terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Uísque Chanceler: 9,90 + desgraça classe média

Você seria capaz de aceitar que aquele jeito meio masculino da sua vó é, sem dúvida, uma evidência incontestável de que ela é lésbica?
Acontece que lésbicas de tempos de antigamente, sobretudo nas cidades de interior, não podiam ser lésbicas. A atração sexual que tua vó, quando era mocinha, sentia por outras mocinhas era reprimida tanto externamente pela autoridade do pai, guardião da família, quanto internamente pela ideologia religiosa e várias outras verdades absolutistas.
O fato é que aqueles tempos eram tão mesquinhos - hoje em dia... - que mesmo a atração heterossexual era motivo de vergonha. Sua vó, uma mocinha que nunca chegou a ser bonita, nunca chegou a nada, foi casada pela força da circunstância com um desses brutamontes - seu vovozinho lindo -, (...) . Um cavalo subindo por cima da vovó mocinha pra fazer o que tinha que fazer. 5, 10, 13 filhos...
A vovó, que além de não gostar de homens foi submetida a manter relações com este seu belíssimo vovô-cavalo, teve sua sexualidade completamente anulada... (O clichê de sempre). De todo modo as mães e as vovós são criaturas assexuadas por excelência. É o pressuposto do bom cumprimento de sua função social. A assexualidade de uma vovó lésbica dos tempos do antigo regime interiorano (1950-1968) vai mais longe. Ela não gostava de pau, mas teve que aceitar um pau que, além de ser pau era pau de cavalo... Nunca soube do que gostava, além do mais, - embora seja possível duvidar disso até o limite do bom senso -, (...) . Devido a uma questão de relação de dominação, sua vó concluiu - de forma obscura, no campo da sensibilidade (,não no campo da razão [!!]), que não gostava de sexo, quando na verdade não gostava de pau.
Não importa... a questão é que constituiu família partindo de condições absolutamente indignas de receber qualquer reconhecimento... Da família nasce mais família, é como um câncer. Tornou-se uma vovó atenciosa e preocupada, entretanto...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

gustavo poli e a intriga implícita

"de santa eu não tenho nada!" - meu deus. e essa era para ser uma narrativa linear, tradicional, quase reaça. não vou mais conseguir um texto simplesmente descritivo depois disso. beijava os ladrilhos. e eu só queria isso. não podia querer mais que tudo isso. o que aconteceu ali eu não saberia explicar porque não presenciei. Apenas vislumbrei o que meus sentimentos e minha percepção criaram em minha mente: não podia distingui-lo de um desejo pueril. "amanhã é quando tudo acontece". porque me diziam isso? isso não fez sentido e tampouco faz agora. tudo acontece sempre. amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada. eu já estava ficando medíocre nesse nível quando me alertaram. saí de lá sozinho, desacompanhado, e me perdi. estou perdido, mas sei pra onde ir. um beijo pra torcida.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

italo calvino

Aconteceu-me uma vez, num cruzamento, no meio da multidão, no vaivém.
Parei, pisquei os olhos: não entendia nada. Nada, rigorosamente nada: não entendia as razões das coisas, dos homens, era tudo sem sentido, absurdo. E comecei a rir.
Para mim, o estranho naquele momento foi que eu não tivesse percebido isso antes. E tivesse até então aceitado tudo: semáforos, veículos, cartazes, fardas, monumentos, essas coisas tão afastadas do significado do mundo, como se houvesse uma necessidade, uma coerência que ligasse umas às outras.
Então o riso morreu em minha garganta, corei de vergonha. Gesticulei, para chamar a atenção dos passantes e – Parem um momento! – gritei – Tem algo estranho! Está tudo errado! Fazemos coisas absurdas! Este não pode ser o caminho certo! Onde vamos acabar?
As pessoas pararam ao meu redor, me examinavam, curiosas. Eu continuava ali no meio, gesticulava, ansioso para me explicar, torná-las participantes do raio que me iluminara de repente: e ficava quieto. Quieto, porque no momento em que levantei os braços e abri a boca a grande revelação foi como que engolida e as palavras saíram de mim assim, de chofre.
E daí? – perguntaram as pessoas. – O que o senhor quer dizer? Está tudo no lugar. Está tudo andando como deve andar. Cada coisa é consequência de outra. Cada coisa está vinculada às outras. Não vemos nada de absurdo ou de injustificado!
E ali fiquei, perdido, porque diante dos meus olhos tudo voltava ao seu devido lugar e tudo me parecia natural, semáforos, monumentos, fardas, arranha-céus, trilhos de trem, mendigos, passeatas; e no entanto não me sentia tranquilo, mas atormentado.
– Desculpem – respondi. – Talvez eu é que tenha me enganado. Tive a impressão. Mas está tudo no lugar. Desculpem. – E me afastei entre seus olhares severos.
Mas, mesmo agora, toda vez (frequentemente) que me acontece não entender alguma coisa, então, instintivamente, me vem a esperança de que seja de novo a boa ocasião para que eu volte ao estado em que não entendia mais nada, para me apoderar dessa sabedoria diferente, encontrada e perdida no mesmo instante.

“O Raio”, traduzido por Rosa Freire D’Aguiar, presente no livro Um general na biblioteca, da Companhia das Letras, p. 14-15.

domingo, 13 de novembro de 2011

Desdobramentos de psicoses mais ou menos

1- Sempre eu penso na minha morte. Penso em quem iria chorar ao lado do caixão, em quem iria sentir culpa. Quem sentiria minha falta?
Penso em quem se sentiria punido pela minha ausência, mesmo na inocência.

2- Sempre penso que você teria uma enorme dificuldade para aceitar o fato de que seu pai tem certas fantasias homossexuais.
Ele nunca admitiu isso pra si mesmo; não tem vocabulário pra isso. No entanto ele não é capaz de ver uma bicha na t.v. sem rir. Norbert Elias diz que o riso é uma forma de lidar com desconfortos de origem pouco clara, ou algo assim. Portanto é disso que se trata.

3- O vizinho do seu primo acredita completamente que a mãe dele já não se masturba há muito tempo, apesar de tudo. E, de fato, ela não se masturba. Mas de uma forma muito obscura, misturada à muita coisa diversa, é isso o que ela deseja profundamente, mas não tem vocabulário para expressar em gestos este desejo. E, segundo Santo Agostinho, o pecado está na intenção, ou algo assim. Hehe, a convicção na natureza assexuada das mães é a base sólida a partir da qual se constrói todo o mal
*: - O mal?! Puta que pariu!
#: - O que?
*: - Puta simplificação moralizante da porra!
#:- Foda-se!

4- Às vezes eu penso na morte dos meus pais. Isso vai acontecer. Ainda assim, no momento o que me preocupa é comer essas meninas da balada. Me preocupa minha independência financeira. Me preocupa receber reconhecimento de meus comparsas e de meus superiores no trabalho.
*: - Mas a vida é assim mesmo, fazer o que?
#: - E o que isso tem a ver com a morte dos seus pais?
Antes da morte dos meus pais eles irão envelhecer e adoecer. Hoje em dia as pessoas bem sucedidas pagam especialistas para cuidar de velhos doentes. As coisas são o que são...
É melhor não ter filhos, e morrer cedo, com saúde, sabe?

5- Descobri, ultimamente que A Sociedade dos Poetas Mortos é um filme de auto ajuda pra pessoas inteligentes.
#: - Nãao... não é isso. Tem várias coisas...
Por mim tanto faz.

sábado, 12 de novembro de 2011

f.

"As pessoas todas dormem com as cortinas fechadas
e despertam com o relógio", estive pensando.

4:16
4:18
4:17

Nem o tempo de piscar e as horas me aceleram.

4:43
4:48
4:44

Acordo cinco e meia.
Não me lembro do caminho até o trabalho.
O café tá gelado.
A minha máquina de escrever quebrou e
meu chefe não.

Quando chego em casa minha cabeça não funciona. Eu tentei de tudo, eu tentei de tudo, eu tentei de tudo. Não, não funciona. Não, não funciona. Não, não, nããããããão. Não funciona. Funci. Ona. Ona. Ona. Não funci, funci, funci. Não, não, não. Tá, turum tá, turum tá, turum tá, tá, tá, tá. Tchuuuuuuu prarararum pá. Tidum, tidum, tidum, tidum tadá. Tidum, tchudum dum, tchudum, tchudum dum prrrrrrrrrra, pra pá. Não, não. I miss you. Não, funci, funci, não. Não.

domingo, 6 de novembro de 2011

Cinismo e dor no estômago

A: - Eu quero que se foda, na verdade.

B: - Não, cara! Isso é niilismo! Você tem que acreditar em alguma coisa...

*Alguma coisa...? Qualquer coisa? No limite, o argumento desses donos de verdades novas coincidem com a visão de mundo das mães de família: "Você tem que acreditar em alguma coisa..."

A: - Ah tá.

B: - Sua omissão de posicionamento significa adesão inconsciente à ideologia dominante.

A: - Quero que se foda... Essa sua coisa qualquer na qual preciso acreditar para escapar do niilismo é desespero disfarçado de socialismo.

*Essas conversas de bêbados ofensivos, essas acusações baseadas em conceitos bem definidos... tudo despropósito diante da consciência separada que aliena as pessoas da realidade da morte próxima...

#Se isso não é niilismo, então o que é?

*foda-se

B: - Foda-se você!

domingo, 23 de outubro de 2011

e.

ouvi-la.
e ficarmos preenchidos de sentido meu.

dia desses percebi da música. entender metáforas, perceber referências. mesmo assim, só algumas vezes, depois de muito tempo, ela ganha um sentido intenso.



sexta-feira, 14 de outubro de 2011

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Caetanin

Caetanin foi passear
Vinte anos, namorar talvez
De azul e ele é infeliz
Suas mãos estão vazias
Por que estão tão frias?
Tanto amor pra dar
Ele quer ser feliz
Ele só quer seu par

Caetanin foi passear,
Caetanin vai encontrar o amor

Caetanin está a pensar
Sonha um dia encontrar as mãos
E com as suas virão conversar
Mas serão mãos vazias
E irão ser frias
Com amor pra dar
Que queiram ser feliz,
Que queiram ser seu par

Caetanin está a girar
Véu, arroz, igreja a rodar
De azul, como é bonito amar
Suas mãos não estão vazias,
Nem serão mais frias
Quanto amor pra amar
Ele já é feliz
Ele encontrou seu par.



sábado, 1 de outubro de 2011

estamos presos a prazeres bobos, a manias intolerantes e ridículas, a posturas frágeis e a identidades tão efêmeras quanto pensamos que são eternas. e, nem por isso, temos que nos desrespeitar. só porque é uma construção não torna nada inválido. todo sentimento, bom ou ruim, vale, se é sincero na alma. e é por isso que a existência é tão insuportável.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

"primeiro foi um cachorro de lingerie, depois um cara decapitado sorrindo, por mais perturbador que isso seja. qual vai ser a próxima?"

acordei com meu coração batendo num ritmo estranho, almost like skipping a heart beat. por 7 anos de merda eu ouvi essa escavadeira ligada. as chaves batendo no cinto de Barney, o enfermeiro/carcereiro. talvez essa seja uma profissão ingrata. enfim. eu sei que sou louco, sempre fui louco. gostava de imaginar Dorothy correndo pela entrada do rancho, com um coelho pendurado pelos pés em sua mão, o pescoço frouxo indicando nosso jantar. é claro que isso nunca aconteceu. mas minha Dorothy era real. podia fazer combinações aleatórias? mas quem pode? não, minha Dorothy não. ela não era aquela moça apressada do corredor. ela veio pra mim a tira-colo. uma ótima surpresa. começou como uma verruga e me consumiu o quadril. ao fim da guerra, Dorothy já havia brotado e me livrado de um bom peso. o bom de se ter algo como a Dorothy por perto é que nunca estou só. nunca mesmo. as vezes sonho que estou indo encontrá-la e quando chego ao local combinado me deparo comigo mesmo conversando com ela mesma que esteve o tempo todo em meus ombros. e ela sempre está olhando pra mim. nos olhos.

"já reparou como suas histórias sempre têm um personagem central ou muito importante a quem você fica se referindo o tempo todo?"

a árvore. o capim. a maçã. a maça. o solstício. a dor. o pedir. o querer. a cruz. a jóia. a coluna. as colunas. a água. foto. som. cor. álcool. o grito. a música. amor. você.
me disseram para parar. eu parei de rir deste pedido só depois de muito tempo. as vezes constranjo as pessoas, sabe? nunca prometi o contrário também. enfim: não parei. daí tentei explicar minha incapacidade de contar uma história realmente boa e que, por isso, eu escrevia histórias sem sentido. não se interessou muito pelo que eu estava dizendo. resolvi continuar:

sozinho, no quarto, pedro pensava no que faria no outro dia. estava cansado de roubar carteiras, bolsas, apalpar bolsos vazios ou mais furados que o dele. viu no jornal nacional uma chamada: "o Papa Maldito XVI voltará ao Brasil ainda esse ano, Fátima". decidiu que iria ser algo. decidiu ser algo. decidiu ser uma manchete no jornal. visitar o Brasil era difícil. teria que morar fora uns tempos para que sua vinda ao Brasil fosse considerada uma visita e não uma deportação. não. ele tinha que inovar. não iria seguir os passos de um papa qualquer. "já sei!", pensou, "vou subir no Copan!". no outro dia saiu de casa só com a coragem e com a roupa do corpo. desceu do ônibus no ponto em frente ao seu destino. pensou que esmurrando e ameaçando o porteiro conseguiria acesso ao telhado. conseguiu uma viatura e dois policiais brabos dando-lhe cocotes e tapas em meio a esporros. foi jogado numa cela a espera que alguém viesse lhe buscar e por algum motivo foi parar no presídio. passou lá dois anos pela morte do porteiro esmurrado. estuprado, espancado, ofendido e insultado; quebrado em seu espírito e mutilado na sua humanidade. tudo aconteceu tão rápido. rebelião. refém. decapitação. foto sorrindo no jornal.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011



no japão do século XIX, dar um cachorro a uma pessoa podia ser considerado uma ofensa. isso porque o cão poderia atacar o dono em alguma situação aleatória. também era muito elogioso, porque ele protegeria a casa e o han. essa faca de dois gumes era conhecida como buta-no-kakuni. um cachorro de lingerie, no entanto, poderia salvar vidas. um dia cruzei com um pelas ruas de uma cidadezinha ao norte de Kyoto. ele baixava seus 4 sutiãs para mostrar os mamilos e gritava: "ui, vadia". foi realmente sincera minha risada. quando já estava de costas para o cachorro, meus dentes saíram pela nuca e essa "nova" boca, ainda ensanguentada, porém não menos risonha, ria e se divertia chamando o cachorro de "hot dog", num trocadilho que eu achei muito apropriado. meus joelhos cederam ao peso do riso. ao levantar, com alguma dificuldade, percebi outro cachorro vindo pela rua. ele estava seguindo o cão de lingerie. me resignei ao aceno. depois vi os dois tomando tequilas e um drink que mais parecia uma floresta tropical. latiam. ganiam. tudo conforme sua vontade.

domingo, 18 de setembro de 2011

Depressão e Alcool

Esse uísque está com gosto de lágrimas e tristeza.

Nada como encontrar com o Jack as 9:45 da manhã, e vê-lo fatiar em partes seu coração, vagarosamente, apreciando cada corte, como se fosse o primeiro de muitos.

sábado, 10 de setembro de 2011