segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Lost Highway [1997] - v0.5a



Nota explicativa sobre o v.05a: Faz tempo que não escrevo, por isso dar vida a esse texto foi um parto. Não estou com vontade de revisá-lo tão cedo, mas não estou com vontade de deixá-lo não publicado, por isso posto aqui assim mesmo. Algum dia capaz que eu o revise.

Nota 2: CONTÉM SPOILERS.





O filme apresenta uma narrativa não linear e não confiável, ou seja, não sabemos até que ponto o que vemos é o que realmente aconteceu ou imaginação do personagem principal. Acredito que o próprio filme nos dá uma chave para interpretá-lo na conversa entre Fred, Renee e os dois detetives depois de receberem as fitas misteriosas. Nela, Fred diz odiar câmeras porque gosta de lembrar das coisas do seu jeito, que não é necessariamente a maneira como elas aconteceram. Isso nos leva a pensar que o filme, é então, essa visão subjetiva que Fred tem sobre os últimos acontecimentos dramáticos de sua vida, que seriam o possível assassinato do amante de sua mulher e de sua mulher. Enquanto o personagem de sua mulher é bem real, é dificil saber se Dick Laurent realmente era amante de sua mulher, ou se isso é só uma criação da mente de Fred. Talvez seja irrelevante a questão se Dick Laurent como amante é real ou uma invenção, o que importa é esse caráter obsessivo do personagem principal de acreditar que ele seja.
Ao longo do começo do filme, nós somos inseridos na obsessão e superficialidade da vida do personagem principal. Ela é criada pelas cenas do rosto do personagem, que parece estar sempre refletindo sobre algo, que provavelmente seria sobre sua esposa, o único sentido e preocupação na vida do personagem principal. O ambiente ajuda a criar essa sensaçao, pois no começo do filme, temos uma casa espaçosa para os dois personagens, o que nos deixa sempre com uma sensação de vazio; existe um excesso de iluminação artificial e sombras [Imagem 1], que ajuda a criar esse clima depressivo; e, por fim, não há trilha sonora, só silêncio e sons ambientes. Assim, Lynch cria pelo cenário e som, uma sensação de vazio, que é própria de Fred, um personagem que nos parece apático, passivo, superficial, sem um propósito de existência. Na sua vida, sua grande sombra é Renee, a qual ele não consegue penetrar, não consegue descobrir quem ela é, o que ela deseja. Nem nós temos qualquer pista, sobre qualquer coisa dela.
Uma cena interessante sobre esse mistério de Renee é quando Fred está no bar e liga para ela depois do seu show. Ela não atende o telefone. Lynch intercala nesse momento cenas de Fred fazendo a ligação com cenas da casa vazia e o som do telefone tocando. É difícil saber se as cenas da casa são reais ou subjetivas, ou seja, se é ou não imaginação de Fred porque Renee não atende. Quando ele retorna, ela está dormindo, o que realça essa dúvida, se ela realmente sempre esteve em casa ou não.
Após sua obsessão chegar ao limite e Fred matar Renee, somos introduzidos a um novo personagem, Peter, que é completamente diferente de Fred. Ele é um personagem vivo, cheio de energia, romantizado até. Uma de suas primeiras cenas é ele, numa cadeira de praia no quintal de sua casa, tocando uma música de Tom Jobim no fundo [Imagem 2]. Tudo nisso contrasta com o cenário de Fred. Isso nos preenche de uma maneira bem diferente, não existem vazios ou silêncio. Mas em alguns momentos, Peter está inserido nas sombras também, momentos em que ele se questiona sobre como foi parar na prisão, ou sobre o ferimento seu surgiu em sua face, momentos que de certa maneira remetem a Fred. E é interessante a maneira como Lynch trabalha com as sombras. Elas são bem sólidas no filme, como se engolissem os personagens que entram nelas [Imagens 3 e 4]. Essa profundidade das sombras criam um tom de mistério e suspense em cima dos personagens.
Peter é um alter ego de Fred, provavelmente uma criação da mente do personagem para buscar respostas a perguntas que ele nunca conseguiu responder. No filme, temos uma cena depois que Peter mata Andy, em que ele é confrontado com Renee ou Alice, não temos como saber, e ela lhe pergunta se ele queria falar com ela, se ele queria perguntar por que. Isso retorna ao mistério de Renee. Peter, seria, então, parte de uma grande ilusão de Fred para buscar respostas que ele nunca obteve sobre suas dúvidas em relação a esposa. Por exemplo, no começo do filme, Renee fala sobre um emprego que Andy ofereceu para ela a muito tempo atras, mas não explica detalhes, pois supostamente esqueceu. Na história de Peter, Alice, o alter ego de Renee, fala sobre esse emprego que Andy ofereceu em detalhes, e cabe a Peter ser um herói e salvá-la da máfia pornográfica de Dick Laurent. Assim, a vida de Peter começa a ter uma energia e uma aventura que são completamente ausentes da vida de Fred. Essa mudança na parte visual da filmagem fica clara, como eu já disse, mas também no som, pois Lynch começa a usar trilha sonora. Assim, a obscuridade, o vazio e o silêncio praticamente somem no mundo de Peter, exceto por uma cena ou outra.
O grande mistério em torno de Peter é como ele e Fred trocam de lugar na prisão. Essa troca nunca existe na realidade, só no terreno da fantasia. Mas é interessante como por mais que Peter tente se lembrar ele não consegue, e também nem os pais deles nem a namorada nunca explicam o que aconteceu naquela noite, embora eles pareçam saber. Isso me remete a dois aspectos do sonho: o primeiro é o fato de um sonho não ter começo, e é assim que a história de Peter começa, de repente, e sem um começo claro, que seria o momento da troca; o segundo ponto, é aquele momento em um sonho em que você tenta lembrar de algo, algo que parece óbvio, mas simplesmente não consegue, e sua mente se rebela contra sua vontade consciente. O sonho só pode existir enquanto um fluxo em que você aceita a coerência interna. Tentar romper com esse fluxo provoca um estado de agonia, agonia que Peter sente sempre que se questiona sobre o assunto.
O fluxo do sonho se rompe também, quando Peter está próximo a realizar seu desejo, que é ter Alice. Mas nesse momento, ele é impossibilitado e ocorre o despertar. O momento em que ele volta a ser Fred. É nesse momento que Fred começa a ter ciência de novo de quem ele é e do que ele fez. É nesse momento que Fred relembra que nunca poderá ter Alice porque ela está morta, mas também se lembra de ter matado Dick Laurent. Após reviver o assassinato, ele retorna para avisar a si mesmo que Dick Laurent está morto. Eu interpreto essa cena como a memória dos acontecimentos de Fred, ou seja, uma história subjetiva, contada do ponto de vista da mente pertubarda dele. Assim, essa é a lembrança obscura e escondida no fundo do inconsciente do personagem. Na memória, as lembranças não precisam respeitar a ordem do espaço-tempo, o que permite termos passado e presente se alternando nas cenas e ter dois personagens como a mesma pessoa. A memória também seria algo fechado nela mesma, o que explicaria esse final ciclico. No começo do filme, Fred já matou Dick Laurent, mas não se lembra, porque foi outro alter-ego seu que provavelmente o fez, representado pelo Homem Misterioso (Robert Blake). Esse final é essa memória reprimida que insere o mistério no começo do filme. As fitas que o casal recebe na casa seriam representativos dessa obsessão oculta de Fred.
O que me interessa analisar um pouco agora é o personagem interpretado por Robert Blake, que chamei aqui de Homem Misterioso (tradução direta do inglês Mystery Man, que aparece nos créditos finais). Para mim ele seria outro alter ego de Fred. E é interessante a relação entre os três alter egos. Fred e Peter não podem existir simultaneamente. Enquanto um está presente o outro ausente e vice-versa. Mas o Mystery Man consegue existir em paralelo aos dois. Outra relação é que, assim como Peter odeia a música que Fred toca, mostrado numa cena na oficina, Fred odeia câmeras, como ele diz na cena com os detetives., e o Homem Misterioso é portador de uma, e provavelmente ele é o responsável pelos registros nas fitas no começo do filme. Ele, para mim, seria o fundo inconsciente de Fred, seus desejos, vontades e memórias mais obscuros. Ele seria o impulso violento que o levaria a matar Dick Laurent e a necessidade de um conhecimento objetivo e real, representado pela câmera. O fato dele morar numa cabana no meio do nada é significativo também. É ali, no fundo da escuridão, longe de todo palco da ação que reside a personalidade mais obscura, os desejos mais profundos de Fred. Essa cabana é apresentada numa cena de explosão filmada ao contrário, o que me faz pensar em todos esses sentimentos dentro do Fred, que explodem e o fazem perder o controle, mas aos poucos eles retornam para dentro da sua casa, a cabana, aonde são contidos novamente. A cena da  explosão invertida também é interessante porque ela primeiro aparece quando Peter está próximo de entrar em cena, e mostra essa inversão da narrativa.
É possível então, que todo filme seja a memória dos assassinatos de Renee e seu amante na maneira como é lembrada por Fred, possivelmente na prisão. O começo no interfone seria uma memória vaga, perdida e sem sentido aparente sobre o assassinato do amante. Após, o filme segue em dois movimentos: primeiro nos conta a história presente, até ao assassinato de Renee, e em seguida conta a história passada, até o assassinato do amante, que seria uma grande alucinação de Fred na prisão, buscando fazer algum sentido em suas ações e buscar respostas para sua obsessão: Renee.

 Imagem 1

 Imagem 2

 Imagem 3

 Imagem 4



Tópicos Finais não desenvolvidos:
- A primeira vez que a cabana aparece, a cena é construída como se uma cortina de teatro estivesse se abrindo. É interessante essa remissão ao teatro e a cortina, como se fosse começar algo fantastico, começar uma peça, a peça de Peter.
- A idéia da cortina me lembra de Twin Peaks, o que separa o mundo real do mundo fantástico é uma cortina. Além da cortina na hora que a cabana aparece pela primeira vez em A Estrada Perdida, ela aparece várias vezes na casa, como que fanstasiando aquele espaço real.
- A cabana também me faz pensar no Black Lodge de Twin Peaks, apresentam um conceito parecido de certa maneira, algo no dominio do fantastico, aonde existem seres que são fantasmas nossos.
- Tem uma hora no filme que mostra uma foto com Alice e Renee juntas e Peter fica confuso sobre quem é ela. É nesse momento que as barreiras da fantasia começam a se quebrar, e Peter começa a retornar a ser Fred. Em seguida ele sobe para ir no banheiro da mansão e vai parar no corredor de um hotel, o que antecipa algo que está por vir, que é Fred flagrar a traição da mulher e caçar Dick Laurent. Posteriormente, a mesma foto aparece, mas nela Alice sumiu e só existe Renee.

sábado, 15 de setembro de 2012

afasia

Silêncio.
Uma passagem. Arnaldinho sorri para a rachadura na parede antes que mamãe avise jantar na mesa querido. Resquícios alegres. Aspargos, explicações desnecessárias, comentários no noticiário. Pouca coisa, insignificante na aparência, ainda assim é algo que resta. Um alento antes de dormir, amassar o travesseiro, a calçada, a sarjeta, o céu, o inferno: o sorriso de um deus estampado na lua, irônico, filho da puta, não esconde aquilo que gostaríamos de não ser. Desnecessário: nada se move; mentira, todavia, falsear satisfaz o momento.
Arnaldinho recebe a mesada: difíceis escolhas: sorvete, putaria, futebol de botão, boné, figurinhas dos cavaleiros do zodíaco. Naquele dia: conversa de homem, suco de laranja com vodca no bar do Jair. Pouco se entende, muito se imagina.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

expressões de puro italiano

mah que merda?
bigodare éu inicciare?
parlami tutti piu?
papari puppi? papari pappa?
si no hay cosa, no hay.
no hará, lo que haré (versão hispanizada de: non faccio, facciare)
il venti piu de putanesca (bordão conhecido na Sicilia, muito usado pelos marinheiros quando aportam por tais bandas e que quer dizer mais ou menos isso: o vento pia nas "putanescas" [esse é um conceito interessante relacionado ao nutte alemão e ao haker do africâner])
terreno vuoto il lupo sempre affondare e il colpevole non è mai santo papa: è ​​il favore che si fa (uma frase muito interessante que pode ser entendida, numa livre tradução, assim: em terreno de gambá, passarinho não canta. é o famoso: em terra de morcego pardal amanhece de ponta cabeça)

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Da origem do mal ao mal

Novamente me volta a bebedeira inconsequebte das cachaças. Que mais dizer?
Digo que o máximo qu e nos pode o homem é uma sujíssima literaturra de AUTO AJUDA SOFISTICADA. ´Por que? Porque o domínio da gnaralizado da mercadoria dominou-nos por inteiro o bom senso(uma pena).
Mas esse discyrso viciado já não encontra adeptos, a não ser entre cabeçudos.
Os melhores se tronaram moderados pela sobrevivência e/ou  pela felicidade. No limite a desgraça.

Mais uma dose de uísque Chanceler, Jethro Tull, 1:49.
Tanto faz.

domingo, 24 de junho de 2012

...

eu detesto ser o último a perceber: me disseram que o final não importa. de fato não importa. tudo isso de esquecer o fim e se concentrar nos meios sempre foi grande baboseira pra mim. acho que é ainda. é tão clichê. mas não é isso que tira sua validade, aparentemente. divertir-se com o que se tem à mão é algo que parece lisonjeiro, mas no fundo se torna um recurso simples que pode combater crises de solidão, desesperança, infortúnio. enquanto se espera um retorno, ou se chora um abandono, uma preocupação, porque não se entreter com a solidão, a desesperança? na verdade, não faz sentido até que se tenha em controle a situação. funciona como uma anedota: você disfarça. meu amigo disse que uma anedota é mais do que uma máscara. o subterfúgio. aí eu expliquei a ele: não interessa o que é a anedota. ele me interrogou com o olhar. isso não vai levar a nada. só continuo pensando...quanta baboseira de um bêbado?

sábado, 26 de maio de 2012

Sorte

Bruno Enrique dos Reis, logo após concluir sua graduação em história, foi carpinteiro, cobrador de ônibus, diplomata, bancário, juiz, banqueiro, estivador, socialite, clínico geral, cabeleireiro, professor, marceneiro, mercenário, dentista, pediatra, geógrafo, motorista, prostituta, músico e poeta, engenheiro florestal, bibliotecário, vendedor,  vendedora, promoter, encanador, repórter, imediato, pedicure&manicure, engenheiro civil, militar de carreira, enfermeiro, técnico açúcar e álcool, soldador tig/mig, arqueólogo, arquivologista, editor, atriz e modelo, estatístico, agrônomo, autônomo, maloqueiro e sofredor, designer, matemático, dublê, fotógrafo, nanotecnólogo, alfaiate, cobrador, administrador, arquiteto, colunista social, folião, gerente, artista plástico, dançarino, economista, mas se encontrou mesmo como apresentador do jornal da madrugada na globonews.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

[um texto antigo q achei por aí sem terminar. achei injusto terminá-lo]

acho que me encontrei. ou talvez tenha me perdido em novos caminhos. por onde começar? talvez eu tenha esperado tempo demais e o minuto seguinte não passará tão lentamente. pela primeira vez, no entanto, me liberto novamente. foi assim que percebi que eu nunca morreria. ou morrerei, para tratar dos tempos verbais. quando você pensa em si como centro da sua vida, você percebe que ela não tem fim. você é o ator da sua morte. digo tudo isso, assim, sem sentido, porque espero encontrar eco. digo tudo isso, assim, porque foi aquela noite, e só aquela: a lua, a luz incerta da vela, o ar deliciosamente gelado que conservava o sorvete de minha taça em sua mais imperfeita e irregular forma; conservava também aquela gota de suor em minha fronte, como que medrosa de descer pela minha face, recém barbeada porém áspera e irritada. quando aquela goticula chegasse à toalha da mesa eu seria lançado ao céu escuro, já sem vagalumes. até lá, eu estava submerso em ansiedade. meu estomago tinha tornado-se um triturador de lixo vazio, com suas lâminas ociosas balançando conforme o swing da música que agitou minha alma. "amor, você sabe o que me trouxe aqui?" eu não podia negar balançando minha cabeça e minha boca estava muito seca para articular qualquer palavra sem levantar uma suspeita sobre meu estado psicológico. quando tentei improvisar um "não" ao mesmo tempo que limpava a garganta e tentava varrer o suor da fronte com uma das mãos o que saiu de mim foi um som estranho que mais pareceu um gemido.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Portas para Lugar Nenhum


Era uma vez um país cheio de pessoas que falharam na vida, ou pelo menos era o que queriam que elas acreditassem, ou talvez não seja o que queriam que acreditassem pois isso pressupõe que existe alguma entidade superior as pessoas, manipulando-as. Mas o fato é que nesse país existia um discurso sobre pessoas que falharam na vida e para resolver o problema o governo fez um prédio. Esse prédio possuía 20 andares, e em cada andar havia uma porta que levava a lugar algum. A verdade, é que é uma mentira dizer que a porta levava a lugar algum, pois ela levava inexoravelmente a um único lugar: o chão. Qualquer pessoa era livre para entrar nessa construção e peregrinar por suas escadas. A principio, o governo não tinha posto um elevador por corte de custos. Afinal, porque investir dinheiro num prédio que só será usado uma vez por cada pessoa que entra nele? Mas logo após a construção, teve que fazer algumas gambiarras arquitetônicas para colocar um. A verdade é que, muitas das pessoas que entravam decididas nesse prédio tinham uma preferência ardorosa pelo último andar e a peregrinação até ele, pelas suas escadas frias e fatigantes, levava as pessoas a refletirem, perderem aquela chama de decisão do pulo, e retornarem ao mundo. O elevador foi feito para ser rápido o suficiente para essa chama se manter acessa até a chegada no último andar.
A peregrinação era um momento único na vida dessas pessoas. Elas  podiam olhar suas vidas, encarar seu destino e se questionar sobre suas decisões. O futuro estaria apenas um passo, um passo e elas voaríam, livres e poderiam sorrir, experimentando toda aquela liberdade única e mágica. Mas apenas por um instante, um curto instante de tempo, até encontarem o chão.

Impressões - 08 - Falling


Cena do filme Pane e Tulipani, feito em aquarela.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Chico Science, Friedrich Engels & Nação Zumbi


Em  todas as partes, indiferença bárbara e grosseiro egoísmo de um lado e, de outro, miséria indescritível; 

E a cidade se apresenta centro das ambições para mendigos ou ricos e outras armações. Coletivos, automóveis, motos e metrôs, trabalhadores, patrões, policiais, camelôs.

em todas as partes, a guerra social; a casa de cada um em estado de sítio; por todos os lados, pilhagem recíproca sob a proteção da lei; e tudo isso tão despudorada e abertamente que ficamos assombrados diante das consequências das nossas condições sociais, 

O de cima sobe e o de baixo desce.

aqui apresentadas sem véus, e permanecemos espantados com o fato de este mundo enlouquecido ainda continuar funcionando.
Na escala em que, nessa guerra social, as armas de combate são o capital, a propriedade direta ou indireta dos meios de subsistência e dos meios de produção, é óbvio que todos os ônus de uma tal situação recaem sobre o pobre.

Ô Josué, nunca vi tamanha desgraça, quanto mais miséria tem mais urubu ameaça.

Ninguém se preocupa com ele: lançado nesse turbilhão caótico, ele deve sobreviver como puder. Se tem a sorte de encontrar trabalho, isto é, se a burguesia lhe faz o favor de enriquecer à sua custa, espera-o um salário apenas suficiente para o manter vivo; se não encontrar trabalho e não temer a polícia,

Cavaleiros circulam vigiando as pessoas, não importa se são ruins, nem importa se são boas.

pode roubar;



E quem era inocente hoje já virou bandido pra poder comer um pedaço de pão todo fudido.
Banditismo por uma questão de classe.



pode ainda morrer de fome,

Peguei o balaio fui na feira roubar tomate e cebola, ia passando uma véia e pegou a minha cenoura: "aí minha véia, deixa a cenoura aqui, com a barriga vazia não consigo dormir". E com o bucho mais cheio comecei a pensar.

caso em que a polícia tomará cuidado para que a morte seja silenciosa para não chocar a burguesia.

sábado, 12 de maio de 2012

{)O(}

É o dia do jogo. Vamos narrá-lo direto da quadra. Aquela adrenalina do público, dos jogadores, minha. Uma hora e quarenta e cinco minutos antes do início da partida são abertos os portões. Todos vão chegando e se recostando. Trazem óculos de sol, bonés, protetores frescos nas faces, roupas limpinhas onde o branco é mais branco e o azul é mais azul que o céu ensolarado. Trazem namorados, mulheres, amigos, mães, filhos. Trazem comida. Meu Deus, como podem comer num dia destes? O nervosismo é grande em mim, nos jogadores. No público já não é considerável. O sol alto do meio dia desce como um manto sobre a quadra, perfeitamente perpendicular. Não existem sombras que não aquelas dos guarda-sóis montados sobre os banquinhos amarelos ainda vazios porque os jogadores ainda não saíram dos vestiários. A iluminação perfeita provida pelo belo dia permite que cada centímetro da quadra esteja bem visível da nossa cabine. Imagine do banco do árbitro. Os juízes de linha não vão errar uma hoje. Não podem errar. O público continua entrando com uma calma que não corresponde com a tensão e o clima pesado que a proximidade do jogo vai criando. Tento me acalmar meditando por alguns minutos. Quando me dou conta, o narrador, meu amigo Jarbas Jaque, já estava iniciando a transmissão e os jogadores já estavam em quadra aquecendo. "...neste belo dia de sol, vamos assistir a partida...". É isso, é agora. Ele vai me apresentar. "...que vocês vão curtir aqui com a gente, não é Álvaro Altares?". Hesito por um nano-segundo. Merda, eu engasguei na minha primeira fala na televisão. "É isso mesmo, Jarbas. Bom dia amigos do esporte, hoje um confronto que vai definir o novo campeão da...ah! verdade!". Um riso sem graça tenta encobrir meu nervosismo enquanto eu corrijo o "bom dia" para "boa tarde". Continuo minha fala como se fosse uma preleção: "...o favorito de todos os tempos enfrenta hoje a sensação desse Grand Slam, um tenista estreante que vem surpreendendo e galgando posições no ranking no entradas e que tornou-se um ótimo candidato ao título...". Foi automático. A primeira grande participação correu bem. Meu texto de apresentação estava interessante, eu falei com naturalidade, calma. Só mais algumas participações como esta e eu estou pronto para ir embora, aliviado.O grande Jarbas segue com a narração impecável. Talvez um dia eu seja como ele. "Álvaro, eu confio que Peter Duck não vai deixar o sucesso recente de Reddie Skin abalar seu ótimo tênis e sua reputação de mais de 13 títulos. Há muito em jogo, mais do que o campeonato deste Grand Slam. E você, quem acha que leva o caneco pra casa?". Nossa, essa foi inesperada. "Ah, Jaques Jarba, esses jogadores iniciantes e inexperientes podem sempre surpreender contra os grandes nomes do esporte. Geralmente trazem grande perigo nos sets iniciais e costumam superar o adversário favorito, mas devo concordar com você de que Duck não deixaria uma derrota no set inicial abalar seu jogo. A experiência de campeão o mantém focado e sabedor de que a vitória só é alcançada ao fim de todos os sets". Uau, se eu continuar assim vou tomar o emprego do Jarbas rapidinho.
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Tudo que sei é que o jogo não terminou bem. Os dois atletas disputaram ponto a ponto. O comentarista da tevê local infartou no fim do terceiro set.
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Construir um personagem durante umas tantas linhas para depois matá-lo em umas poucas. O que isso diz sobre o seu caráter?

terça-feira, 1 de maio de 2012

Era uma vez...


Era uma vez duas pessoas sensuais que se sensualizaram com amor puro e sincero da montanha no meio do supermercado. Começou assim:
- Oi. Você por acaso sabe aonde ficam as ervilhas?
- Hum. Vai até o final do corredor, vire a direita e ande por três prateleiras e vire a esquerda.
- Obrigado. Seus olhos são tão lindos.
- Hihi. E o seu pipi é tão charmoso.
- Ui. Vamos comer pão com manteiga em casa?
- Só se eu puder levar a cerveja.
- A vontade. Mas já aviso: não tenho lasanha.
- Tudo bem, sou alérgica a moluscos.
- Moro na rua atras do Lanchão, número 678. Aqui está a chave reserva, pode entrar sem bater.
- Ok. Até +.
            Algumas horas depois, Natalia foi até o número 678 da rua atras do Lanchão e entrou sem bater, mas não sem alguma dificuldade. Era necessário certa manha para conseguir abrir a fechadura. Ela aprendeu rápido e entrou. Parecia não haver ninguém. Pensou em gritar o nome do rapaz e o teria feito se não fosse pelo fato de não sabê-lo.
            Cruzou a sala em silêncio, que era bem simples: um sofá, um rack com uma televisão, um aparelho de DVD, vários filmes espalhados, entre eles, Dogville capturou seus olhos, talvez por tê-lo visto na semana anterior e achado bem interessante. A sala tinha uma mesa redonda e bem pequena, com quatro cadeiras dispostas aleatoriamente. Em cima havia um vaso com a cabeça de um animal, um veado. Estava ficando tão na moda isso, que ela ficou um pouco frustrada. Curtia seus homens com gostos exóticos e não comuns. Flores seriam tão mais inovadoras. Entretanto, havia algo naquela cabeça grotesca que prendeu sua atenção. Os olhos mortos divergentes apontavam, um para uma janela aberta, através da qual se podia vera tardede segunda-feira e o outro um espelho, no qual era forçado a fixar sua imagem imutável, acomodada ali dia após dia. Mas do que importava isso, para os mortos não existe mais futuro e nem passado. Somente aquele presente eterno, resignado, dilacerado.
            Haviam duas portas na sala, uma estava fechada a outra levava para a cozinha. Optou pela segunda e foi direto para a geladeira colocar a cerveja. Não houve nem um problema para espaço, estava praticamente vazia. Havia uma panela com resto de miojo, uma caixa de leite, queijo, algumas maçãs e outras coisas que ela nem deu muita atenção. Ao fechar a porta, olhou em volta. A cozinha estava um brinco de limpeza, isso quase a fez ter um enfarto. Como assim? Como ele deixa um resto de miojo na geladeira e o resto tudo tão limpo? Ela não podia aceitar isso. Precisava cuidar daquilo agora, era o minimo que o senso de limpeza virginiano dela exigia.
            Pegou panelas, abriu as prateleiras, tirou os ingredientes que precisava, começou a preparar uma bela macarronada, deixou o molho cair no chão de propósito e sorriu quando o óleo dos quibes espirraram em tudo. Pegou copos e encheu com coca, e os esvaziou na pia. Mas deixava um restinho. Espalhou esses copos estratégicamente pela cozinha, e um deles colocou na geladeira, por que não? Terminou de fazer a macarronada, serviu dois pratos e jogou a comida deles no lixo, mas não sem deixar um pouquinho para tampar o filtro na pia quando os colocasse lá. Começou o arroz e a fritar uns bifes. A cozinha estava ficando tão maravilhosa que nem podia acreditar. Jogou um dos quibes no teto, só por brincadeira, os outros foram pro lixo também, mas não sem passar por um prato antes, junto com um pouco de arroz.
            Quando Natalia terminou com a cozinha, ela estava imunda. Nem parecia a mesma de quando havia entrado. Ela sorriu, estava perfeita. Pegou os bifes, colocou no prato e levou para a mesa, abriu uma cerveja e começou a beber, já estavam geladas. Sentou-se ali e esperou. Quando chegou no meio da lata mais ou menos ele apareceu. Veio do quarto que ficava do lado da sala. Olhou em volta e gritou:
- Está louca?
- Não... Por que?
- O que você fez aqui?
- Dei um jeito de leve na sua cozinha ué.. Você não arruma nada.
- De leve?! Como assim de leve? Você a deixou perfeita! E você nem me conhece. Meu Deus! Meu Deus! Você é perfeita.
- Hihihi. Não é para tanto.
- Po! Não precisava, a gente nem se conhece...
- Ainda! Coloquei as cervejas na geladeira. Pegue uma e vamos comer esses bifes.
- É pra já.
- Ah. Esqueci de pegar as colheres, faz o favor.
            Ele pegou a cerveja e trouxe duas colheres. Devoraram os bifes, esfomeados como estavam. Beberam as cervejas durante toda a tarde, conversando e descobrindo tantas coisas similares entre si que era até assustador. Quando perceberam, já era de manhã e tinham feito sexo a noite toda, tão pacifica e carinhosamente que a cama até quebrara. E ficaram ali, abraçados, sem saber o que fazer. A verdade é que não queriam fazer nada. Só ficar ali, e ali ficaram. Viveram felizes para sempre durante 2 anos, quando as brigas começaram e três meses depois se separaram. Deixaram de amar um ao outro para voltarem a amar a si mesmos apenas.