sábado, 6 de março de 2010

Mais sobre sangue e perversão doentia

1-Na fila do açougue, uma menina bonitinha, loirinha, cachinhos nos cabelos.
O açougueiro barbudo, barrigudo, com o cigarro no canto da boca sem dentes, cortava a carne com seu facão velho, cuja lâmina o tempo de uso escureceu.
A menina bonitinha, achando que ninguém percebia sua atitude, mantinha o olhar fixo na lâmina escura do açougueiro, que atendia ao pedido do primeiro cliente da fila. O açogueiro dilacerava com dificuldade os pedaços de bife da peça nervosa de carne. O sangue escuro escorria em gotas pela lâmina escura da faca e pingava bonito no avental branco-branco do açougueiro. A menina bonitinha saiu da fila, sentou-se no chão sujo e grudento de sangue velho de bois mortos, e fingiu que se masturbava. O olhar fixo no corte da faca vertendo gotas escuras.
[A menina bonitinha da foto chama-se Taylor Swift. Com isso, transformo a descrição em redundância - o que é discutível - e nego-lhes parte da liberdade de imaginação pelo uso da imagem.]

2- "enquanto a mulher não alcançar não só uma real independência diante do homem, mas também um novo modo de conceber a si mesma e a sua parte nas relações sexuais, a questão sexual permanecerá rica de aspectos doentios, [...]" - Antonio Gramsci


3- Pardais e explosão de cabeça

quinta-feira, 4 de março de 2010

parágrafos

Pedaços do teto refletidos no chão enquanto tentava olhar dentro de si mesmo. Os restos da luz de um dia passado eram o contraponto à penumbra do quarto no presente. Sem mais sons, arremessa o espelho: cacos espalhados. Reflexos de um mundo não desejado. Resignação: abaixa a cabeça, pedaços do teto refletidos enquanto encara o vazio.

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Depois de acordar, costumava apreciar o movimento suave das folhas das poucas árvores observáveis a partir da janela do meu quarto. Era uma época agradável, hoje percebo. As árvores permaneceram. Eu perdi as raízes. Estou seco. Peço esmolas e tento amainar minha sede afogando-me em aguardente e lembranças roídas.

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A imagem da Santa foi encontrada no rio perto do qual vivi minha infância. Interpretei isso como demonstração inequívoca de bom agouro. Pedi para meus dois filhos reunirem toda a família para visitarem-me no hospital, minha residência permanente nos últimos três meses. Todos espremidos em minha morada: olhei serenamente para esse conjunto de existências. Ordenei, sem demonstrar raiva ou nervosismo, que me matassem. Não esperava respostas, nem consolações, petrifiquei-me com um sorriso sincero no rosto.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

segundos antes de ela ir embora

a primeira vez q vi ela estávamos na farmácia. eu comprando aspirinas, ela digestivos. de cara me disse que não gostava de feijoada. me apaixonei e me ofereci pra pagar-lhe o eno. ela aceitou, desconcertada. o farmaceutico perguntou se éramos casados. respondi que não, que não tinha como sustentar família. ela me disse que criasse um blog e fosse viver a deus dará.

então, eu liguei pra ela e a chamei pra comer qualquer coisa. eu disse que não sabia cozinhar, mas que se ela quisesse eu matava dois porcos. ela pediu apenas um. ignorei-a e acabei matando três porcos. no jantar ela me abandonou com um enorme caldeirão de feijoada e eu repeti sozinho no quarto: td bem, eu crio um blog e vou viver a deus dará.

ontem a noite me perguntaram o q tinha pra comer. respondi: orelhas, rabos e costelas com feijão preto. me perguntaram: feijoada? respondi que sim, porém sobressaltado com tamanha perspicácia. me disseram que assim eu perderia o emprego, e eu disse que não me importava, que criaria um blog e viveria a deus dará.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

vg: mae, me dah 1500 reais preu comprah um playstation 3?
mãe: Aaaah, menino..Não dou, não. Isso é coisa de criança.
vg: nao eh nao..tem ateh jogos para maiores de 18 anos.
mãe: Não importa. Se não fosse coisa de criança eu dava, você sabe. Por vocês eu já dei muito duro nessa vida, consegui criar meus filhos com meu suor. Se fosse pra investir no seu estudo faria tudo. Não pode parar de estudar. Estudo é tudo, meu filho. És-tudo.
vg: ... é ... entao me dah 100 mil preu doar pra um arquivo do estado q tah mto precario e os documentos estão perdendo.
mãe: Não também. Papel velho.
vg: mae! é a memória da sociedade. a mínima crítica social precisa estar fundada historicamente.
mãe: A mínima ponte está fundada em pedras, cimento, metal.
vg: [murmurando] vidro, concreto e metal..capitalista filho da puta..
mãe: Quem? Eu?
vg: não, mãe. mas, mãe, essa concepção sua de ciencia tá mto ultrapassada. essa idéia de aplicabilidade prática na vida da sociedade é muito século XIX. e se for assim, a história também tem aplicação prática.
mãe: [fitando] ...
vg: a gente atua culturalmente, mãe. a revolução da condição social, política e economica atual tem que passar pelo campo cultural, pelas mentalidades.....PELA ESTÉTICA! a arte tb não serve pra nada?
mãe: huuumm..não sabia que história era arte.
vg: não é!!! dei um exemplo...tava querendo..a cultura é desvalorizada frente a política..
mãe: não falei de política..
vg: to dizendo que a senhora participa de uma concepção mto difundida hj em dia onde o entendimento cultural da sociedade é relegado a um segundo plano. o que mostra muito bem isso é a valorização profissional que o mercado dá pra engenheiros e não dá pra historiadores. é mais importante uma ocupação relacionada a produção de lucro e ao controle do capital. eu poderia ir mais longe e discorrer sobre a perversidade da sociedade ocidental, capitalista e de tradição judaico-cristã, que perpetua a configuração atual da sociedade de exploração do homem pelo homem através da produção contínua de discursozinhos como a pátria, o selfmade man, o individualismo,o trabalhador honesto........o mito do amor materno.....
mãe: o que?
vg: ............ nada não, mãe...

Relato objetivo de uma certa tarde .2

Outro dia explodiu no meio da rua a cabeça de um homem. O caminhão passou em cima. Então aconteceu geléia de morango fosforescente escorrendo e fritando bonito pelo asfalto quente do meio dia. Os pardais bonitinhos de Deus pegavam migalhas de pão de queijo caídas de baixo da mesa, molhavam na geléia de morango fritando, e levavam para os filhotinhos cretinos, carnívoros, antropófagos disfarçados de bonitinhos, filhos da puta.
Os filhos de pardal enganam os pais para comer cérebros de pessoas. Os pais, ingenuamente levam para o ninho, pão de queijo coberto de doce de morango com miólos, neurônios e mtocôndrias. Quando os caminhões passam em cima das cabeças das pessoas...
Tem quem goste, na verdade. É uma mistura de sadomasoquismo com um tipo de perversão baseada em pardais filhotes. Os pardais filhotes não têm penas e, como vimos, não têm senso de moral. Os pervertidos aproveitam-se da explosão de suas cabeças para fazer seus cérebros e corticóides parecerem com docinho de morango, pondo em prática seus hábitos anti-naturais revoltantes!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

notas dispersas anacrônico-carnavalescas

Noite de carnaval, camarote em um ponto estrategicamente elevado para melhor observação e possíveis comentários respeitosos sobre as atividades festivas de uma legião incontrolável de pessoas a pular, dançar, esfregar, bolinar, cantar. Nós, arautos da prudência e da discrição, mantínhamos o bom comportamento, devidamente assentados em nossas poltronas, com as extremas demonstrações de animação sendo alguns dedos indicadores em riste balançando pelo ar ou um leve tamborilar de mãos sobre a superfície em que sentávamos ou de pés sobre o chão em que pisávamos. As coisas estavam dispostas conforme a razão, no camarote, e estávamos contentes com isso.
Contudo, a incontinência do verbo fez-se presente no momento em que Hugo de Fleury comentou estarem os membros dos corpos dos foliões em estado revoltoso, os aguilhões ardentes da concupiscência carnal atormentando as carnes contra a vontade dos indivíduos. Agostinho sorriu vitorioso com essa intervenção inesperada do caro colega e logo começou a predicar sobre a natureza decaída do homem desde o pecado original e da conseqüente necessidade de coerção para atingirmos a salvação.
Pelágio, percebendo o olhar nervoso do eloqüente Agostinho fixo nele, tentou defender sua opinião segundo a qual a liberdade da humanidade estava assegurada pela virtude do batismo e que todos aqueles foliões pimpões exerciam o mais perfeito domínio de si, sendo o movimento dos membros ali observado algo justo entre os bons cristãos.
A euforia e a discórdia tomaram conta do camarote. Entre acusações de heresia e exercícios de exegese, Tomás perdeu o rebolado e, num frenesi nunca dantes presenciado na escola escolástica, começou a arremessar tomos e mais tomos da sua Suma contra tudo e contra todos. Apesar de tantas imprecações sobre a ordem divina, quem interveio foi a ordem pública: fomos todos, santos ou não, muito bem espremidos em dois camburões, para a delegacia prestar depoimento sobre nossos desvios de conduta.
Nem as mais bem construídas expressões em latim foram capazes de convencer o delegado, calvinista convicto, sobre nossa inocência e boa índole cristã. João de Salisbury ligou para Aristóteles e este apareceu com presteza para quitar nossa fiança, pois ninguém aceitava passar a noite na única cela da delegacia, na qual, resoluto e profano, repousava Maquiavel, detido sob a acusação de urinar em público.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

como parte de uma prova de proficiência na língua espanhola me pediram para que eu lesse um capítulo de um livro chamado devaneios oníricos de ramiro contreras.
quanto mais eu lia, mais eu percebia que não ia conseguir a nota suficiente para o teste. o capítulo ia mais ou menos assim por umas 15 páginas:

"minha vida estava resolvida. eu tinha um cachorro, amigos, uma casa, um emprego e acreditava em deus. deus bondoso que sabia me recompensar se eu fosse temente e mantivesse a fé acima de qualquer coisa. um dia me disseram que deus não existia. a partir daquele dia eu perdi uns amigos, mas fiz novas amizades, perdi o emprego e consegui um outro, minha casa caiu mas a casa do meu cachorro não. conheci uma mulher. arrumei um gato quando meu cachorro morreu. comi menos. eu não acreditava mais em deus e minha vida não estava mais resolvida."

o capítulo sem o resto da obra me pareceu bastante deslocado.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Relato objetivo de uma certa tarde

No buteco da esquina perto de casa sempre tem vários velhos sozinhos. Velhos tristes solitários. Fico pensando: quem são esses velhos? "São o futuro", diz meu lado fatalista/destrutivo. Um velho começou a contar histórias sobre a cidade de antigamente: "Isso era Campinas, só boizinho passando." - tomei nota. Ele dizia isso pra ninguém. Ao lado dele estavam um velho mais velho que ele e o moleque que trampa no boteco. Moleque de seus 18 ou 19 anos, essa juventude ridícula de hoje em dia... Ridícula, mas não degenerada. Escolho bem os adjetivos. Não é degenerada porque, afinal, quando é que foi menos ridícula? Cada tempo tem seus prórpios imbecis, formados de acordo com a tradição que lhes diz respeito.
Nem o moleque, nem o velho mais velho davam atenção às memórias do velho que contava histórias antigas da cidade e ria sozinho de coisas absolutamente sem graça.
Porque esses velhos tristes e solitários lembram de coisas tão antigas e desinteressantes? Acho que é porque eles não têm nada além disso. Prestei atenção: o velho mais velho e o moleque ignoravam o máximo que podiam, na esperança de que fosse interrompida a narrativa. Então, o velho que contava histórias parava um pouco, e ficava olhando pro chão vazio. Pensei que eu poderia intervir, "ei, velhote! o que é, afinal, a vida?", ele me olharia espantado. Eu não daria tempo pra que ele formulasse resposta, "velhote, pra onde o senhor pensa que vai depois de sua morte?" sem compaixão!
Então me canso do bar e volto pra casa. No caminho de casa tem uma farmácia, onde trabalha uma moça bem bonitinha. Passei e olhei pra ela. Pensei que um dia eu vou entrar na farmácia, parar diante da estante de camisinhas e pensar, por uns 10 minutos. Ela vai olhar pra mim de canto d'olhos e pensar: "safadinho". É que hoje em dia existe uma variedade tão grande de tipos, marcas e preços de camisinhas, que é preciso pensar bem antes de escolher. Então, finalmente, vou escolher uma sabor framboesa e colocar em cima do balcão. Depois, olharei dentro de seus belos olhos castanho claros e soltarei: "que vai fazer à noite, princesa?"
Não tem como não dar certo!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Da quase revolução individual

Quando eu era criancinha, 8 anos, decidi que não valia mais a pena. "Não compactuo mais com esta merda de vida!", disse em discurso aos pais, que desdenharam, "uuuuuuuhhh!!". Então fui embora de casa. A decisão não foi tomada duma hora para outra, mas foi coisa pensada e repensada, com cálculo e planejamento. Isso quer dizer que quando tomei esta decisão revolucionária, já tinha conseguido juntar algum dinheiro, ganho honestamente, trabalhando como funcionário público no tempo livre depois da escola. Com isso comprei muitos livros. O restante do dinheiro guardei para gastar com cachaça e mulheres.
Então saí de casa com livros e minha guitarra, que eu tive que ligar na sarjeta, já que não podia carregar amplificador algum - tinha 8 anos, meus membros não eram desenvolvidos.
A idéia era lecionar, a preço popular, Teoria da História aos mendigos, para que não caíssem em erros comuns e gravíssimos como a teleologia e o positivismo.
Ficar em casa era tedioso. Sempre a mesma rotina, escola, lição de casa. Os velhos coleguinhas da escola, conforme foram crescendo começaram a ter idéia errada sobre as coisas, tomar atitude de imbecil, desacreditar de papai noel...aí num teve jeito de aguentar! Por isso é que a revolução dos hábitos e a superação da convivência familiar burguesa, impuseram-se como medidas necessárias.
No entanto, quando cheguei ao covívio dos mendigos, fez frio à noite, e a calçada foi dura, e a polícia caceteou-nos, e bateu a fome, e eles não compreenderam em que a concepção de consciência de classe de Thompson difere da de Althusser, nem qual era a diferença entre a primeira e a segunda gerações dos Annales! Então voltei para casa e voltei a viver como gente. Dignidade e normalidade.
Mas é assim mesmo, quando a gente é pequeno fica revoltado por pouca coisa. Depois aprende os valores direitos e vive feliz!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Encontro com a Morte

Três irmãos viviam muito felizes porque trabalhavam em um celeiro, amontoando a palha e cuidando dos cavalos. Na época em que eles viviam, antigamente, o tempo e a disciplina de trabalho ainda eram mais ou menos relaxados. Isso quer dizer que no meio da manhã, ainda antes do almoço, o chefe, dono do celeiro, dos cavalos e da palha, viu passar lá fora, pela janela do celeiro, a moça da quitanda, que era uma beleza, assim como a irmã mais nova dela, que também trabalhava na quitanda. Quitanda era um lugar onde, antigamente, vendia-se alfaces e coisas assim. Embora alface não seja bom para comer, todo mundo que passasse por lá ia perguntar o preço e comprar um pezinho (de alface), só para poder fazer gracejos às irmãs da quitanda. Mas não interessa...O que acontece é que quando a moça da quitanda passou pela janela do celeiro, passou e deu uma piscadela ao dono do celeiro. Antigamente dar piscadelas significava um convite para dar umazinha atrás do celeiro. O dono do celeiro saiu correndo porque essas coisas quase nunca lhe aconteciam, uma vez que ele era feio, pobre e desinteligente, e naquela época as pessoas se importavam muito com isso. Não valorizavam, portanto, o Amor Puro e Sincero.
Quando isso aconteceu, os três irmãos que trabalhavam no celeiro não acreditaram. Mesmo assim, perceberam que a escapada do chefe era possibilidade para aproveitar o pouco rigor da disciplina e do tempo de trabalho para dar uma volta enquanto o chefe dava-se-bem.
Um dos irmãos era o mais novo. O outro era o do meio. E o outro era o mais velho. Saíram do celeiro. O mais novo era o mais esperto: "Eu ouvi falar de uma pessoa. Ela se chama Morte."
O do meio era meio esperto: "Humm...e você conhece a Morte?" - "Não" respondeu.
O mais velho era inesperto: "Aproveitemos a folga para conhecer a Morte!"
Os dois mais novos somaram suas espertezas e concordaram com a inesperteza do mais velho.
Sairam pelo campo e encontraram um velho-cego-sábio-de-barba-branca-vestido-de-monge.
"Ei, velhote cego!" - O mais novo era o mais esperto e o mais cretino. O velho não gostou de ser tratado assim e não respondeu. Então o caçula continuou: "Você é tão velho, tão misterioso, barbudo...Diz-me uma coisa, onde encontro a Morte?" O velho gelou e ficou sombrio, mas por fim sorriu malicioso: "Mas, meu filho! Tão jovem e quer conhecer a Morte? Eu sou um pobre velho e luto a cada dia para me manter afastado dela." Então, o jovem perdeu a paciência e puxou uma faca ameaçando o velho: "Isso não te importa velho louco! Eu e meus irmãos aproveitamos o dia para conhecer a Morte. Você sabe onde ela está e irá dizer agora!" O velho suspirou desapontado: "Se é o que querem..." e apontou para uma direção em que havia apenas uma árvore solitária no vazio da colina. O caçula, então, deu uma voadora no velho, pois era ingrato, e correu, seguido pelos irmãos, em direção à árvore.
Chegando lá não encontraram ninguém. O irmão mais velho chorou: "Aquele velho enganou a gente!" Mas o do meio começou a bater a cabeça na árvore, de tanta alegria: "Olha só isso! Vocês ficaram cegos?!" Apontou o chão, e quando os irmãos olharam começaram a pular e soltar gritos tão agudos que o velho cego misterioso, já recuperado da voadora, além de cego ficou surdo. Acontece que no chão, estava uma quantidade de moedas de ouro muito maior do que os três irmãos juntos poderiam carregar. Quando perceberam essa condição a alegria transformou-se em desespero, pois queriam levar todo o ouro antes que alguém mais descobrisse sua existência.
O irmão mais novo que era tão cretino quanto esperto, decidiu que voltaria ao vilarejo - onde onde havia o celeiro e as moças bonitas da quitanda - e conseguiria bolsas para guardar moedas de ouro. Os outros dois ficaram muito felizes por ter um irmão tão esperto. No entanto, além de esperto o caçula era cretino, e chegando ao vilarejo decidiu comprar três garrafas de vinho para comemorar com os irmãos, o que não tem nada de cretino, pelo contrário! No entanto, antes do vinho, comprou veneno em porção para duas pessoas: o irmão do meio e o irmão mais velho.
Enquanto o irmão menor não voltava, os outros dois tiveram tempo para fazer as contas e perceber que dividir o ouro por dois seria mais proveitoso que dividir por três. O argumento moral veio do mais velho: "Nosso irmão é nosso irmão, mas é um cretino!" O irmão do meio não era bobo e lembrou: "Seremos os dois mais ricos do vilarejo. Casaremos com as irmãs da quitanda!" , "Quando o irmão chegar fingimos brincar de lutinha, como sempre fizemos desde criança, e então enfiamos nossas facas na barriga e nas costas dele!" E soltaram gritos agudos de felicidade.
O caçula chegou feliz e entregou a cada um dos irmãos uma garrafa de vinho envenenada. Eles beberam imediatamante, enquanto começavam a lutinha de brincadeira com o caçula, que bebia vinho puro. Então o mais velho tirou a faca e enfiou até o cabo entre as costelas do irmão menor, que em seguida recebeu no figado a facada do irmão do meio, tão profunda quanto a primeira. O caçula dava seus últimos suspiros, ensanguentado no chão, quando o irmão do meio sentiu-se muito mal e começou a vomitar uma coisa consistente, marrom-vermelho-escura. Então, o mesmo começou a acontecer com o mais velho. O caçula morreu. O mais velho caiu. O do meio morreu, e logo em seguida o mesmo aconteceu ao mais velho. O velho-cego/surdo-sábio-de-barba-branca-vestido-de-monge, ainda parado à distância, não viu nem ouviu, mas sorriu com malícia.

Adaptação e variação de um dos contos do filme de Pier Paolo Pasolini, The Canterbury Tales.

domingo, 17 de janeiro de 2010

d.

a inquietação com o mundo não se dá fragmentada:
as idéias são tortas, mas vivas, e
não traduzi-las em palavras é angústia.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Batendo fora do bumbo .3

Outro dia, o vizinho bateu fora do bumbo. É apenas um criançote, com seus 16 anos bem vividos e um lindo futuro pela frente! Mas mesmo assim surtou, e não a toa porque, afinal, ele conheceu uma mina, que nossa senhora! deus que me perdoe! Portanto, ficou apaixonadinho, o que mais cedo ou mais tarde ocorre a todos os criançotes que Deus, em sua sabedoria infinita, pôs no mundo. Motivo nenhum para, sem uso excessivo de drogas, bater, de uma hora pra outra, fora do bumbo. Quer dizer, pelo menos isso é o que acham aqueles que não conhecem a situação em detalhes, pois a verdade é que essa mina - nossa senhora! pela' mor de Deus! - nem sequer deu-lhe bola! Dizem que ela mora no terceiro ou quarto andar, o que sem dúvida é meio bom já que existe a possibilidade de encontrá-la no elevador, vez por outra...Por outro lado, essa oportunidade, tão esperada quanto rara, é também meio ruim porque esse vizinho é meio bundão, na verdade. Então, basta que o elevador pare no terceiro ou quarto andar para que ele comece a tremer e a suar incontrolavelmente, a garganta e a boca sequem, e o coração chegue próximo ao enfartamento (Lesão necrótica dos tecidos devida a uma perturbação circulatória e que é acompanhada, na maior parte dos casos, duma infiltração sanguínea). Quando a porta abre, e é justamente ela... aí então nada mais resta! O porteiro me contou, entre risos, que viu pela câmera de segurança do elevedor quando isso aconteceu uma vez. Segundo seu relato, o vizinho ficava olhando pro chão, dando só umas olhadelas de canto pra ela, que continuava imóvel, ignorando a presença do rapaz.
Antes que se pense que a mina era dessas vagabundinhas que ficam por aí destruindo corações dos bons moços, e mais nada, é preciso dizer que ela estuda na faculdade e é uma super-estrela-internacional-do-pop-francês*:

*Tudo bem, isso foi sem graça. Mas eu escrevi até aqui só pra ter algum motivo pra postar essa foto...


domingo, 3 de janeiro de 2010

Batendo fora do Bumbo .2

Outro dia, o vizinho bateu fora do bumbo. "Hoje é dia de bater a cabeça na parede..." levantou rasgando do sofá e aí bateu com tanta força que a parede da MINHA casa tremeu! Na sala de casa tinha um quadro, que caiu no chão na hora e quebrou. Era uma Santa Ceia (Saint Seiya), que abençoara a fartura de nossa mesa até o momento em que sucedeu esta merda. Mas nada é de todo mal, pois esta ocasião, apesar de desastrosa, pelo menos foi uma ocasião, em meio ao marasmo cotidiano! "pai, fudeu a ceia." O pai não pode deixar de notar a perspicácia do filho e foi além "é...o vizinho é burro! 1- Não tem planejamento; 2- Não tem a cabeça no lugar, por isso surtou! Por isso bateu fora do bumbo!", "é..." concordei. Silêncio.
Do outro lado, a parede do vizinho foi inteiramente tingida de roxo e vermelho escuro, de geléia ence-fálica de framboesas. Portanto, se ele fodeu com nossa propriedade - Saint Seiya - também terá que pagar meio caro por uma nova pintura para sua própria parede, se quiser alguma decência estética em seu lar.