sexta-feira, 28 de agosto de 2015

[sem nome]

Hoje percebi que criei uma falsa memória de que um dia produzi algum bom escrito - nome quase carinhoso que costumo dar aos textos que escrevo com alguma pretensão, seja ela qual for. Na verdade, essa falsa memória é a esperança de que eu tenha escrito alguma coisa com qualidade literária. Imaginava ser uma vanguarda porque são textos curtos, que eu chamava de poesia-pílula ou conto-pílula, e de sentido meio perdido, frágil, como se nós, texto, sentido e eu, fizéssemos questão de nos deixar escapar.
Mas relendo, percebi que são, em sua maioria, uma grande bosta. Uma ou outra exceção, claro, como o texto da Sabrina e outro que não me recordo agora.
Também percebi que já faz algum tempo que não tenho ideias para escrever. É como se tivesse perdido a sensibilidade ou perspicácia para encontrar qualquer besteira, seja na experiência real dessa vidona veia, ou perdida em algum canto nas ideia. (Às vezes gosto, outras não, dessas rimas imbecis, só pela falta de graça e de fineza).
Pode ser que tenha sido por culpa das preocupações com ter meios materiais para me sustentar, ou da tensão dos ambientes escolares nos quais vivi, ou ainda da vida burocrática que tenho vivido. Talvez seja só a falta d'água, que não mais me permite o desfrute de minha terapia predileta que é o banho.
No meu desvario, desconfio que seja um problema psiquiátrico - que não vou procurar saber o que é, pelo menos não até que me ameacem o internato -, que me impossibilita a fala e a escrita claras, causado por algum tipo de verme ou parasita que desconheça e que esteja aos poucos consumindo meu cérebro. Ou ainda tenha sido os anos de consumo excessivo de álcool, ora, por que não? Talvez um curto período de falta de inspiração, que ficará conhecido didaticamente como Hiato Literário, ou algo que o valha, quando futuramente me estudarem como grande escritor que acreditei que fosse e nunca serei.

domingo, 4 de janeiro de 2015

2013-2014 (como as encontrei)

1- Dezembro de 2013

As varejeiras passam grandes bem do lado da minha orelha. Na velocidade elas fazem até um zumbido realmente enorme. Alguma coisa vai se decompondo por dentro, pela minha boca, por detrás dos olhos, preenche toda a cabeça e depois  desce pelo estômago, já vazio apesar dos evidentes exageros de que tenho sido capaz, no desespero, quando começo a enchê-lo. Nunca antes foi tão forte a impressão de que existe uma tendência infalível para que se acabe também mais este ano sem que nada saia da terrível imobilidade que prende bem junto do chão as coisas todas. Mas eu sei bem, ainda assim que as expectativas de transformação

Não existe, por enquanto acordo possível. todas as circunstâncias alteradas de todas as formas foram tornando inevitável que o pensamento se concentrasse, sob mais de um ponto de vista, em mim mesmo. Tudo se tornou, primeiro com imenso prazer, uma oportunidade de elaboração do projeto de mim mesmo. Então, meu corpo, apoiando-se fraco pelas trilhas que cortavam aquele mundo de árvores, rochas e águas profundas, e tudo isso ia antropomorfizado, de acordo com minhas disposições e conflitos obviamente mais latentes. Não chego a acordo. De repente, algo simples parece promissor. É preciso esperar, mas é, contudo, justamente do tempo que se trata agora. O que é, então, que se tornou, assim materializado esse tempo? Imagino livros que me sugiram soluções.

Como reflexão central, o que aparece é a dialética entre a produção do indivíduo e as demandas da sociedade. Logicamente, associada a essa questão central, está a hipótese de que se possa verificar a coincidência dos traços que compõem a personalidade individual de cada homem pertencente a um dado grupo da classe dominante na cidade, com alto poder de consumo; e que tais traços são compartilhados em conjunto formando assim os consensos principais sobre os quais se sustenta a sociedade. Trata-se da questão do narcisismo.

Os problemas estão espalhados por todo o meu corpo e pela minha mente. Eles se concentram ou se diluem em proporções distintas ao longo de cada tecido. Trata-se da vida; trata-se de uma dialética [...]

2- Já mais adiante

Ela passou toda enorme de vestido listrado em vermelho e branco. Andava o mais devagarzinho que podia, fingindo não me reconhecer. trazia em uma das mãos um café, na outra uma bolsa. Eu estava aqui esperando e esperando, todo bem vestido, ao meu modo. Está sol e eu uso tênis e calça jeans. Isso são fins de Março. De vez em quando me vem um nervosismo que me faz suar um pouco. Nada de mais. As pessoas estão falando suas coisas. Todas misturadas e óbvias. Eu sigo esperando. As pessoas passam todas aqui bem arrumadinhas, escondendo de si mesmas a própria estranheza. Porque as pessoas são estranhas, isso sem dúvida. Os conhecidos são poucos e eu desejo que sejam ainda menos. Que sejam às vezes zero.

3- Dezembro de 2014

O esvaziamento nunca cessa de preencher todos os espaços. Ele vai avançando pela rua, sobre as casas, se alastrando rápido através da grama amarelada. Manter algo fixo é quase impossível, por mais de cinco ou dez minutos. Nenhum conhecido eu encontrei hoje durante o dia inteiro, a não ser por alguns muito distantes que me fazem um aceno com a cabeça e, em ocasiões raras, um sorriso dispensável. No facebook, pelo contrário, todo mundo está presente, dizendo freneticamente muitas coisa. Às vezes prefiro evitar contribuir com o acréscimo de inutilidades novas. Outras vezes, diferentemente, parece que é justamente isso o que de melhor há para se fazer. O ar condicionado da biblioteca às vezes consegue me distrair por algum tempo. Assim que finalizo um parágrafo que parece ter me ocupado durante horas, é impossível para mim permanecer preso à cadeira, como sem dúvida seria recomendável que eu fizesse. É sempre complicado sair um pouco nesses dias em que me vem a convicção de que devo beber menos café. Fatalmente acabo quebrando a promessa. Graças a Deus não sou fumante ou destruiria, com bom pretexto, ao mesmo tempo meus pulmões e minhas possibilidades de escrever ao menos uma ou duas páginas por dia. Eu gosto de observar as pessoas. Elas estão cheias de defeitos tão evidentes na expressão, no modo de andar, de se vestir... Outras estão cheias de qualidades e as qualidades são todas imensamente inúteis.

Tudo está vazio. Algumas pessoas ainda passam e ao passarem dão uma sensação de que estão no lugar errado, ou só passando, realizando algumas últimas tarefas corriqueiras, mas indispensáveis, antes de irem para casa. A maior parte delas está sozinha, na típica, cotidiana, corriqueira atividade de trabalho. A mesa está quente, muito quente. Até agora pouco o sol estava assando-a impiedosamente.
  

sábado, 4 de outubro de 2014

re-cor-re

recorrência é uma bosta. tenho sonhado. acordo assustado sem lembrar o motivo do susto, olho para meu peito nu e vejo manchas de tinta, novo susto. acordo novamente, sonhos intercalados, puta bosta. não, não é nada parecido com aquele filme com o di caprio.

vou para o banheiro lavar o rosto. duas mãos d'água, aquele sentimento de "agora sim, o dia começa". enxugo o rosto, olho para meu peito e, puta merda, tá lá:


acordo de novo. tá foda.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

visões

após o banho, espelho embaçado, olhei minha imagem desfocada. lentamente podia reconhecer melhor os detalhes. nos meus olhos havia o reflexo de outros olhos. pisquei. pisquei. continuavam lá, um tanto opacos, mas lá. algo esboçou um sorriso na imagem do espelho. era meu rosto, era eu e ao mesmo tempo era algo mais.

ainda não decidi o que concluir disso. deixo registrado aqui como garantia.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Um lampejo de: (o) afirmar a vida como se tudo estivesse resolvido

1- "Na ocasião eu me encafuei num canto do meu quarto como uma aranha. Tu estiveste no meu cubículo e o viste... E sabes, Sônia, que os tetos baixos, e os quartos apertados oprimem a alma e a inteligência? Oh como eu odiava aquele cubículo! Mas ainda assim não queria sair dele." - Dostoiévski, Crime e castigo

2- De repente eu vi ela chegando. Claro, meu corpo estremeceu, mas agora, logo percebi, algo de novo estava instalado no meu ser. Bastou respirar, nem foi preciso que o ar enchesse muito os pulmões, olhar de novo, sorrir e acenar. Minha expressão pode se conter, minhas mãos, ainda que geladas, rapidamente pararam de tremer. Um beijo no rosto, de canto de boca, já está bom. Não mais que umas dez palavras, no total, rápidas e vazias. Nos deixamos. Ufa... vitória! Já não sou, em alguma medida, mais o mesmo.

3- Nem sempre é possível evitar ser visto como maníaco. É somente com o passar do tempo que certas coisas vão para onde se deseja que elas estejam. Algumas vezes é tarde para redimir os erros ou as impotências do passado. Agora, aquelas situações completamente desastrosas que continuam na memória, parecem de uma simplicidade inacreditável.

4-


5- No começo eu escrevia coisas engraçadas. Hoje parece que não há nada que possa justificar isso, não porque a vida tenha se tornado pior ou tenha diminuído minha capacidade para suportá-la. O que acontece é que fazer graça, algumas vezes, não passa de desespero. A ironia, às vezes, esconde a dor e a miséria de baixo do tapete a troco de risos e aplausos, ainda que, DE FATO, ninguém ganhe nada com isso. Assim se permanece sempre na superfície das coisa.

6- Em distrações inocentes como xadrez e sinuca percebi recentemente que, na minha condição, tenho uma não casual inclinação a fazer algumas vezes o que parece mais bonito, desconsiderando que esses jogos têm objetivos bastante claros. Isso não seria problema algum caso não me importasse a eventual derrota, o que, de maneira alguma é verdade: quero vencer, vencer sempre e conseguir o reconhecimento da parte de todos os possíveis adversários de que minha técnica tem, inegavelmente, peculiaridades. Perder uma partida, portanto, me deixa puto e, a não ser que eu possa encher logo um copo de cerveja e assumir a postura de que "a vida é só um jogo", acabo caindo no desconsolo e na auto-depreciação.
Isso de colocar a beleza das coisas acima do resultado prático que as atitudes no mundo devem procurar, pode ter graves consequências se for, mais que idiotice, o sintoma de uma tendência geral diante da existência. Isso porque, nesse sentido - e talvez quase sempre -, o que tem de mais bonito pra se ver é o trágico. Daí que nisso se chega a um processo incurável de auto-sabotagem cuja função é preservar o fracasso para com isso ter sempre a matéria que permita estetizar a dor - muitas vezes com ironia - constituindo, então, um masoquismo aliás muito frágil.

domingo, 4 de maio de 2014

Um lampejo de: (o) colocar-se publicamente como postura eticamente necessária

1- "Mas um homem desses não é um caso muito claro. Já que, na medida em que não forem devaneios ociosos, suas ideias são apenas realidades ainda não nascidas, naturalmente também ele tem senso de realidade; mas é um senso para a realidade possível, e chega ao seu objetivo muito mais devagar do que o senso para possibilidades reais, que a maioria das pessoas possui. Ele deseja a floresta toda, o outro quer as árvores; e floresta é algo difícil de expressar, enquanto árvores significam tantos e tantos metros cúbicos de determinada qualidade. Ou talvez se exprima isso melhor de outro modo, e o homem com senso comum de realidade se assemelha a um peixe que abocanha o anzol sem ver a linha, enquanto o homem com aquele senso de realidade, que também se pode chamar senso de possibilidade, puxa uma linha pela água e não tem ideia se existe uma isca presa nela. Uma extraordinária indiferença em relação à vida que morde a isca traz consigo o perigo de fazer coisas totalmente aleatórias. Um homem sem senso prático - ele não apenas parece assim, mas é assim - é inconfiável e imprevisível no trato com as pessoas. Cometerá atos que lhe significam outra coisa do que para os demais, mas tudo o deixa tranquilo desde que possa ser sintetizado numa ideia extraordinária. Além disso, ele hoje ainda está muito longe de ser consequente. É bem possível que um crime que prejudique a outros lhe pareça apenas um erro social, cuja culpa não cabe ao criminoso mas à ordem social. Mas é de duvidar que, recebendo uma bofetada, ele a considere insulto da sociedade, ou tão impessoal quanto lhe pareceria a mordida de um cão; provavelmente primeiro ele devolverá a bofetada, depois pensará que não devia ter feito isso. E por fim se lhe roubarem uma amada, ele hoje ainda não conseguirá ignorar inteiramente a realidade desse fato e consolar-se dessa perda com uma emoção nova e surpreendente. Essa evolução ainda está em curso, e para o indivíduo representa ao mesmo tempo fraqueza e força.
E como a posse de qualidades pressupõe certa alegria por serem reais, podemos entrever como uma pessoa que não tenha senso de realidade nem em relação a ela própria pode sentir-se de repente um homem sem qualidades." - Robert Musil, "O homem sem qualidades" (1930-1943)

2- Saí então, andando sozinho. De vez  em quando encontro conhecidos e daí faço tipo. O álcool no sangue em abundância fez-se a matéria para uma atitude nova, engraçada e temporária que eu, ansioso de transformações, chamei espontaneidade.
Mais tarde, contra a minha razão, comi um cachorro quente enorme cheio de puré e creme de milho. Duas salsichas, batata palha.

3- Todas as noites ela está [...] Sem graça como uma mancha cinza na parede de um escritório de contabilidade. Gosta de comidinhas e bebidinhas caras e estuda muito sem saber pra-quê. É de uma futilidade assustadora. Ela construiu, no entanto, em relação a mim perfeitamente a ficção de uma convivência. Seus gestos, suas palavras, suas considerações sobre mim e sobre os outros preenchem com imaginação a mais completa ausência de contato real.

4- Os dragões e o fogo, para minha surpresa, tem um sentido mais real do que tudo o que até aqui considerei real. Eles conduzem à enorme Ásia/às profundezas da Ásia, sobre a qual pende frágil a Europa que, apesar de sua notável fragilidade, vai contaminando tudo, à medida em que revira do avesso tudo aquilo que aí está, preferencialmente inerte sob o sol. Mas a beleza do trágico constitui uma sedução tão inescapável, que fica difícil.

sábado, 19 de abril de 2014

Abraço



 C                                                                                                                                        Ɔ
            C                                                                                                                   Ɔ
                        C                                                                                            Ɔ
                                   C                                                                    Ɔ
                                               C                                             Ɔ
                                                           C                     Ɔ
                                                                     CƆ

                                                                      O

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

c. g. jung



JUNG, Carl Gustav. Chegando ao inconsciente. In: JUNG, Carl Gustav (et al.). O homem e seus símbolos [1964]. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, p. 128-131.

Curando a dissociação

Nosso intelecto criou um novo mundo que domina a natureza e ainda a povoou de máquinas monstruosas. Essas máquinas são tão incontestavelmente úteis que nem podemos imaginar a possibilidade de nos descartarmos delas e de escapar à subserviência a que nos obrigam. O homem não resiste às solicitações aventurosas de sua mente científica e inventiva, nem cessa de se parabenizar pelas suas esplêndidas conquistas. Ao mesmo tempo, sua genialidade revela uma misteriosa tendência a inventar coisas cada vez mais perigosas, que representam instrumentos cada vez mais eficazes de suicídio coletivo.

Em vista da crescente e súbita avalanche de nascimentos, o homem já começou a buscar meios e modos de controlar a explosão demográfica. Mas a natureza pode vir a antecipar essa tarefa, voltando contra ele as suas próprias criações. A bomba de hidrogênio, por exemplo, seria um freio seguro para o aumento de população. A despeito de nossa orgulhosa pretensão de dominar a natureza, ainda somos suas vítimas, pois não aprendemos nem a nos dominar. Atraímos o desastre de maneira lenta, mas que nos parece fatal.

Já não existem deuses cuja ajuda podemos invocar. As grandes religiões padecem de uma crescente anemia, pois as divindades prestimosas já fugiram dos bosques, dos rios, das montanhas e dos animais, e os homens-deuses desapareceram no mais profundo do nosso inconsciente. Iludimo-nos julgando que lá no inconsciente levam uma vida humilhante entre as relíquias do nosso passado. Nossas vidas são agora dominadas por uma deusa, a Razão, que é a nossa ilusão maior e mais trágica. É com a ajuda dela que acreditamos ter “conquistado a natureza”.

Essa expressão é um simples slogan, pois essa pretensa conquista nos oprime com o fenômeno natural da superpopulação e ainda acrescenta aos nossos problemas uma total incapacidade psicológica de realizarmos os acordos políticos que se fazem necessários. Continuamos a achar natural que homens briguem e lutem com o objetivo de afirmar cada um a sua superioridade sobre o outro. Como pensar, então, em “conquista da natureza”.

Como toda mudança deve, forçosamente, começar em alguma parte, será o indivíduo isoladamente que terá de tentar e experimentar levá-la adiante. Essa mudança só pode principiar, realmente, em um só indivíduo, que poderá ser qualquer um de nós. Ninguém tem o direito de ficar olhando à sua volta, à espera de que alguma outra pessoa faça aquilo que ele mesmo não está disposto a fazer.

Mas como ninguém parece saber o que fazer, talvez valha a pena que cada um de nós se pergunte se, por acaso, o seu inconsciente conhece alguma coisa que possa ser útil a todos nós. A mente consciente, decididamente, parece incapaz de nos ajudar. O homem hoje dá-se conta dolorosamente de que nem as suas grandes religiões nem as suas várias filosofias parecem capazes de lhe fornecer aquelas idéias enérgicas e dinâmicas que lhe dariam a segurança necessária para enfrentar as atuais condições do mundo.

Sei bem o que haveriam de dizer os budistas: as coisas andariam bem se as pessoas seguissem “a nobre trilha óctupla” do Dharma (lei, doutrina) e compreendessem verdadeiramente o self (ou si mesmo). Já os cristãos afirmam que, se as pessoas tivessem fé em Deus, teríamos um mundo melhor. Os racionalistas insistem que se as pessoas fossem inteligentes e ponderadas, todos os nossos problemas seriam controlados. A verdadeira dificuldade é que nenhum desses pensamentos trata de resolver os problemas pessoalmente.

Os cristãos muitas vezes perguntam por que Deus não se dirige a eles, como se acredita que fazia em tempos passados. Quando ouço esse tipo de questionamento lembro-me sempre do rabi a quem perguntaram por que ninguém mais hoje em dia vê Deus, quando no passado Ele aparecia às pessoas com tanta freqüência. Resposta do rabi: “É que hoje em dia já não mais existe gente capaz de curvar-se o bastante”.

Resposta absolutamente certa. Estamos tão fascinados e envolvidos por nossa consciência subjetiva que nos esquecemos do fato milenar de que Deus nos fala sobretudo através de sonhos e visões. O budista despreza o mundo das fantasias inconscientes considerando-as ilusões inúteis; o cristão coloca sua Igreja e sua Bíblia entre ele próprio e seu inconsciente; e o racionalista ainda nem admite que sua consciência não é o total de sua psique. Esse tipo de ignorância continua a existir apesar de o inconsciente ser, há mais de setenta anos, um conceito científico básico e indispensável a qualquer investigação psicológica séria.

Não podemos mais nos permitir uma atitude de “Deus Todo-Poderoso”, elegendo-nos juízes dos méritos ou das desvantagens dos fenômenos naturais. Não baseamos nossos conhecimentos de botânica na ultrapassada classificação de plantas úteis e inúteis, ou os de zoologia na ingênua distinção entre animais inofensivos e perigosos. Mas, complacentemente, continuamos a admitir que consciência é razão e inconsciência é contra-senso. Em qualquer outra ciência tal critério faria rir, tal a sua improcedência. Os micróbios, por exemplo, são razoáveis ou absurdos?

Seja o que for o inconsciente, sabe-se que é um fenômeno natural que produz símbolos provadamente relevantes. Não podemos esperar que alguém que nunca tenha olhado através de um microscópio seja uma autoridade em micróbios. Do mesmo modo, quem não fez um estudo sério a respeito dos símbolos naturais não pode ser considerado juiz competente do assunto. Mas a depreciação geral da alma humana é de tal extensão que nem as grandes religiões, nem as várias filosofias, nem o racionalismo científico se dispõem a um estudo mais profundo.

Apesar de a Igreja Católica admitir a ocorrência dos somnia a Deo missa (sonhos enviados por Deus), a maioria dos seus pensadores não faz um esforço sério para compreender os sonhos. Duvido que exista um tratado ou uma doutrina protestante que se rebaixe a ponto de aceitar a possibilidade de a vox Dei ser percebida em algum sonho. Mas se o teólogo acredita mesmo na existência de Deus, com que autoridade pode afirmar que Deus é incapaz de nos falar por meio dos sonhos?

Passei mais de meio século investigando os símbolos naturais e cheguei à conclusão de que tanto os sonhos quanto seus símbolos não são fenômenos inconseqüentes ou desprovidos de sentido. Ao contrário, os sonhos fornecem as mais interessantes revelações a quem quiser se dar ao trabalho de entender a sua simbologia. O resultado, é bem verdade, pouco tem a ver com os problemas cotidianos como vender ou comprar. Mas o sentido da vida não está de todo explicado pela nossa atividade econômica, nem os anseios mais íntimos do coração humano são atendidos por uma conta bancária.

Nesse período da história humana, em que toda a energia disponível é dedicada ao estudo e à investigação da natureza, dedica-se pouquíssima atenção à essência do homem – a sua psique – enquanto multiplicam-se as pesquisas sobre as suas funções conscientes. No entanto, as regiões verdadeiramente complexas e desconhecidas da mente, onde são produzidos os símbolos, ainda continuam virtualmente inexploradas. E é incrível que, apesar de recebermos quase todas as noites sinais enviados por essas regiões, pareça tão tedioso decifrá-los, e que poucas pessoas se tenham preocupado com o assunto. O mais importante instrumento do homem, a sua psique, recebe pouca atenção e é muitas vezes tratado com desconfiança e desprezo. “É apenas psicológico” é uma expressão que significa, habitualmente: “Não é nada”.

De onde exatamente virá esse imenso preconceito? Estivemos sempre tão manifestamente ocupados com o que pensamos que nos esquecemos por completo de indagar o que pensará a nosso respeito a psique inconsciente. As idéias de Sigmund Freud vieram acentuar, em muitas pessoas, o desdém existente com relação à psique. Antes dele rejeitava-se e ignorava-se sua existência; agora, a psique tornou-se uma espécie de depósito onde se despeja tudo o que a moral refuta.

Esse ponto de vista moderno é, certamente, unilateral e injusto. Nosso conhecimento atual do inconsciente revela que ele é um fenômeno natural e, tal como a própria natureza, pelo menos neutro. Nele encontramos todos os aspectos da natureza humana – a luz e a sombra, o belo e o feio, o bom e o mau, a profundidade e a tolice. O estudo do simbolismo individual e do coletivo é tarefa gigantesca e que ainda não foi vencida. Mas ao menos já existe um trabalho inicial. Os primeiros resultados são encorajadores e parecem oferecer resposta às muitas perguntas – até então sem nenhuma réplica – que se faz à humanidade de hoje.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Ainda o possíoveçl

1- Novamente não há ninguám em casa. como é feito o caminhi? Nãom há também nem ningueém na rua. Pra onde isso vai? Isso é muiroto mais silencioso do quie se pode ver.
Trata-se, comntudo de uma condiçaõe inevitpsavel.;Transcende o indivíduo certhjtamente.
A boca fica  seca e amnahão serádiferente. Poderia ser igual? Que fazer?

2- É preciso ser mais hinesto

3- Eles vão me entranbdoi aqui tosdos os dias poelas manhã. Eu os mato a tosdos com veneno porimeiro e depois ciomo o chinelo. quando eles se caem mortods pelo chçao m eu os recolho pelas asinhas e jogo - foda-se - pelas janeçala. O quintãol fica cheio sde marimbondos mortos.

4- A inveja, ao contrártio do que se poensa, é um sentimento nobre.

5- E se eu pudesse ser mais hinesto? O que [e que serisa enytão seria então? Acho difícil. /Muitas atitudes estçao ja incorporfadas no sentido literal. A cada agressão que o mundo insiste em colocar reotidamente, o corpo rtesponde de modo a oreservar-se , de certa forma. Esytá tudo ceto: o sorriso cordial, a conversa besta; qualquer coisa que o miundo moivido a bug brother instintivom  entende como simpolesmenmtte falsidade.

6-

7- O dia inteiro eu paseie que nçao podia deixar de dormir: é ´reciso entener que a ideia de recuperrar o tempo perdido é kininteoirramente impcil. A própria ideia de viver a vda é inteiramente oimbecil. Ou seja...

sábado, 21 de dezembro de 2013

Tentativas

1- Sempre caminhamos, apesar de tudo, para o final da noite. Chegamos a uma mesa cheia de desconhecidos. Meus olhos já cheios de um desespero emancipado da consciência identificam imediatamente as mulheres; classificatoriamente separam as feias, as bonitas, as lésbicas, as comprometidas. Meu cérebro tem a partir disso a matéria para produzir devaneios de possibilidades cuja concretização, já de antemão, desconfio ser impossível. [o que segue, neste ponto, será talvez acrescentado em uma futura edição desse texto, conforme surjam da experiência, condições para lidar com isso]. Sobre a mesa havia bolo, brigadeiro, cerveja e frituras. Tudo se misturava no meu estômago e na minha mente.

2- Ela estava lá no chão, de baixo da árvore. A barriga explodia de gravidez. Eu dei do meu bolso dois reais, "só tenho isso, moça", "tá ótimo, moço", ela me disse.

3- Nós chegamos já no início da noite. Ela estava usando um vestido amarelo esverdiado muito curto.

4- A sensação de irrealidade vai se afirmando conforme passa o dia. O calor inacreditável transforma todo o ar que ocupa o quarto, num líquido muito denso no qual o ventilador ligado no talo provoca apenas ondas minúsculas de movimento.

5- Finalmente decidimos, em vez de descer, subir sobre a plataforma. Na parte de cima da plataforma, a luminosidade forte do sol e o verde da grama  que se estendia até o horizonte produziram no cérebro um alívio. Um alívio que durou apenas até que ficasse clara a visão de incontáveis túmulos dispostos sobre a grama.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Sim senhor!, 2008 (dirigido por Peyton Reed)

A capacidade para afirmar a vida diante do imenso e evidente despropósito da rotina e das frustrações cotidianas está colocada, neste filme, como um desafio que se torna possível a partir do compromisso esdrúxulo e sedutor de dizer sim a todas as propostas.

Obviamente, este motivo, dizer sim a todas as coisas, rende um filme, dado o estágio alcançado pela consciência generalizada de que as frustrações humanas e a sensação de falta de sentido na vida decorrem da negação dos impulsos e das resistências às oportunidades e ocasiões que aparecem mais ou menos aleatoriamente. Estas resistências têm como objetivo preservar estabilidades e estados de segurança que cada vez mais aparecem no cinema de humor-com-auto-ajuda, como modos de escravidão voluntária que só fazem atravancar o movimento natural das coisas, com isso, impedindo que os acontecimentos de uma vida sem protecionismos criem, espontaneamente, mais acontecimentos.

Obviamente que está aqui colocada uma afirmação da pensamento liberal como uma transposição plenamente adequável a vida dos indivíduos. Claro está, também, pelos próprios pressupostos do pensamento liberal, que se um conjunto de princípios aplica-se ao indivíduo – no qual subjaz a essência que define a verdade das coisas – ele se aplica também aos mais diversos níveis de associações entre indivíduos.

Dizer sim, portanto, significa estar aberto às possibilidades, livre de preconceitos e apegos tradicionais que bloqueiam as oportunidades de mudança e de aceitação das novidades. Essas novidades se mostram boas e estimulantes, fazem sentir-se vivo quem estava como morto. Mas não é tão simples, porque ao adotar seu compromisso de dizer sim, Carl percebe, e afirma categoricamente, que mesmo as coisas ruins podem produzir coisas boas. Está aberto, então a tudo, inclusive ao inesperado, ao inconsequente e ao doloroso, e isso gera, de um modo ou de outro, benefícios. Enquanto o mestre do grupo/seita de auto-ajuda que propaga o "dizer sim", não esclarece que o compromisso de dizer sim não precisa ser radicalmente posto em prática, as ocasiões de negação trazem punições como que governadas por uma força maior e transcendente que impede o retorno a negação. É esta força maior que impede de ceder ao medo, cuja disposição predominante é a negação, cujo resultado é a preservação de um estado letárgico que só pode levar a sucessivos fracassos e, consequentemente a um estado de frustração permanente.

Este momento de relativização do “dizer sim”, que ocorre já na segunda metade do filme, é decisivo para pontuar o sentido da afirmação da vida antes que chegue o momento do desfecho. É o momento em que se coloca, como implicação não explicita, a distinção entre afirmação da vida e autodestruição. É o momento em que se afirma, também, apesar de tudo, os princípios da responsabilidade, da maturidade e da honestidade. A honestidade está, sobretudo, no argumento de que as relações interpessoais, para terem valor dependem de avaliações conscientes e consequentes, que partam de uma reflexão interior. Deste modo, “dizer sim” para tudo torna, para Allison, o amor de Carl sem valor, uma vez que, ainda que na prática as coisas funcionem melhor que nunca, todas as suas atitudes foram tomadas baseadas no princípio fixo de “dizer sim”.

Ao espectador, as inspirações suscitadas ao longo do filme – “eu deveria dizer sim à vida!” – que vão aos poucos estimulando o fascínio por uma inconsequência improvável, sofrem, nesse momento uma redução de potência, que o traz de volta à realidade, no entanto de modo apenas a fazê-lo reconhecer a validade de disposições às quais ele já adere: responsabilidade, maturidade, previdência. “É preciso saber dizer não.” O princípio liberal não pode prescindir de um conjunto mínimo de forças organizadas para a manutenção da ordem, portanto. Essas forças apenas não podem ter a pretensão de controlar a totalidade das coisas, uma vez que isso coloca em risco a vitalidade natural segundo a qual oportunidades geram oportunidades.