quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Encontro com a Morte

Três irmãos viviam muito felizes porque trabalhavam em um celeiro, amontoando a palha e cuidando dos cavalos. Na época em que eles viviam, antigamente, o tempo e a disciplina de trabalho ainda eram mais ou menos relaxados. Isso quer dizer que no meio da manhã, ainda antes do almoço, o chefe, dono do celeiro, dos cavalos e da palha, viu passar lá fora, pela janela do celeiro, a moça da quitanda, que era uma beleza, assim como a irmã mais nova dela, que também trabalhava na quitanda. Quitanda era um lugar onde, antigamente, vendia-se alfaces e coisas assim. Embora alface não seja bom para comer, todo mundo que passasse por lá ia perguntar o preço e comprar um pezinho (de alface), só para poder fazer gracejos às irmãs da quitanda. Mas não interessa...O que acontece é que quando a moça da quitanda passou pela janela do celeiro, passou e deu uma piscadela ao dono do celeiro. Antigamente dar piscadelas significava um convite para dar umazinha atrás do celeiro. O dono do celeiro saiu correndo porque essas coisas quase nunca lhe aconteciam, uma vez que ele era feio, pobre e desinteligente, e naquela época as pessoas se importavam muito com isso. Não valorizavam, portanto, o Amor Puro e Sincero.
Quando isso aconteceu, os três irmãos que trabalhavam no celeiro não acreditaram. Mesmo assim, perceberam que a escapada do chefe era possibilidade para aproveitar o pouco rigor da disciplina e do tempo de trabalho para dar uma volta enquanto o chefe dava-se-bem.
Um dos irmãos era o mais novo. O outro era o do meio. E o outro era o mais velho. Saíram do celeiro. O mais novo era o mais esperto: "Eu ouvi falar de uma pessoa. Ela se chama Morte."
O do meio era meio esperto: "Humm...e você conhece a Morte?" - "Não" respondeu.
O mais velho era inesperto: "Aproveitemos a folga para conhecer a Morte!"
Os dois mais novos somaram suas espertezas e concordaram com a inesperteza do mais velho.
Sairam pelo campo e encontraram um velho-cego-sábio-de-barba-branca-vestido-de-monge.
"Ei, velhote cego!" - O mais novo era o mais esperto e o mais cretino. O velho não gostou de ser tratado assim e não respondeu. Então o caçula continuou: "Você é tão velho, tão misterioso, barbudo...Diz-me uma coisa, onde encontro a Morte?" O velho gelou e ficou sombrio, mas por fim sorriu malicioso: "Mas, meu filho! Tão jovem e quer conhecer a Morte? Eu sou um pobre velho e luto a cada dia para me manter afastado dela." Então, o jovem perdeu a paciência e puxou uma faca ameaçando o velho: "Isso não te importa velho louco! Eu e meus irmãos aproveitamos o dia para conhecer a Morte. Você sabe onde ela está e irá dizer agora!" O velho suspirou desapontado: "Se é o que querem..." e apontou para uma direção em que havia apenas uma árvore solitária no vazio da colina. O caçula, então, deu uma voadora no velho, pois era ingrato, e correu, seguido pelos irmãos, em direção à árvore.
Chegando lá não encontraram ninguém. O irmão mais velho chorou: "Aquele velho enganou a gente!" Mas o do meio começou a bater a cabeça na árvore, de tanta alegria: "Olha só isso! Vocês ficaram cegos?!" Apontou o chão, e quando os irmãos olharam começaram a pular e soltar gritos tão agudos que o velho cego misterioso, já recuperado da voadora, além de cego ficou surdo. Acontece que no chão, estava uma quantidade de moedas de ouro muito maior do que os três irmãos juntos poderiam carregar. Quando perceberam essa condição a alegria transformou-se em desespero, pois queriam levar todo o ouro antes que alguém mais descobrisse sua existência.
O irmão mais novo que era tão cretino quanto esperto, decidiu que voltaria ao vilarejo - onde onde havia o celeiro e as moças bonitas da quitanda - e conseguiria bolsas para guardar moedas de ouro. Os outros dois ficaram muito felizes por ter um irmão tão esperto. No entanto, além de esperto o caçula era cretino, e chegando ao vilarejo decidiu comprar três garrafas de vinho para comemorar com os irmãos, o que não tem nada de cretino, pelo contrário! No entanto, antes do vinho, comprou veneno em porção para duas pessoas: o irmão do meio e o irmão mais velho.
Enquanto o irmão menor não voltava, os outros dois tiveram tempo para fazer as contas e perceber que dividir o ouro por dois seria mais proveitoso que dividir por três. O argumento moral veio do mais velho: "Nosso irmão é nosso irmão, mas é um cretino!" O irmão do meio não era bobo e lembrou: "Seremos os dois mais ricos do vilarejo. Casaremos com as irmãs da quitanda!" , "Quando o irmão chegar fingimos brincar de lutinha, como sempre fizemos desde criança, e então enfiamos nossas facas na barriga e nas costas dele!" E soltaram gritos agudos de felicidade.
O caçula chegou feliz e entregou a cada um dos irmãos uma garrafa de vinho envenenada. Eles beberam imediatamante, enquanto começavam a lutinha de brincadeira com o caçula, que bebia vinho puro. Então o mais velho tirou a faca e enfiou até o cabo entre as costelas do irmão menor, que em seguida recebeu no figado a facada do irmão do meio, tão profunda quanto a primeira. O caçula dava seus últimos suspiros, ensanguentado no chão, quando o irmão do meio sentiu-se muito mal e começou a vomitar uma coisa consistente, marrom-vermelho-escura. Então, o mesmo começou a acontecer com o mais velho. O caçula morreu. O mais velho caiu. O do meio morreu, e logo em seguida o mesmo aconteceu ao mais velho. O velho-cego/surdo-sábio-de-barba-branca-vestido-de-monge, ainda parado à distância, não viu nem ouviu, mas sorriu com malícia.

Adaptação e variação de um dos contos do filme de Pier Paolo Pasolini, The Canterbury Tales.

2 comentários: