram-lhe o rosto quando se olhou no espelo e percebeu a verdade. Ele só queria uma alma para compartilhar as emoções de seu coração, alguém com quem pudesse conversar sobre o que sentia, alguém a quem pudesse dar seu amor e afeição. Seguiu sua rotina.

Depois do trabalho foi a festa na casa do Fábio. Os planos eram beber a noite toda. Fábio era um cara social, diferente de qualquer coisa que Fausto poderia ser, ele conhecia meio mundo, e isso se mostrou na sua festa. A casa estava cheia. Mas toda aquela multidão não importou quando ele a viu ali. Estava lá também, mais bela do que nunca. Descobriu que era conhecida de um conhecido seu e logo estavam conversando. Se chamava Clarice. Com o auxílio do alcool, conversaram sobre tudo sem inibições. Descobriu que não curtiam as mesmas músicas, e para sua frustração, ele não gostava de nada do que ela ouvia. Ela não vira nenhum dos filmes que ele adorava e ele odiava qualquer um que ela mencionasse. E quando ele mencionou Borges, ela só perguntou: "Quem?". A conversa não ia muito bem. Ele não se sentia tão confortável ao seu lado, mas num impulso de sonho tentou beijá-la quando ficaram sozinhos. Ela se surpreendeu, mas retribuiu o beijo. E naquele contato físico, conversas se tornaram irrelevantes Levou-a para casa naquela noite, aonde se amaram.

Naquela noite ele sonhou que estava no ponto de ônibus novamente, ouvindo Watcher of the Skies da banda Genesis no seu MP3 player quando um ônibus parou e ela desceu. A Clarice dos sonhos estava ali e disse que não conseguia parar de pensar nele. Ele sorriu, se abraçaram e se beijaram. Riram muito, uma risada gostosa por ser compartilhada. Sentiam o mesmo e sabiam disso. Aquela era a única realidade possível para eles.

Na manhã seguinte, Clarice acordou e olhou para Fausto dormindo ali, sereno, um sonho tão quieto, tão simples que ele poderia muito bem estar morto. E ele sorria.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Educação. Família. Trabalho. Responsabilidade. Dinheiro. Sobrevivência. Gozo. Vida. Desespero. Conforto. Ressaca. Esquecimento. Salário. Esmola. Estado. Futuro. Semana. Conflito. Poeira. Unha. Dente. Estômago. Fezes. Despertador. Palavras. Calça. Camiseta. Nudez. Chuva. Sol. Nuvem. Sexo. Adulto. Criança. Vivo. Morto. Por-aí. Ao tentar escapar dos dedos que a prendem, uma saúva com toda sua força e entendimento agarra-se no que primeiro aparece.

Prefácio da Segunda Edição de "Fragmentos Caóticos de uma Mente Esquecida"

Foi com grande prazer e supresa que acompanhei o sucesso da primeira edição de Fragmentos Caóticos de uma Mente Esquecida. O prazer é óbvio, quanto a surpresa, confesso que não esperava o sucesso. Em menos de um mês o editor me ligava falando que planejavam uma segunda edição e se eu estava disposto a revisar o texto. Respondi que sim, e revisitei minha obra. Algumas alterações se fizeram necessárias, a maior parte pequenas correções no português e a adição desse prefácio, em que pretendo comentar o processo de elaboração do livro.

Por começar, fico até surpreso de ser um livro, originalmente a idéia era ser um conto. Ela me veio em um dia na casa de um amigo, José Antônio. Na noite anterior haviamos ido numa festa, aonde pela primeira vez eu exagerei na bebida a ponto de perder a memória. Conforme me contavam o que aconteceu naquela festa, eu percebia que não lembrava de nada. E isso me fez pensar na fragilidade da percepção humana e na fragilidade da realidade. Para mim, tudo aquilo simplesmente não ocorreu. Meus amigos poderiam dizer qualquer coisa que eu havia feito que era potencialmente real, eu não poderia discordar. Por algum momento, até entrei em desespero com as piadas que faziam.

Enquanto num universo consciente tudo isso ocorria, em algum lugar da minha mente brotou uma idéia, escrever a história de um homem bebado, caído em um corredor após subir uma escada. A sua frente, seguindo o corredor, havia uma porta, que era a única possibilidade de caminho. Mas ele não se lembrava aonde estava ou como havia chego ali. Seu estado era certa naturalidade, por ainda estar bebado e não querer se mover. Simplesmente continuar caído passivo ali enquanto tenta unir suas memórias de momentos anteriores. Mas ele falha. A última coisa que lembra é estar bebendo com alguns amigos no bar e mais nada. Minha idéia inicial era tentar escrever esses fragmentos de memórias, deixando os devidos espaços em brancos, fatos omitidos, associados a uma curiosidade do que há por detrás da porta. O conto teria que ser escrito de maneira a deixar para a mente dos leitores completarem as potencialidades da história desse bebado e do local em que ele se encontrava. Quanto mais possibilidades de interpretação eu conseguisse criar, melhor seria meu conto. Mas logo desanimei. Não me achei capaz de tal empreendimento e guardei a idéia em minha cabeça.

Foi só alguns meses depois, quando li o livro Der Unendliche Sonneuntergang [O Pôr-do-Sol sem Fim, não traduzido para o português] de Albert Kaufmann, que eu compreendi como proceder. No livro de Kaufmann, Judas é o protagonista, e Deus o pune por ter traído Cristo com a vida eterna. Judas, seria, então, testemunha da humanidade, testemunha dos resultados de seu ato contra o filho de Deus. Ele começa a vagar pela Terra, assumindo diferentes nomes e identidades ao longo dos séculos. O interessante do livro é como o autor trabalha a questão da memória. Apesar de ver tudo, testemunhar tudo, Judas não compreende mais do que as pessoas de sua época e nem dá importância para eventos considerados importantes. Para ele, a Revolução Francesa foi uma época de regada de prostituas e cervejas em algum lugar da Inglaterra. "- Que me importa lembrar o que fazia Napoleão?" dizia ele para a perplexidade de um historiador contemporâneo. Mas ele sabia contar perfeitamente a história do seu amor, Margareth, uma atriz alemã que não ficou conhecida de meados do século XVIII. Ter 2 mil anos de história não o tornou uma testemunha objetiva de tudo, apenas demonstra a fragilidade da memória humana e essa necessidade social criada de estabelecer o que é importante ou não lembrar, que Judas claramente ignora.

Voltando ao meu conto, a leitura desse livro me deixou inspirado, compreendi coisas que estavam dentro de mim, só esperando uma chave para libertá-las. Retornei ao projeto do meu conto. Trabalharia a existência apenas do presente. O passado não existiria, senão como memória e o futuro senão como esperança. E decidi adicionar um elemento místico. Capotado ali, o bebado é visitado por um gato que pula do muro e se aproxima dele. Mas esse gato tem uma particularidade, ele possui três olhos. O bebado não sabe se é sua visão turva ou se é algo real do animal. Além disso, o bicho fala e se apresenta como Azrael e começa a conversar com o bebado, fazendo-o perguntas, revivendo memórias. O homem é levado a presenciar e recontar novamente eventos do seu passado. Mas esses fragmentos teriam que ser contados de maneira não linear e de maneira duvidosa. As falas de Azrael precisavam ser duvidosas o suficiente para o leitor não acreditar que ele era um portador da verdade, embora essa fosse uma das interpretações possíveis.

Conforme escrevia essa história, percebi que um conto não daria, e cada capítulo se tornou uma lembrança do bebado, contada de forma não-linear. Para brincar um pouco mais, decidi fazer com que, com exceção do primeiro capítulo, cada capítulo pudesse ser lido na seqüência que o leitor desejasse, de tal modo que, a seqüência escolhida afetasse sua interpretação da obra. Foi um desafio, e confesso que me deu grandes dores de cabeça. Entre essa decisão e o texto final, foram quase 3 anos de escrita e re-escrita. Tenho que agradecer a José Antônio que me ajudou a organizar essas idéias em conversas estimuladas com uma leve garrafa de pinga ao lado. E aos meus amigos que leram o texto e me ajudaram em vários pontos. As vezes, sinto que o fato de eu ser autor desse texto é mera circunstancialidade. Sem essas pessoas ele nunca teria sido possível.