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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Variação: Dexter

Eles estavam ali: sentados e observando. No céu a lua cheia brilhava, bela, agraciando-os nessa longa noite. Longa. Mas eles tinham paciência. Apreciavam cada minuto em silêncio.

Alguns metros dali estava ele: sentado e observando. Assistia os últimos minutos do jornal no conforto de seu sofá, dentro de sua aconchegante casa. Quando acabou o programa, desligou a TV e foi para seu quarto.

Eles inspiraram com satisfação. As mãos apertadas no volante. A qualquer minuto agora. Faltava pouco, pouco. A noite seria longa, só mais alguns minutos. Precisavam se assegurar que ele já estaria dormindo quando entrassem. Era assim que a caçada funcionava, embora, com certeza, fosse mais divertido quando a caça tinha ciência do seu predador. E eles iriam assegurar que ela soubesse, mas no momento certo. Por enquanto aguardavam. A qualquer momento. Uma hora , uma eternidade, mas o agora chegou, finalmente, e eles desceram do carro.

Caminharam até a porta pelas sombras. Se asseguraram que não havia olhos indesejados e em segundos arrombaram a porta. Estavam experientes nisso já, tão rápidos e eficientes como se tivessem a chave. Moveram-se silenciosamente. Estava escuro, mas não se importaram. Os sentidos estavam no auge. Tudo parecia tão claro. E já estiveram ali, claro, conheciam muito bem a casa. E se moveram rapidamente até o quarto. Deram uma espiada lá dentro. Dormia. Muito bom. Foram ao banheiro primeiro, não porque precisavam usá-lo, mas para deixar uma pequena linda supresa. E retornaram ao quarto, desta vez para ficar.

Observaram a caça e uma estimulante sensação percorreu cada músculo de seus corpos. Eles suspiraram em prazer. Logo ele seria deles. Inspiraram. Logo. Expiraram. Ele tinha uma poltrona logo ao lado da cama. O lugar perfeito para se sentar e observar. Admiravam sua caça, enquanto aguardavam. Não havia graça em eliminá-la assim, inconsciente, sem saber porque e por quem. A qualquer minuto. Cada segundo a fome aumentava. Eles resistiam, sabiam que isso só aumentaria a satisfação. E aconteceu.

Do banheiro uma música começou a soar. Ele acordou assustado. Conhecia aquela música, eles sabiam, e observavam. Ele correu até o banheiro, sem perceber que não estava sozinho no quarto e ali estava ele, dentro da pia, soando. Ele conhecia aquele celular, mas o que fazia ali? Caminhou trêmulo e o pegou. Na tela havia uma mensagem: "Bu!". Eles sabiam que não era muito criativo, mas fazia o serviço, e antes que ele pudesse reagir, um cabo estava em torno do seu pescoço. Tão forte que ele não conseguia respirar.

- É inútil resistir contra nós. - E logo ele estava inconsciente de novo.

A lua, bela, bela, bela lua. No seu auge, tão perfeita, tão cheia, dominando o céu. Assim como eles dominavam o homem na terra. Tão bela lua, os agraciando em seus movimentos. E finalmente o homem acordou. Confuso. Olhou em volta, estava sozinho naquele bosque. Como fora parar ali? Estava na sua casa e... Medo começou a lhe encher a alma. Olhou em volta, conhecia aquele lugar, era familiar. Seus sentidos alerta, se levantou e de novo o cabo estava em torno do seu pescoço. Forte, como da última vez. Sentiu uma pancada nas suas costas e caiu de joelhos. O cabo afrouxou um pouco e conseguiu respirar.

- Reconhece esse lugar? - Eles disseram, saboreando cada palavra.
- Eu, eu... quem é vo... - antes que pudesse terminar a frase sentiu o cabo apertar contra seu pescoço. Não podia respirar.
- Nós sabemos o que você fez. De novo e de novo e de novo. Mas nunca mais. - e eles aliviaram o cabo um pouco, o suficiente para deixá-lo respirar. Eles estavam em controle. E eles garantiram que ele soubesse disso.
- Argh.. Não sei do que estã... - E novamente ficou sem poder respirar. Eles se deliciavam com aquela sensação.
- Nós sabemos. E você sabe também. - Eles respiraram, o ar nunca parecia tão fresco como nesses momentos - vamos começar?

Eles entraram no carro. Estava feito e era hora de se despedirem. Deixou o demônio desvanecer-se nas trevas de sua alma. Ligou o carro. Sacrificou seu poderes para ser humano novamente, por um tempo. Acelerou. Por um tempo apenas, pois eles se veriam de novo e de novo, num ciclo sem fim.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

variação

Parte 1

Primeiro ocaso:
No asfalto gasto rachaduras estendiam suas veias, ainda sem expor a terra, componente interior em constante luta inerte para impor-se. Raiz rumo ao fundo na terra, ramos arrastam-se pelo asfalto, uma planta cresce solitária. Cansou de ser semente em descanso por anos, brotou, para baixo e para cima. Rara erva-daninha em solo inóspito e desabitado, uma estrada vazia, nas margens, terra arrasada. Dia após dia após dia após dia, centímetro a centímetro a centímetro buscando algo além do asfalto ou do solo seco, apenas desolação. Não conseguia secar e morrer, persistia, alargando sua área por espaços repetitivos, prolongava-se no isolamento sem saber onde acabar, até abraçar o mundo na esperança de estrangular a si mesma.

Segundo ocaso:
Apenas um maquinismo, desconheciam os outros o seu passado. Ele lembrava: uma infância divertida, escola, namoradas, tardes de domingo a quebrar vidraças com estilingue. Um carro ou um ônibus ou um avião, pouco importa: uma pancada, um arremesso, o chão e depois escuridão. Todos diziam coitado, um menino tão bom, deveria ter sido mais cuidadoso ao atravessar a rua, tinha tanto futuro, não, não que estejamos querendo que ele morra, por Deus, torço para que ele recupere-se, é muito triste, coitadinho, melhoras, não abaixem a cabeça, a vida segue, é quase como naquela novela. Enquanto isso, olhos fechados, porém observando, o menino compreendia claramente as palavras e os gestos de todos que transitavam no quarto de hospital em que se perpetuava em seu coma. Dotado de outra forma de lucidez, não era mais criança, esta sua parte estava extinta, não partilhava das esperanças dos adultos, esperava não a sua morte, mas o sepultamento do mundo, poder continuar quieto em si mesmo e apenas isso.

Terceiro ocaso:
-- O tempo está nublado hoje. Será que chove?
-- De que me importa esse clima, estamos de qualquer forma condenados, seja sob o sol que nos racha o crânio, seja sob a chuva que nos afoga a angústia, pouco muda, a constância de nosso sofrimento nem ao menos se contenta em morrer conosco, aguarda paciente e espalha-se por todos quando lhe convém.
-- Imagino que chova, olhe, os pássaros estão voando baixo.
-- Espero que suas asas queimem e tornem-se bolas de fogo a incendiar todo o globo terrestre.
-- Deu-me vontade de fumar, tens isqueiro?
-- Usa o fogo do teu rabo, seu pulha!
-- Melhor corrermos enquanto podemos.
-- Para onde?
-- É... não sei.
-- E quem sabe?
E os estranhos seguiram cada qual um rumo.

Ruína edificada:
Conseguia perder-me em pensamentos sobre como seria melhor reatar relações com uma ex-namorada, como poderia reconciliar-me com o meu avô, como poderia ganhar muito dinheiro sem muito esforço, até que o despertador insistia, lá pelo seu terceiro minuto sem pausa, em lembrar-me que sonhos não convinham, menos ainda estando acordado. Na rua, tudo muito quieto, ou eu muito distraído, ou muito concentrado, certamente indeciso. Construções havia, mas pouco me lembro delas, pouco me lembro de onde acordei nesta manhã, apenas resta o som do despertador como último apoio para minha memória, constante reforço do meu esquecimento. No presente, agora, vejo algo, presumo, sim, consigo, é isso, uma colina, não, aplainou-se, um vale, um prado talvez, a relva secando lentamente enquanto observo, as raízes lentamente recolhem as folhas e caules para dentro da terra numa tentativa de esconder algo que não me cabe compreender, lentamente todo o ambiente ao meu redor é circundado por paredes improváveis pelas quais a luminosidade consegue adentrar. Nada muda e tudo parece alterar-se, sou facilmente enganado pela minha percepção. Sinto o meu corpo em farelos, sinto ser eu mesmo a parede, paradoxo, sou a parede que impede a mim mesmo, sou a causa de minha imobilidade quando esboço alguma reação. Ao que parece, conservo-me, desprendido totalmente dos elementos que um dia achei necessário conservar. Sem ódio, raiva ou desprezo, aceito a situação e aguardo.

Parte 2

“I
...
30. Esta é a criação do mundo, que a dor de divisão é como nada, e a alegria da dissolução tudo.
31. Por estes tolos dos homens e suas penas de todo não te cuides! Eles sentem pouco; o que é, é balançado por fracas alegrias; mas vós sois meus escolhidos.
...
II
...
7. Eu sou o Mago e o Exorcista. Eu sou o eixo da roda, e o cubo no círculo. ‘Vinde a mim’ é uma palavra tola; pois sou Eu que vou.
...
23. Eu sou só: não existe Deus onde Eu sou.
...
56. Ide! vós escarnecedores; apesar de que rides em minha honra vós não rireis novamente: então quando estiverdes tristes sabei que Eu vos abandonei.
57. Ele que é correto será correto ainda; ele que é imundo será imundo ainda.
...
68. Endurece! Conserva-te a prumo! Levanta tua cabeça! não respires tão fundo – morre!
...
III
...
50. Maldição sobre eles! Maldição sobre eles! Maldição sobre eles!
...”.
Trechos de LIBER AL vel LEGIS.

Parte 3

1:


2:

terça-feira, 22 de junho de 2010

Variação: Marindondofimdomundo [inspirado pelo post anterior]

Meu amigo sempre me disse que o fim do mundo começaria com um marimbondo estourando uma janela. Idéia absurda! Nunca acreditei nela até aquele momento.
Acordei com um grito. Me levantei assustado e fui até o quarto do meu irmão. Chegando no corredor deparei com os meus pais já à porta do quarto dele. Bateram, perguntaram se estava tudo bem. Como não houve resposta, abriram-na. Ficamos todos paralisados. A luz do quarto iluminava um marimbondo gigante, devia ter mais de 1m de comprimento, todo espalhado pelo chão do quarto, suas patas se mexiam vagarosamente nos seus últimos suspiros de vida, derrubando alguns objetos que encontravam pelo caminho. Seus sangue, se posso chamar de sangue aquela gosma, estava por todo lado, assim como fragmentos da janelas e alguns pedaços da parede. Meu irmão estava sentado na cama em estado de choque.
Num ato de coragem, meu pai circulou o marimbondo e recolheu meu irmão. Fechamos a porta do quarto e a trancamos por precaução. Meu pai conversava nervoso com minha mãe, não sabiam o que fazer. Ele resolveu ligar pra polícia e o fez. Mas ao contar a história, tudo o que recebeu foi uma bronca, disseram que na próxima vez que ele passasse um trote lá eles viriam até aqui prendê-lo. Foi então que comentei do meu amigo, e que ele sempre contava essa história dos marimbondos e do fim do mundo. Meus pais me perguntaram o número dele, fui buscar. Ligaram lá e me passaram o telefone. Acharam que era melhor que eu falasse com ele. Quem atendeu foi uma senhora bastante irritada, e, só depois de eu convencê-la que era extremamente urgente ela resolveu acordá-lo. Não contei a história para ela, por precaução. Vai que ela pensa que é trote, assim como os policiais bobos a quem meu pai ligou.
Meu amigo atendeu sonolento:
- Alô? Gerivaldo? Não sabe o que aconteceu. Um marimbondo estourou a janela de casa.
- O quê? Marimbomdo?
- É, um marimbondo gigante. 1m pelo menos.
Ficou um silêncio, mas pude ouvir que ele repetia o que eu disse para a mãe dele e, ela numa voz aterrorizada parecia responder: Virgê Maria!
- Alô? Gerivaldo? O que a gente faz agora? Os policiais não acreditaram.
- Nem se preocupe, não chegariam a tempo.
- A tempo do que?
- Do fim, ora.
- Fim?!
- Fim do mundo.
- ...
- O Mundo é o piano de Deus, e o último movimento começa com um marimbondo estourando uma janela.
- Não entendo.
Meus pais olhavam para mim assustados, como quem procura por socorro. Queria lhes dizer algo, mas o que diria? Não entendia nada que meu amigo falava!
- Escuta, você precisa agir rápido e começar o ritual.
- Ritual?
- De purificação. O sangue do marimbondo é sagrado. Passe no seu corpo. E tente convencer o maior número de pessoas a fazê-lo. Eu e minha mãe estamos indo para ai.
Nisso Gerivaldo desligou o telefone. Olhei para meus pais e falei tudo. Minha mãe tentou protestar, sem muita convicção, que estava tudo errado e o fim do mundo começaria com uma trombeta. Meu pai levava as mãos no rosto e não falava nada. Meu irmão continuava em estado de choque.

Meu pai levantou e decidiu que tinhamos que nos purificar. E começou a andar em direção ao quarto. Como ninguém o seguia, ele olhou para tras e deu um berro. Chamou todos para ir com ele. Chegando lá abrimos a porta. O bicho asqueroso continuava capotado no chão, já não se mexia mais. Olhamos por algum minuto, sem coragem de fazer nada. Meu pai chegou a conclusão de que ele estava morto. Andou em sua direção, como se sentisse sua presença, o bicho mexeu a cabeça e as patas e disse só uma palavra, numa voz gutural: "Água". Ficamos paralizados. Ele repetiu: "Água".
Em medo, saímos correndo do quarto. Claro que, fechamos a porta novamente. O que fora aquilo? O que ele queria dizer com água. Meus pais me deram o telefone e falaram preu ligar pro Gerivaldo. Fiz isso, como ninguém atendia, liguei no celular.
- Alô, Gerivaldo? Onde você tá?
- Tô indo prai. Logo chego.
- O bicho falou. Só uma palavra: Água! O que a gente faz?
- Dá água para ele, ué.
- Como assim?
- Ele deve estar com sede.
Desliguei e falei com meus pais. Minha mãe foi buscar a tigela do cachorro, colocou água e deu para meu pai. Com alguma coragem ele levou até o quarto e colocou perto da cabeça do bicho, que, com algum esforço bebeu tudo numa chupada, e disse: "mais". Meu pai deu a tigela para minha mãe que encheu ela de novo. E, de novo, meu pai levou até o bicho que tomou tudo numa chupada e pediu mais. A cena se repetiu por mais cinco vezes. Como, na última, o bicho não disse nada, saímos do quarto e fechamos a porta.

Nos sentamos na sala, quando minha mãe perguntou pelo tal ritual. Meu pai grunhiu alguma coisa e ficamos lá, sentados. Não sei quanto tempo. Mas não foi muito, pois logo escutamos uns zumbidos absurdamente altos vindo de fora de casa. Corremos para a janela e vimos quatro marimbondos gigantes sobrevoando a casa. Minha mãe gritou: "Tem mais deles! Vão nos matar!" Os novos marimbondos pousaram no quintal, e escutamos uma voz chamar. Meu pai foi até a cozinha e acendeu a luz. De lá dava para ver que alguém montava o marimbondo! Um ser com formas humanas. Meu pai foi até lá. Esse outro marimbondo tinha uns 2m. Dois deles estavam no quintal e os outros dois no telhado, eles tinham rédeas, como cavalos e cada um deles um homem montado.
O que nos falou se vestia de branco e tinha um arco:
- Viemos em busca do Ferrão Sagrado.
- Ferrão sagrado? - sussurrou meu pai.
- Pedimos permissão para entrar.
Estavamos todos confusos, meu pai só sussurou um "tudo bem".
Eles desceram dos seus marimbondos e fizeram uma fila em frente a meu pai. O primeiro era o homem de branco, o segundo se vestia de vermelho e tinha uma espada enorme as costas, o terceiro era negro e segurava uma balança e o quarto e último se vestia de verde. Ficaram parados, encarando meu pai. Como nenhum dos lados esboçava qualquer reação, o primeiro quebrou o impasse dizendo:
- Nos mostre o caminho.
Só então meu pai entendeu o que esperavam. Ele os levou até o corredor e apontou o quarto. Então os quatro tomaram a frente e o abriram, entraram e se ajoelharam, como quem se ajoelha diante de um rei. O homem de branco então falou:
- Oh Ferrão Sagrado. Estamos aqui para obedecer vossos desígnios.
E, um a um, beijaram o ferrão daquele bicho, que tratavam como um Deus, mas, para nós, era um inseto nojento. Voltaram a se ajoelhar. Nisso o marimbondo começou a fazer sons irritantes. Parecia alguma língua estranha - marimbondês, talvez - pois os homens pareciam receber ordens. Quando aquele som irritante acabou, o marimbondo tombou a cabeça prum lado como quem morre. Os homens se levantaram, pegaram o sangue do bicho e passaram na testa. Assemelhava-se ao sinal da cruz, mas, quando se viraram para a gente, vimos que era um símbolo estranho, nunca visto antes. Seus olhos não eram mais humanos. Na realidade, não havia mais olhos, apenas o vazio ou seria o infinito? Olhavamos hipnotizados, como se olhassemos o universo.
Eles saíram, não disseram nada. Apenas subiram nos seus marimbondos e foram embora.

Gerivaldo chegou em casa. Contamos para ele e para a mãe dele o que havia acontecido. Ela se sentou pálida:
- Então já é tarde. Está para começar a qualquer instante.
Abri a boca para perguntar o que. Mas não o fiz, sabia qual seria a resposta, e alguns minutos depois veio a confirmação: a primeira de milhares de bolas de fogo caiu do céu e destruiu a casa do vizinho.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

variação

Mais um. Era conhecido como número 14, um irmão. Participava das discussões, prevenia sobre desvios de conduta, estabelecia normas, acreditava. Tinha conhecimentos sobre os costumes antigos de nosso povo, sabia bons conselhos para dinamizar a mudança. Era um dos poucos confiáveis, se é que essa noção ainda era válida [no momento não acredito que fosse possível, mas... muitos são os que caracterizam suas alucinações individuais como verdades absolutas]. Isolado percebi minha doença, curei-me dela e, consciente, morro pela cura.
Chovia, confrontei Saloth Sar, o número um, expus algo, não sei o que, alguma insanidade, não havia mais lucidez, hoje percebo. Reuniões insanas, éramos comunistas? Éramos um partido? Representávamos quem? A morte. As mortes. Trágico demais? Antes fosse tragicômico. Não era, não foi, até onde estive presente. Vi corpos, ou melhor, transformei vidas em corpos: posso esclarecer, um exemplo banal, uma criança que seja, seu pai era suspeito de transgressão, cortei metade de um dedo antes de qualquer “oi”, meu sorriso era a introdução para a morte de... [lamento não saber o nome de todos que matei]; apenas gritos, choro e sangue; o pai também morreu; a mãe, estuprada e morta. Eu sorria, satisfeito.
Muitos foram os que torturei. Uma cova coletiva recebeu meu nome, orgulhei-me disso quando soube. A consciência da tortura, o conhecimento da tortura, o saber-fazer de desumanizar um semelhante: assumi isso como profissão, e com um sorriso, por algum tempo. A morte era minha constante, parte de minha vida, mas apenas como morte dos outros. Percebi minha parcela neste jogo de caminho certo, a vida para a morte, quando duvidei no momento de concordar. Ambição? Não sei, talvez estivesse cansado, questionei Saloth Sar, apontei para ele e gritei algum insulto leve. Estou em Tuol Sleng, ou S-21 para os mais íntimos [eu um deles, doce ironia], tenho meu espaço, pequeno, desconfortável e penso. Sim, ainda penso, agora penso, ainda sorrio, sorrio para mim mesmo, sou minha morte, sei o que me espera. Nada mais, tudo mais, estou morto, estou vivo, sei disso, espero, encaro o pouco de chão que me resta. Sorrio.



“III – Contra a obsessão da morte, os subterfúgios da esperança revelam-se tão ineficazes como os argumentos da razão: sua insignificância só faz exacerbar o apetite de morrer. Para triunfar sobre este apetite só há um único ‘método’: vivê-lo até o fim, sofrendo todas as suas delícias e tormentos, nada fazer para escamoteá-lo. Uma obsessão vivida até à saciedade anula-se em seus próprios excessos. De tanto insistir sobre o infinito da morte, o pensamento chega a gastá-lo, a nos enojar dele, negatividade demasiado plena que não poupa nada e que, mais do que comprometer e diminuir os prestígios da morte, desvela-nos a inanidade da vida.
Quem não se entregou às volúpias da angústia, quem não saboreou em pensamento os perigos da própria extinção nem degustou aniquilamentos cruéis e doces, não se curará jamais da obsessão da morte: será atormentado por ela, por haver-lhe resistido; enquanto quem, habituado a uma disciplina de horror, e meditando sua podridão, reduziu-se deliberadamente a cinzas, esse olhará para o passado da morte e ele próprio será apenas um ressuscitado que não pode mais viver. Seu ‘método’ o terá curado da vida e da morte.
Toda experiência capital é nefasta: as camadas da existência carecem de espessura; quem as escava, arqueólogo do coração e do ser, encontra-se, ao cabo de suas investigações, ante profundidades vazias. Em vão terá saudades do ornamento das aparências.
[...]”.
Emil Cioran, trecho de “Variações sobre a morte”, tradução de José Thomaz Brum.

sábado, 1 de maio de 2010

Variação: Realidade/Sonho - Estágio 1: Fuga

Abriu os olhos, estava deitado na cama. As trevas o cercavam. Não via nem ouvia nada. Mas sentia uma presença no seu quarto. O pavor começou a subir a cabeça e, antes que tivesse tempo de raciocinar qualquer coisa, estava com o coração disparado, pulou da cama e se dirigiu até a porta. Tentava desesperadamente abri-la, mas não conseguia, por mais que tentasse. O estado de pânico estava no seu apogeu quando despertou e percebeu porque falhava. Tateou o que tinha a sua frente e confirmou, estava em frente a janela do seu quarto.
Começou a se acalmar e, no lugar de pânico, um sentimento de confusão começava a preencher sua alma. Se sentou na cama. Levou a mão até o interruptor e acendeu a luz. Olhou em torno. Estava no seu quarto, sozinho. Olhou da porta para a janela e para a porta de novo. No seu sonho, ele estava num quarto igual o seu, mas espelhado, por isso a confusão. Ao pensar isso , entendeu o ocorrido. Tinha agido num estado do sonambulismo e acordado enquanto tentava fugir. Mas fugir do que? Fugir das trevas? Fugir da solidão?
Se levantou, foi até a janela e a abriu. Olhou a distância que o separava do chão e se perguntou: "O que teria ocorrido se, durante meu sonho, eu tivesse conseguido abri-la?".

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Variação: Um sonho, Iron Maiden e uma visão do céu

Há sempre um lugar no espaço e no tempo para as coisas acontecerem. E, como diria um sábio mestre, sempre existe aquela necessidade de procurarmos aquele momento entrenhado nas correntes do espaço-tempo em que colocaremos o dedo e diremos: "Foi aqui que tudo começou". E tudo começou com uma chama no céu. Bela. Até sumir na eternidade.

Entrou no bar. Precisava beber algo, sua vida clamava por isso. Estava acabado. Sentou no balcão e pediu uma dose de Whisky. Sabia que era caro, mas não se importava com o preço, não naquela noite. O atendente lhe deu uma dose bem servida, copo cheio, embora a maior parte fosse gelo. Pegou o copo e sentiu o aroma. O cheiro de carvalho invadiu suas narinas e sua garganta pediu um gole. Sentiu o líquido vibrar pela garganta como uma paixão que nunca sentiu de qualquer mulher. Colocou o copo na mesa. O gelo derretia, revelando as várias misturas, num espetáculo dançante. Deu um suspiro. Outra vez levou o copo até a boca e parou, sentiu o aroma e outro gole, apreciando cada camada. Nisso o silêncio se dissipou.

Pesosas riam e bebiam no lugar. Conversavam sobre qualquer coisa, assim como qualquer coisa era motivo de risada. Mas ele permanecia ali. Até que sentaram do seu lado. Um conhecido, amigo de bebida nos antigos tempo. Mas fazia tempo que não o via. Começaram a conversar. Ficou sabendo que ele tinha começado a namorar o amor da vida dele e estava feliz por isso. Tinham sido vários anos de insistência. Anos em que namorou várias. Propôs um brinde a isso. Brindaram. E, outra vez, levou o Whisky a boca e degustou como se não houvesse amanhã. E talvez não haveria.

Quando sua dose acabou pediu outra. O atendente lhe olhou com um sorriso e dizia que lhe faria uma especial da casa. Não ligou. Estava seguindo a inércia da vida naquele momento. Pegou a dose, que possuia a mesma cor dourada. Cheirou. Dessa vez havia um cheiro adocicado no meio. Deu um gole e identificou o sabor de mel na bebida. Por que não reclamou antes? Preferia o gosto puro. Mesmo assim bebeu. E logo constatou que era melhor do que imaginava. Mas a terceira dose fez questão de enfatizar a palavra "Puro". O atendente não pareceu gostar muito. Mas não ligou. Queria o gosto da paixão na sua garganta. A paixão vibrante que somente um Whisky puro pode oferecer. Adocicar com mel era arruinar isso! Não era uma menininha! O que mais iriam querer dele? Um carro com câmbio automático?! Bah! Queria aquele momento só dele, como uma chama que brilha mais forte antes de se apagar. Um momento egoísta! Cada gole era dele e só ele podia aproveitar! Não era essa a beleza de beber um Whisky? Cada pessoa aproveita camadas diferentes! Cada gole é um novo sabor descoberto! E não é só o saber no paladar, não! Começa com a visão! A visão da bebida, o prazer daquela cor dourada, das várias misturas surgindo com o derreter do gelo. Em seguida vem o olfato, os aromas. O prazer! Em seguida o paladar, aquele gole com apreciação das várias camadas de sabor, e o gosto que fica na boca depois. Aquele gosto que te diz: "Mais um gole. Mais um gole." Essa explosão! Seu corpo tremia, explodindo em prazeres!

Colocou o copo na mesa. Se sentia pronto. Pagou a conta, se levantou e saiu do bar. Olhou para o céu escuro. Deu um suspiro. Colocou as mãos no bolso do casaco e começou a andar.

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http://www.youtube.com/watch?v=u5UqJWRV55E

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Variação: Caetano, José Antonio e sangue a escorrer e alguma música

Começou aos poucos, mas quando dei por mim a situação já era grave. Sussurros distantes de início, hoje são gritos que parecem querer estourar minha cabeça para escapar ao mundo: incompreensíveis, em um primeiro momento. Escutei essas vozes com muita preocupação durante um longo tempo, hoje não me importo mais com isso, nem com nada, contudo, desejo dar testemunho de alguns acontecimentos prosaicos de tempos em que eu ainda preocupava-me, tenho que aproveitar enquanto ainda possuo fôlego e gastá-lo na esperança de morrer de estafa de tanto falar ou pensar, mesmo que para isso eu perca toda articulação da fala ou do pensamento, pois preciso de uma solução final que sobressaia ao ato final, pois a ação foi-me negada, várias vezes, pois minha escolha não é mais minha, pois se nada der certo espero perder-me.

*

Era dia de folga. Acordei mais tarde do que o normal e fui comprar um jornal, deixei o café da manhã para ser suprido pelo almoço. Nesse dia comecei a ouvir sussurros que pareciam expandir com leveza do fundo, seja lá onde este fique, da minha cabeça. Passavam despercebidos, caso eu desejasse, e até proporcionavam algum prazer contemplativo enquanto eu ficava deitado em minha cama a observar a imobilidade constante do teto e pensar em qualquer coisa que agora não mais rememoro.

Nos primeiros dias de volta ao trabalho com essa condição patológica – não sei se essa a melhor definição, espero explicar porque até o fim deste relato – não tive problemas, nem no relacionamento com os colegas do escritório – trabalhava em um escritório de contabilidade –, nem no rendimento do trabalho. Apenas dia a dia as vozes preenchiam cada vez com mais presença o meu ser e eu continuava sem compreender significado algum em sua progressiva balbúrdia.

Consultei um psicólogo recomendado pelo meu chefe após ter-lhe explicado minha situação. Stress: esse foi o diagnóstico. Ganhei uma dispensa de três dias do trabalho. O chefe sorriu, o psicólogo sorriu, eu ensaiei um sorriso, mas não consegui pari-lo. Fiquei em casa no primeiro dia. Coloquei fones de ouvido e tentei ouvir música, tentei ler um livro, tentei assistir televisão, tentei dormir. As vozes mantinham presença constante, pareciam conversar em idiomas desconhecidos para mim e mesmo assim não conseguia parar de atentar para elas. Segundo dia. Saí. Simplesmente saí. Andei e andei, sem mais. Não recordo mais quanto nem por onde. Apenas eu e as vozes, o mundo ao largo, impassível, estéril, mas pretensamente cheio de vida. Não sei onde dormi, ou se consegui dormir. Terceiro dia. Estava em um sanatório e descobri ao indagar o médico diretor do estabelecimento que eu havia chegado lá durante a madrugada, requisitado auto-internação e entrado em estado de histeria ao tentar explicar os motivos: fui sedado e assim fiquei durante umas boas doze horas ininterruptas até o momento em que despertei e fui descobrir onde eu e meus milhares de conversadores incógnitos estávamos. Aceitei os termos da situação. Aproveitei para realizar alguns perfis dos internos presentes no estabelecimento, com a ajuda das vozes, e penso ser interessante relatar o resultado final desse escrutínio, a meu ver, tão bem embasado.

Primeiro enfermeiro: insensato, comia formigas quando criança, possuía, em seus sonhos, a irmã que nunca teve, vestia branco, mancava levemente com o braço esquerdo ao andar de ponta cabeça, poucas palavras, não era carinhoso nem rude.

Segundo enfermeiro: olhos pareciam bolas de gude verdes e causavam uma ótima impressão com seu bigode que, ao sol, parecia brilhar com um azulado fosco, causava-me grande impressão tal aparente contradição, gostava de jogar cartas, vestia branco, sorria para mim, desgostava-se, era um pai exemplar.

Primeira enfermeira: sorriso moderado, boa-fé, algum descaso vez ou outra, conversava comigo quase todo dia, amava sua mãe e cuidava dela com muito carinho, quando esta morreu ficou triste por dias, manejava injeções como ninguém e adorava o barulho da chuva em dias quentes, vestia branco.

Médico chefe: austero, boa-pinta, sapiente e levemente intransigente, gostava de jogar bafo nos intervalos da escola primária e até hoje guarda com carinho suas memórias de infância, vestia branco, lia muito, romances, poesias e artigos científicos, confidenciava comigo assuntos variados quando íamos para o banho de sol.

Havia ainda outros personagens peculiares dos quais não consigo encontrar o resultado de nossas observações. A equipe da qual eu fazia parte – se esqueci de mencionar antes, desculpe-me, montei um grupo de pesquisa já no segundo dia de estadia no sanatório: somados éramos em torno de trinta: eu, oito catatônicos, onze considerados dementes genéricos, seis com distúrbios constantes de personalidade, quatro senhores idosos abandonados por seus familiares e mais a multidão de milhares em minha mente – tinha o intuito nobre de elaborar um diagnóstico preciso dos indivíduos tão problemáticos, coitados, que pensavam estar tratando de nós. O resultado foi ótimo, apesar das reuniões geralmente não serem realizadas com todos os membros da equipe e, ocasionalmente, serem presenciadas por algum enfermeiro(a) ou visitante. Acabado o trabalho, agradeci todos meus colegas de pesquisa e informei com total certeza meu interesse de abandonar o sanatório ao médico chefe. Após duas semanas recebi permissão para sair do recinto. E assim saí. Mesmo. São, com o sentimento de trabalho realizado com sucesso e satisfiz, pensei naquele momento, as companhias que vociferavam na minha cuca.

*

Contudo, o tempo continuou passando e passando. Não sei onde estou e o barulho é tanto na minha cabeça que já não sei bem: penso compreender o que se passa aqui dentro de mim. Mas não consigo mais compreender o que se passa fora de mim: o mundo e suas personagens, seus atos, suas construções, suas palavras, seus desejos, agora, não possuem significado algum. Se ao menos pudesse expor minhas vozes para todos, mas não posso, são só minhas, elas dizem. Como comecei dizendo: falo e penso, falo e penso, só comigo e com muitos em mim mesmo. Tentei diversas vezes expandir-me ao mundo: verti o sangue de diversas partes do meu corpo, diversas vezes: toda vez que sentia minha consciência esvaindo, o sangue começava a refluir e quando eu me dava conta as feridas estavam fechadas. Minha vida prolonga-se, por mais que eu intente contra. Enquanto isso, todos os outros parecem estar definhando. Mantenho monólogos com todas as vozes, agressivas ou pacíficas, retumbantes em minha cabeça e tento desaparecer em mim e vejo o mundo desaparecer em todos e todos desaparecem, espero. Espero e espero e não desejo achar coisa alguma a não ser um lugar para perder-me em definitivo enquanto falo e penso, falo e penso e o mundo desmorona.



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breve pós-escrito: recomendo ouvirem as composições presentes no álbum "actios", conduzidas e executadas por krzysztof penderecki e don cherry e outros vários músicos. infelizmente não encontrei uma amostra no youtube para disponibilizar. caso tenham interesse podem encontrar com alguma facilidade em outros blog e afins.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Variação: Confessions of a Dangerous Mind

Mas que coisa fácil, havia pensado, dias atrás, quando se inscreveu para o programa. Era um programa novo. Mas o prêmio era bom: Uma geladeira nova! Daquelas que se vê nos comerciais, com as pessoas sorridentes. Mal podia esperar para mostrar para a familía. Iria uni-los como nunca. E tudo que precisava fazer era ir no nesse programa e contar suas realizações na vida.

Agora estava sentado em frente as câmeras. O apresentador era gente boa, antes de levá-lo para o palco disse que se não quisesse participar tudo bem. Mas por que não iria? Uma geladeira nova! Família sorrindo! Que nem naqueles comerciais. A que tinha em casa era pequena. Ficava tudo apertado. Mas com a nova seria diferente. A familía sorriria com as coisas mais separadas! Mal podia esperar.

Tinha mais dois caras ali. Conversou com eles um pouco antes de entrar no palco, não muito: não era uma boa estratégia. Eram seus concorrentes. No final, só um deles levaria a geladeira nova.

O programa era ao vivo. Tudo ocorrera bem no primeiro bloco. Só tivera que falar um pouco quem era, fazer uma conversa com o apresentador, os outros dois caras. Só para enturmar o público. O desafio viria depois. Mal podia esperar. Até suava um pouco.

Logo estava lá. Sozinho. Só as cameras, a platéia e o apresentador olhando para ele. Ninguém ousava interferir. Olhavam sério a cada palavra que dizia. Contava sobre sua vida, ia recuperando memórias esquecidas e colocando-as na história. Olhavam para ele, um olhar profundo e silencioso. Contava sobre a família, a mulher, os filhos. As trevas pareciam encobrir tudo naquele espaço, será que reduziam a iluminação? Sobre o emprego. Ou era impressão? Colocava os sentimentos em cada palavra, queria a geladeira. Os olhares, o poder dos olhares, sérios. Dizia dos seus planos de jovem. Suava, as mãos tremiam, os olhares no fundo de sua alma. Suas conquistas. A geladeira. Pegou a arma em cima da mesa e disparou.

Perdeu a geladeira e os sorrisos da família. Trocou-os pela vida, que se esvaia no sangue rubro escorrendo pelo palco.

"I came up with a new game show idea recently. It´s called 'The Old Game'. You got three old guys with loaded guns onstage. They look back at their lives, see who they were, what they accomplished, how close they came to realizing their dreams. The winner... is the one who doesn´t blow his brains out. He gets a refrigerator.'
Confessions of a Dangerous Mind.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Variação: Agrippino de Paula e Derrida

O Deus de Leibniz não conhecia a angústia da escolha entre possíveis. Eu sentia-me inteligente e maroto. Maroto, mas não em atos pensava as minhas possibilidades. Meu Logos não dispunha minhas possibilidades em atos sem antes passar pela angústia da escolha. Saí da casa do Coveiro. O Coveiro não queria discutir metafísica no meio do carteado. “A vacância é a situação da literatura”, disse-me a Puta Amiga na última vez que brinquei com ela. Corri para a casa da Puta Amiga querendo brincar. Eu, Puta Amiga e meu membro rijo rolando pela noite era o meu projeto. Entrei afoito na casa da Puta Amiga e corri para o seu vestíbulo. Puta Amiga lânguida e nua olhou-me, mas já estava acompanhada pelo Empresário. O Empresário investia seu membro rijo em vários orifícios da Puta Amiga em uma confusão de esperma, gemidos e corpos. Corpos de crianças esquartejadas povoavam o vestíbulo. Corri com meu membro rijo para o Rio. O Rio corria suave e brumoso e suas margens agradavam-me e suas águas fediam enquanto iam para o Grande Mar. Gozo um rio de esperma no grande Rio. Meu esperma torna-se o fluxo líquido do Rio e vai tórrido fecundar o Grande Mar. Não quero imaginar as proles da minha insensatez. Filhos insensatos, gerados do meu líquido viscoso do meu sólido ser, repugno-os. Subo no bonde agarrando sua rabiola e vou para o Centro. Entro no bar para encontrar meu nada e minha consciência e seu pathos e encontro o Garçom Inconstante que sorri para mim trazendo garrafas e mais garrafas de uísque sem rótulo. O uísque evapora na minha corrente sanguínea enquanto converso com o Garçom Inconstante sobre o lugar da linguagem, das palavras individuais e da escritura e da empiria e das impossibilidades do ser em si. O Garçom Inconstante concorda, discorda, esbraveja, tudo somente com gestos burlescos ao mesmo tempo em que quebra as garrafas vazias do uísque sem rótulo. Sorrimos, eu e o Garçom Inconstante, e corremos pelos prados verdejantes após sairmos pelas portas do fundo do bar. Já é outro dia e sinto náuseas e o Garçom Inconstante fugiu. Vomito os acontecimentos do dia anterior na terra virgem e vejo todas minhas escolhas angustiadas adentrarem na terra virgem fertilizando-a. Deito nessa bela paisagem idílica do meu vômito na terra virgem e durmo um sono de vigília, com os olhos abertos esperando o pior de mim e de tudo.

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“[...] Eu estava salvo, entrei em casa, acendi a luz do quarto e sentei extenuado na cadeira frente à mesa. Eu respirei fundo alguns instantes tentando recuperar o fôlego, e ouvi um barulho no quintal e saí. Um grande número de macacos desenhavam caretas nas paredes. Eu gritei irritado com os macacos e corri perseguindo um deles, quando apareceu um senhor redondo e gordo de calças curtas dizendo que ele era o chefe dos macacos. Eu falei irritado com o imenso gordo de calças curtas e boné, e disse que os macacos estavam desenhando nas paredes. O imenso gordo de calças curtas puxou um apito do bolso e apitou. Os macacos saltaram dos telhados e das árvores e eu vi as caretas desenhadas nas paredes Eu interrompi o gordo de calças curtas que repreendia os macacos e disse que estavam ótimos os desenhos, e que a careta desenhada na porta ficava muito bem, e que ele comandasse para os macacos que continuassem a desenhar nas paredes, portas e janelas. Eu saí na rua acompanhado de um dos macacos e um indigente bêbedo se colocou na minha frente. O bêbedo se colocou na minha frente. O bêbedo pretendia conversar comigo e com o macaco e eu procurava atravessar para o outro lado da rua. O indigente continuava insistindo, e nós dois estávamos irritados e deprimidos com a conversa do bêbedo. Eu e o macaco paramos frente a uma barbearia, e eu entrei na barbearia para escapar da conversa insistente do bêbedo que procurava convencer o macaco, que o ouvia atentamente, de alguma coisa a respeito da política internacional [...]”.
José Agrippino de Paula. PanAmérica. São Paulo: Max Limonad, 1988 [1967], pp. 124-5.


“Consciência de ter algo a dizer como consciência de nada, consciência que não é a mendiga mas a oprimida do todo. Consciência de nada a partir da qual toda a consciência de alguma coisa pode enriquecer-se, ganhar sentido e figura. E surgir toda a palavra. Pois o pensamento da coisa como o que ela é confunde-se já com a experiência da pura palavra; e esta com a experiência em si. [...] Se a angústia da escritura não é, não deve ser um pathos determinado, é porque não é essencialmente uma modificação ou um afeto empírico do escritor, mas a responsabilidade desta angústia, dessa passagem necessariamente estreita da palavra na qual as significações possíveis se empurram e mutuamente se detêm [...] Falar mete-me medo porque, nunca dizendo o suficiente, sempre digo também demasiado. E se a necessidade de se tornar sopro ou palavra aperta o sentido – e a nossa responsabilidade do sentido – a escritura aperta e constrange ainda mais a palavra. [...] Angústia também de um sopro que se detém a si próprio para entrar de novo em si, para se aspirar e voltar à sua fonte primeira. Porque falar é saber que o pensamento deve tornar-se estranho a si próprio para ser dito e exposto. Então pretende, ao dar-se, reapossar-se de si. [...]”.
Jacques Derrida. “Força e significação” in: A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva, 2005 [1967], pp. 20-1 e nota 18.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Variação: Post anterior, Nietzsche, Metallica

Faço uma brincadeira, mas sem a genialidade de idéias e escrita do nosso amado rcma.

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Acordou. Tivera um sonho estranho, ou seria um pesadelo? Nele estava bem mais velho, sem parte de seus cabelos e com certa barriguinha. Tinha dois amáveis filhos e uma esposa. Não entendia o porquê, tal visão deveria ser feliz, mas havia algo de sombrio nela, não compreendia o quê. Deitou-se novamente, mas, mal se re-aconchegou na cama e o despertador começou a tocar. Eram sete horas. Precisava ir para o escritório. Deu uma bufada. Mas era sexta. E toda sexta rolava um barzinho depois do expediente.

Tudo transcorrera como sempre e teria sido um dia tão normal como qualquer outro. Mas, no bar, algo estava diferente, a secretária do chefe havia finalmente aceito ir com o pessoal. Era bonita e tinham aproximadamente a mesma idade. Olhava para ela enquanto tomava sua cerveja, nunca haviam conversado, a não ser algum cumprimento ou outro. Divagava como seria sua vida com ela: já imaginava a cara de seus amigos ao vê-lo com tal beleza; os lugares aonde a levaria,... De repente se lembrou do sonho. Não completamente. Mas tudo isso deixou de fazer importância quando a viu sorrindo. Sorria para ele. Mandou todos seus pensamentos pro inferno e decidiu ir para o lado dela.

Acordou. Tivera um sonho estranho. Nele havia dormido com a secretária do chefe. Virou-se na cama e sentiu algo. Não fora um sonho. Ela estava ali, do seu lado, perfeita, podia sentir seu leve perfume, o calor do seu corpo. Sorriu como nunca. Saiu da cama com cuidado e foi até o banheiro. Lembrou-se que, alguém, em algum lugar havia escrito: “As coisas simplesmente acontecem, porra!”. E riu alto.

Logo teriam gêmeos. Ele havia sido promovido. Achava que seu salário podia sustentar a família. Decidiram que ela ficaria em casa para cuidar das crianças. Não era mais a mesma deusa de anos atrás, mas ele também havia mudado. Evitava cortar o cabelo muito curto para esconder as entradas. Também não tinha mais aquele físico de antes. Não se importava. Pensavam no futuro dos filhos.

Acordou, tivera um sonho estranho. Mas nem teve tempo de refleti-lo. Precisava levar os moleques na escola antes de ir para mais um dia de trabalho. A mulher nem estava mais cama, já havia levantado, preparar o café-da-manhã. Olhou-se no espelho enquanto se arrumava. Já não era mais o mesmo. Estava completamente mudado.

Chegou ao trabalho, cumprimentou a secretária do chefe. Ela lhe retribuiu com uma risadinha que o teria deixado excitado anos atrás. Trabalhou. Observou pela porta entreaberta do escritório enquanto um dos novos estagiários conversava alegremente com a secretária e pensou no passado. Trabalhou. O que havia feito da vida? Trabalhou. Quem era ele? Trabalhou. Vivia ainda? Trabalhou. Gastou oito horas do seu dia. Tudo mecanicamente. Viu a secretária indo embora. Deu-lhe um sorriso. Ela retribuiu. Mas precisava saber quem era. Essa noite. Estava decidido. Não voltaria para casa. Precisava de alguma verdade nessa falsidade. Fechou a porta e saiu. Dentro do escritório escuro, a ausência continuava a se expandir, infinitamente.

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"[...] Nosso destino dispõe de nós, mesmo quando ainda não o conhecemos; é o futuro que dita as regras do nosso hoje."
Nietzche, Friedrich. Humano, Demasiado Humano. SP, Companhia de Bolso, p.13.


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"Careful what you wish

Careful what you say

Careful what you wish

You may regret it"

Metallica - King Nothing


http://www.youtube.com/watch?v=gq9iCBUxeJE&feature=fvst





Variação: Sartre e The Birthday Party

Mais uma brincadeira. Trecho, música e aquilo que escrevo dessa vez não são tão (ão ão ão, eco, eco) aleatórios. Descontextualizados, com certeza. Mas a vida é algo fora de contexto, então, tudo ok.

Caso alguém queira esclarecimentos ou insultar-me gratuitamente [ou não gratuitamente, vai saber], manifeste-se nos comentários. Caso tenha alguma proposta mais pessoal, peça meu cartão ou mande-me um email.

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“Hoje foi um ótimo dia. Sexta-feira mais agradável da minha vida: após o trabalho fui com os colegas do escritório para um bar e ficamos conversando por um bom tempo. Pude conhecer melhor a secretária do meu chefe... tanto tempo que eu queria conversar com ela, finalmente criei coragem. Poderemos ser bons amigos, espero. Ou quem sabe algo mais... acho que gosto dela [...]”.

Dez anos se passaram desde que escrevi essas palavras nesse caderno. Por que fui tirar a poeira disso? Hoje, sexta-feira, sete horas da manhã, quase na hora de ir para o escritório, e eu a encarar palavras vazias. Hoje, eu, casado, dois filhos, trabalho ainda no mesmo lugar. A secretária do chefe mudou: a do diário é agora minha esposa, largou o serviço para cuidar dos gêmeos e ajuda no orçamento como pode, vende bijuterias. Eu também mudei, e muito.

Foram-se os cabelos, boa parte. Desapareceu a paciência. Não mais tenho ereções. Não olho nos olhos de minha esposa, mas ainda beijo-lhe a testa. Vejo meu vazio refletido em meus filhos.

No serviço a nova secretária está cheia de gracejos para comigo: disse no meu ouvido que gosta de pais de família e que também gostaria de mostrar-me seus dotes, saiu sorrindo e rebolando. Nenhuma parte de mim manifestou-se.

Trabalho “minhas” oito horas com a dignidade de um inseto.

Estou decidido: não volto para casa após o serviço. Preciso de confirmações, saber se estou morto, ou moribundo a vagar pelo mundo a ser força de trabalho e criar descendentes e “ser feliz” e... quanto mais penso, mais obrigações, mais objetivos, mais justificativas para a vida surgem, e tudo isso está tão opaco, soa-me tão falso.

Mantenho minha decisão: tomo caminhos estranhos e tento me perder pela cidade, paro em alguns bares e bebo alguns tragos. Quase meia-noite e jogo meu relógio o mais longe que posso. Entro em uma boate, ou sei lá o que... é tudo tão iluminado e há pessoas semi-nuas e nuas dançando, homens, mulheres, homens-mulheres, mulheres-homens, não consigo definir muito bem, minha vista está embaçada, estou embaciado. Sento-me e alguém dança à minha frente: consigo discernir, acho, um rapaz movimentando-se, encarnação da libido: suas pernas ao ar, simetricamente trançando-se pelo poste: letargia e hipnose: pênis ereto e o rapazola sorri para mim em confidência: as três pernas dele dançam mais um pouco enquanto afogo-me com meu resquício de consciência.

Acordo nu em um quarto sujo. Sinto-me bem, pois não sinto nada. Transcendi o vazio. Em algum lugar alguém pode estar me esperando, mas eu não espero mais nada de mim, desapareci, ou melhor, todo o resto do mundo desapareceu. Sorrio.

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“Sentia-me cansado e superexcitado ao mesmo tempo. Não queria pensar no que ia acontecer de madrugada, na morte. Aquilo não tinha sentido, não encontrava senão palavras, um vazio. Desde, porém, que começava a pensar em outra coisa, via canos de fuzis apontados para mim. Vivi talvez umas vinte vezes seguidas a minha execução; numa delas cheguei mesmo a pensar que o fuzilamento tinha ocorrido; devia ter dormido um minuto. Eles me carregavam para o muro enquanto me debatia; pedia-lhes perdão. Acordei em sobressalto e olhei o belga; tinha medo de ter gritado durante o sono. Ele, porém, alisava o bigode e não notara nada. Creio que me esforçando teria dormido um pouco; havia quarenta e oito horas que estava em claro e me sentia esgotado. Mas não tinha vontade de perder duas horas de vida; viriam acordar-me de madrugada, segui-los-ia tonto de sono e estrebucharia sem um ai; não queria morrer como um animal, queria compreender. Além disso tinha medo de ter pesadelos. Levantei-me andei de um lado para o outro e, para afastar aquelas idéias, comecei a pensar no passado. Uma onda de lembranças surgiu em confusão. Havia-as boas e más – ou pelo menos eu as considerava assim antes. Via rostos e fatos. Revi a fisionomia de um toureiro que havia sido morto nos cornos de um touro em Valença durante a Feira, o rosto de um de meus tios, e o de Ramón Gris. Lembrei-me de alguns episódios: como passei quando estive desempregado durante três meses em 1926, como escapei de morrer de fome. Recordei-me de uma noite passada sobre um banco, em Granada; havia três dias que não me alimentava, sentia-me enraivecido e não queria morrer. Aquilo me fez sorrir. Com que ansiedade eu corria atrás da felicidade, atrás das mulheres, atrás da liberdade... A troco de quê? Tinha querido libertar a Espanha, admirava Pi y Margall, aderira ao movimento anarquista, discursava em comícios: levava tudo a sério, como se fosse imortal.

Nesse momento tive a impressão de sentir toda a minha vida à minha frente e pensei: ‘É uma grande mentira’. Não valia nada, pois havia acabado. Perguntei-me como tinha conseguido passear, divertir-me com mulheres; não teria mexido um dedo se houvesse imaginado que iria acabar desse jeito. Tinha minha vida diante de mim, fechada como um saco e entretanto tudo quanto estava lá dentro continuava inacabado. Tentei, num momento, julgá-la. Quisera dizer – foi uma bela vida. Mas não se podia fazer um julgamento, pois ela era apenas um esboço; havia passado o tempo todo a fazer castelos para a eternidade, não compreendera nada. Não tinha saudades de nada; havia uma porção de coisas das quais poderia sentir saudades, do gosto da manzanilla, dos banhos que tomava no verão numa enseadinha de Cádiz; a morte, porém, roubara o encanto de tudo”. [1]

Música: Nick the stripper, por The Birthday Party

"insect insect insect insect incest insect incest insect

Nick The Stripper
a-hideous to the eye
a-hideous to the eye
well he's a fat little insect
a fat little insect
a fat little insect
a fat little insect
and ooooooooh! here we go again

Nick The Stripper
a-dances on all fours
a-dances on all fours
he's in his birthday suit
he's in his birthday suit
he's in his birthday suit
he's in his birthday suit
and ooooooooh! a-here we go again

Nick The Stripper
a-hideous to the eye
a-hideous to the eye
well he's a fat little insect
a fat little insect
a fat little insect
a fat little insect
and ooooooooh! here we go again

well he's a fat little insect
a fat little insect
a fat little insect
a fat little insect
he's in his birthday suit
he's in his birthday suit
he's in his birthday suit
he's in his birthday suit

insect insect insect insect"



[1] Sartre, Jean-Paul. "O muro" In: O Muro [1939]. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965, pp. 21-2.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Variação aleatória inicial: Céline

Não estruturei trecho e escrita própria. Não proponho manifesto. Cito a cama quentinha, o que já basta.

Obs: o tempo gerou uma ambigüidade, mantida pela minha preguiça.

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Bernardo precisava sentir algo que lhe pertencesse. Há dias não aturava sua própria presença, menos ainda a minha, seu irmão, morto na Primeira Guerra – uma medalha e um resto de farda queimada, únicas lembranças materiais restantes, guardadas em uma gaveta, a dialogar com a poeira – memória presente assombrando todas suas madrugadas insones. O corredor escuro servia como passarela para o desfile do tempo, e ele caminhava noite adentro, vai e volta, vai e volta, até a estafa aniquilar sua vontade e o chão frio tornar-se o refúgio para a espera do pôr-do-sol. Chego e sento-me ao seu lado:

─ ...

Lábios movem-se, não há som. Encaro meu velho conhecido: hoje estou decidido; recuperarei algo. Preciso. Não posso esperar o sol. Não posso agüentar essa solidão com um fantasma morto por um obus.

Bernardo levanta-se com esforço e caminha com dificuldade até seu quarto. Nada pode ajudá-lo; só paliativos, breves instantes de consciência tranqüila antes do fim. Abre uma gaveta, atira uma medalha contra mim, o som dela batendo na parede ecoa por momentos longos demais. Resigno-me e olho fixamente para frente, aprecio a dissolução do tempo.

Ainda sobraram na gaveta um traste de pano queimado e uma velha faca artesanal, herança da família. O morto, eu e uma faca; o que poderia ser mais propício? Algo meu, recuperarei.

Ainda antes do sol nascer, antes de que eu desaparece por hoje, pude ver Bernardo colocar sua mão sobre o armarinho e cortar lentamente seu dedo indicador, sem gritos nem lágrimas, apenas com um sorriso sincero dirigido à mim, satisfeito consigo mesmo. Passou por dentro de mim, sangue escorria pelo seu caminho tortuoso até sua cama quentinha: dormiria, após muito tempo.

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“Ainda assim, o homem conseguiu desembuchar alguma coisa de articulado:
─ O segundo-sargento Barousse acaba de ser morto, coronel ─ disse de um só fôlego.
─ E daí?
─ Ele morreu indo buscar o furgão de pão na estrada das Etrapes, coronel!
─ E daí?
─ Um obus o estraçalhou!
─ E daí, Deus do céu!
─ E é isso! Coronel...
─ Só isso?
─ É, só isso, coronel.
─ E o pão? ─ perguntou o coronel.
[...]”. [1]

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[1] Céline, Louis Ferdinand. Viagem ao fim da noite [1932]. São Paulo: Cia das Letras, 1994.