sexta-feira, 29 de julho de 2011

O Último Vôo do Pássaro Sem Asas

Fausto a amava. A amava desde a primeira vez que a tinha visto na distância. Ela era linda. Possuía o cabelo loiro com as raízes escuras, usava roupas e maquiagem que a deixavam perfeita. Ele queria muito tê-la ao seu lado, dizer o que sentia. Queria conversar e conhecê-la, compreendê-la, queria ser alguém importante para ela. Mas o fato era que não a conhecia, e tudo o que podia fazer era observar enquanto passava.

Talvez por tanto desejá-la naquela noite sonhou com ela. Foi um sonho curto, estava sentado no banco de um ponto de ônibus, ela passava e ele a cumprimentava, cumprimento retribuído com um sorriso. Acordou levemente alegre, mas logo a dor no seu coração assumiu. Não era impossível de ocorrer, mas improvável.

Sua vida seguiu normalmente, até que a viu de novo, passando. Nessa mesma noite sonhou com ela de novo, no mesmo banco da praça. Mas depois do cumprimento ela se sentava ao lado dele. Acordou em seguida. E nas próximas noites esse sonho foi se alongando e eles se conhecendo. Começaram conversando de coisas banais, como o tempo e o último acontecimento catastrófico no mundo. Logo foram adentrando seus gostos e conversavam de música, cinema e literatura. Ouviam coisas diferentes, ele curtia mais um rock e ela MPB. Ambos se interessaram pelo gosto do outro. Nos filmes, alguns coincidiram, ambos adoravam Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e concordaram que Antes do Por do Sol era melhor que Antes do Amanhecer. A discussão ficou um pouco acirrada quando ele disse que A Origem não era um filme bom. Ela se irritou, e tentou convencê-lo do contrário, mas sem sucesso. Nos livros, o que o surpreender e muito é que ambos estavam lendo o mesmo: Ficções do Borges. Para cada noite era um conto diferente sobre o que conversam, cada um dando sua interpretação, e maravilhados com a capacidade de pensar do outro. Se sentiam perfeitos juntos. Um ajudava o outro a alcançar níveis de idéias que nunca tinham imaginado. Foi quando, em determinado sonho o ônibus chegou e com muito pesar eles se despediram, ela o beijou antes de entrar nele. E ali ele ficou, solitário.

E solitário acordou, na sua cama, com o coração partido. Seu único sentido de viver o havia abandonado, e lágrimas rasgaram-lhe o rosto quando se olhou no espelo e percebeu a verdade. Ele só queria uma alma para compartilhar as emoções de seu coração, alguém com quem pudesse conversar sobre o que sentia, alguém a quem pudesse dar seu amor e afeição. Seguiu sua rotina.

Depois do trabalho foi a festa na casa do Fábio. Os planos eram beber a noite toda. Fábio era um cara social, diferente de qualquer coisa que Fausto poderia ser, ele conhecia meio mundo, e isso se mostrou na sua festa. A casa estava cheia. Mas toda aquela multidão não importou quando ele a viu ali. Estava lá também, mais bela do que nunca. Descobriu que era conhecida de um conhecido seu e logo estavam conversando. Se chamava Clarice. Com o auxílio do alcool, conversaram sobre tudo sem inibições. Descobriu que não curtiam as mesmas músicas, e para sua frustração, ele não gostava de nada do que ela ouvia. Ela não vira nenhum dos filmes que ele adorava e ele odiava qualquer um que ela mencionasse. E quando ele mencionou Borges, ela só perguntou: "Quem?". A conversa não ia muito bem. Ele não se sentia tão confortável ao seu lado, mas num impulso de sonho tentou beijá-la quando ficaram sozinhos. Ela se surpreendeu, mas retribuiu o beijo. E naquele contato físico, conversas se tornaram irrelevantes Levou-a para casa naquela noite, aonde se amaram.

Naquela noite ele sonhou que estava no ponto de ônibus novamente, ouvindo Watcher of the Skies da banda Genesis no seu MP3 player quando um ônibus parou e ela desceu. A Clarice dos sonhos estava ali e disse que não conseguia parar de pensar nele. Ele sorriu, se abraçaram e se beijaram. Riram muito, uma risada gostosa por ser compartilhada. Sentiam o mesmo e sabiam disso. Aquela era a única realidade possível para eles.

Na manhã seguinte, Clarice acordou e olhou para Fausto dormindo ali, sereno, um sonho tão quieto, tão simples que ele poderia muito bem estar morto. E ele sorria.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Educação. Família. Trabalho. Responsabilidade. Dinheiro. Sobrevivência. Gozo. Vida. Desespero. Conforto. Ressaca. Esquecimento. Salário. Esmola. Estado. Futuro. Semana. Conflito. Poeira. Unha. Dente. Estômago. Fezes. Despertador. Palavras. Calça. Camiseta. Nudez. Chuva. Sol. Nuvem. Sexo. Adulto. Criança. Vivo. Morto. Por-aí. Ao tentar escapar dos dedos que a prendem, uma saúva com toda sua força e entendimento agarra-se no que primeiro aparece.

Prefácio da Segunda Edição de "Fragmentos Caóticos de uma Mente Esquecida"

Foi com grande prazer e supresa que acompanhei o sucesso da primeira edição de Fragmentos Caóticos de uma Mente Esquecida. O prazer é óbvio, quanto a surpresa, confesso que não esperava o sucesso. Em menos de um mês o editor me ligava falando que planejavam uma segunda edição e se eu estava disposto a revisar o texto. Respondi que sim, e revisitei minha obra. Algumas alterações se fizeram necessárias, a maior parte pequenas correções no português e a adição desse prefácio, em que pretendo comentar o processo de elaboração do livro.

Por começar, fico até surpreso de ser um livro, originalmente a idéia era ser um conto. Ela me veio em um dia na casa de um amigo, José Antônio. Na noite anterior haviamos ido numa festa, aonde pela primeira vez eu exagerei na bebida a ponto de perder a memória. Conforme me contavam o que aconteceu naquela festa, eu percebia que não lembrava de nada. E isso me fez pensar na fragilidade da percepção humana e na fragilidade da realidade. Para mim, tudo aquilo simplesmente não ocorreu. Meus amigos poderiam dizer qualquer coisa que eu havia feito que era potencialmente real, eu não poderia discordar. Por algum momento, até entrei em desespero com as piadas que faziam.

Enquanto num universo consciente tudo isso ocorria, em algum lugar da minha mente brotou uma idéia, escrever a história de um homem bebado, caído em um corredor após subir uma escada. A sua frente, seguindo o corredor, havia uma porta, que era a única possibilidade de caminho. Mas ele não se lembrava aonde estava ou como havia chego ali. Seu estado era certa naturalidade, por ainda estar bebado e não querer se mover. Simplesmente continuar caído passivo ali enquanto tenta unir suas memórias de momentos anteriores. Mas ele falha. A última coisa que lembra é estar bebendo com alguns amigos no bar e mais nada. Minha idéia inicial era tentar escrever esses fragmentos de memórias, deixando os devidos espaços em brancos, fatos omitidos, associados a uma curiosidade do que há por detrás da porta. O conto teria que ser escrito de maneira a deixar para a mente dos leitores completarem as potencialidades da história desse bebado e do local em que ele se encontrava. Quanto mais possibilidades de interpretação eu conseguisse criar, melhor seria meu conto. Mas logo desanimei. Não me achei capaz de tal empreendimento e guardei a idéia em minha cabeça.

Foi só alguns meses depois, quando li o livro Der Unendliche Sonneuntergang [O Pôr-do-Sol sem Fim, não traduzido para o português] de Albert Kaufmann, que eu compreendi como proceder. No livro de Kaufmann, Judas é o protagonista, e Deus o pune por ter traído Cristo com a vida eterna. Judas, seria, então, testemunha da humanidade, testemunha dos resultados de seu ato contra o filho de Deus. Ele começa a vagar pela Terra, assumindo diferentes nomes e identidades ao longo dos séculos. O interessante do livro é como o autor trabalha a questão da memória. Apesar de ver tudo, testemunhar tudo, Judas não compreende mais do que as pessoas de sua época e nem dá importância para eventos considerados importantes. Para ele, a Revolução Francesa foi uma época de regada de prostituas e cervejas em algum lugar da Inglaterra. "- Que me importa lembrar o que fazia Napoleão?" dizia ele para a perplexidade de um historiador contemporâneo. Mas ele sabia contar perfeitamente a história do seu amor, Margareth, uma atriz alemã que não ficou conhecida de meados do século XVIII. Ter 2 mil anos de história não o tornou uma testemunha objetiva de tudo, apenas demonstra a fragilidade da memória humana e essa necessidade social criada de estabelecer o que é importante ou não lembrar, que Judas claramente ignora.

Voltando ao meu conto, a leitura desse livro me deixou inspirado, compreendi coisas que estavam dentro de mim, só esperando uma chave para libertá-las. Retornei ao projeto do meu conto. Trabalharia a existência apenas do presente. O passado não existiria, senão como memória e o futuro senão como esperança. E decidi adicionar um elemento místico. Capotado ali, o bebado é visitado por um gato que pula do muro e se aproxima dele. Mas esse gato tem uma particularidade, ele possui três olhos. O bebado não sabe se é sua visão turva ou se é algo real do animal. Além disso, o bicho fala e se apresenta como Azrael e começa a conversar com o bebado, fazendo-o perguntas, revivendo memórias. O homem é levado a presenciar e recontar novamente eventos do seu passado. Mas esses fragmentos teriam que ser contados de maneira não linear e de maneira duvidosa. As falas de Azrael precisavam ser duvidosas o suficiente para o leitor não acreditar que ele era um portador da verdade, embora essa fosse uma das interpretações possíveis.

Conforme escrevia essa história, percebi que um conto não daria, e cada capítulo se tornou uma lembrança do bebado, contada de forma não-linear. Para brincar um pouco mais, decidi fazer com que, com exceção do primeiro capítulo, cada capítulo pudesse ser lido na seqüência que o leitor desejasse, de tal modo que, a seqüência escolhida afetasse sua interpretação da obra. Foi um desafio, e confesso que me deu grandes dores de cabeça. Entre essa decisão e o texto final, foram quase 3 anos de escrita e re-escrita. Tenho que agradecer a José Antônio que me ajudou a organizar essas idéias em conversas estimuladas com uma leve garrafa de pinga ao lado. E aos meus amigos que leram o texto e me ajudaram em vários pontos. As vezes, sinto que o fato de eu ser autor desse texto é mera circunstancialidade. Sem essas pessoas ele nunca teria sido possível.

Assembléia

Ontem foi um bom dia de sol e céu. Os pássaros cantavam e os estudantes estavam mobilizados discutindo seus direitos e suas estratégias de luta contra o capitalismo, o FMI, o catolicismo, o neo-liberalismo, a reitoria, a opressão, o stalinismo, o estruturalismo, o pós-estruturalismo e o nazi-fascismo.
Militante1: - Em regime de votação... favoráveis à proposta número um: as falas dos estudantes na assembléia devem ser entendidas como um conjunto de palavras que, implicitamente, já tem a intenção de comunicar alguma coisa..., erguei as mãos.
Os favoráveis à primeira proposta levantaram os braços
Militante1: - Em regime de votação... favoráveis à proposta número dois: para cada fala haverá uma pesquisa bibliográfica-etmológica-morfossintática do conjunto das palavras proferidas isoladamente para, em seguida, entender (ou não), se de fato a estrutura da frase permite que a fala seja interpretada como tentativa de colocacar um argumento..., erguei as mãos.
Os favoráveis à proposta número dois ergueram as mãos
...
Militante1: -A mesa entende que não ouve contraste, e por iss...
"QUESTÃO DE ORDEM", veio de um ponto incerto no meio dos 200 alunos reunidos por uma luta legitima... (e em conjunto com os trabalhadores). Levantou-se um rapaz bonito, margro, óculos, barba, camiseta do maio de 68, cachecol, calça xadrez, boina, olhos semi-cerrados e fala pausada:
- Companheiros, a mesa entende que não ouve contraste, mas a cadeira entende que a proposta número um teve maioria! É preciso ter sensibilidade para perceber o ponto de vista da cadeira!
Militante 2: - Sim! Ele tem razão! O ponto de vista da mesa predomina porque ela ocupa uma posição superior à da cadeira!
Militante3: - QUESTÃO DE ORDEM! Se a mesa entende que não há contraste e a cadeira entende que a proposta número um é a vencedora, eu percebo que a folha entende que a proposta número dois foi vitoriosa, e as folhas estão em condições mais precárias que as cadeiras!
"QUESTÃO DE ORDEM!!"

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A arte de enfiar a cara na mesma tecla até sangrar

[Televisão ligada no programa de conhecimento popular]

A: -Caraio! Puta mulher feia da porra!

B: -Pode crer... tá foda.

A: -Mulher feia é mais feia que homem feio, né, mano?

B: -Pode crer... é foda. Se bem que... Mas..., será que isso não é machismo?

A: -Não, nada a ver. Eu não sou machista, nem você.

B: -É, mas..., será que não é um machismo inconsciente, uma coisa de tradição, daquelas que a gente acredita como se fosse uma verdade evidente, quando, na real, trata-se de uma construção ideológica?

A: -Não, nada ver. Eu não sou inconsciente, nem você.

B: -Sim, tem razão. Mas..., será que a gente não acha que a mulher tem sempre que ser bonita por uma questão do lugar social de mera reprodutora que, apesar de tudo, ainda deve estar presente em nossa visão de mundo? Porque, se for isso, é claro que ver uma mulher feia é sempre mais decepcionante, à medida em que frustra nossa espectativa masculina quanto à posição da mulher essencialmente como objeto sexual. Quanto ao homem, ele é primeiramente um bom profissional, um ser racional, um ser moral; beleza física fica em segundo plano. Será? Será que é isso, hein?

A: -Nah! Nada ver, ninguém pega homem feio não

B: -Na verdade, tem um problema que antecede. Será que mulher feia é um juízo absoluto? Será que não é uma construção? Uma construção racial e de classe que existe como critério oculto da formação dos padrões de beleza feminina... será?

A: -Não, ce acha?! Eu não sou racista. Nem você.

B: -Pode crer.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Poesia Mal-Escrita Sobre os Acontecimentos Internos dos Últimos Dias

Queria escrever poesias
Mas poesias não há
Nunca haverá enquanto na distância
Você estiver
O coração frágil suspira
Pela realidade latente
Inexistente
Percepção impossível
Ilusão,
Se vejo não é o que vejo?
O que dizer desse desejo
Que me alegra
Mas me frustra sem luz
Solidão
Queria perguntar a você, doce Tempo
O que fazer desse momento?
Anseio
E Memória, o que fazer daquele instante?
Felicidade
Morte! Por que esse preço?
Não! Não quero!
Sem eles não posso viver!
Mas com eles sofro
Agonia!
Minguo no Limbo
Sem decisão
Inferno ou Paraíso?

sábado, 2 de julho de 2011

[sem nome]

Hoje me encarando em frente ao prédio comercial espelhado percebi como minha cabeça é pequena comparada ao meu corpo. É desproporcional.
Diante de tal constatação, desiludido, caminhei.
Mas, como todos sabem, nessas horas é que nos vem as grandes ideias.
Em minha hora e vez, pensei: "poderia fazer uma cirurgia de implante de silicone na cabeça, e assim, ficar mais bonito e proporcional e alternativo e descolado e proporcional e bonito."
E como as ideias são como uvas, que vem sempre em cachos - cachos de boas ideias -, e como nesse mundão de hoje um cacho de ideias só é bom quando se torna empreendimento, completei: "Pois bem: poderia levar um pedido de financiamento de uma clínica de cirurgia estética de implante de silicone na cabeça até o santander."
É isso.

E aí santander? vamos fazer juntos?

quarta-feira, 29 de junho de 2011

andrei tarkovski

“Antes de abordar os problemas específicos da natureza da arte cinematográfica, creio ser importante definir o meu modo de entender o objetivo fundamental da arte como tal. Por que a arte existe? Quem precisa dela? Na verdade, alguém precisa dela? Estas são questões colocadas não só pelo poeta, mas também por qualquer pessoa que aprecie arte – ou, naquela expressão corrente, por demais sintomática da relação entre a arte e seu público do século XX – o ‘consumidor’.
Muitos fazem essa pergunta a si próprios, e qualquer pessoa ligada à arte costuma dar a sua resposta pessoal. Alexander Block disse que ‘do caos, o poeta cria harmonia’. ... Puchkin acreditava que o poeta tem o dom da profecia. ... Todo artista é regido por suas próprias leis, mas estas não são, em absoluto, obrigatórias para as demais pessoas.
De qualquer modo, fica perfeitamente claro o objetivo de toda arte – a menos, por certo, que ela seja dirigida ao ‘consumidor’, como se fosse uma mercadoria – é explicar ao próprio artista, e aos que o cercam, para que vive o homem, e qual é o significado da sua existência. Explicar às pessoas a que se deve sua aparição neste planeta, ou, se não for possível explicar, ao menos propor a questão.
Para partirmos da mais geral das considerações, é preciso dizer que o papel indiscutivelmente funcional da arte encontra-se na idéia do conhecimento, onde o efeito é expressado como choque, como catarse.
(...) É certo que todas as pessoas usam a soma dos conhecimentos acumulados pela humanidade, mas, mesmo assim, a experiência do autoconhecimento ético e moral representa, para cada um, o único objetivo da vida, e, em termos subjetivos, ela é vivenciada a cada vez como algo novo. O homem está eternamente estabelecendo uma correlação entre si mesmo e o mundo, atormentado pelo anseio de atingir um ideal que se encontra fora dele e de se fundir ao mesmo, um ideal que ele percebe como um tipo de princípio fundamental sentido intuitivamente. Na inatingibilidade de tal fusão, na insuficiência do seu próprio ‘eu’, encontra-se a fonte perpétua da dor e da insatisfação humanas.
E assim, a arte, como a ciência, é um meio de assimilação do mundo, um instrumento para conhecê-lo ao longo da jornada do homem em direção ao que é chamado ‘verdade absoluta’.
Aqui, porém, termina toda e qualquer semelhança entre duas formas de materialização do espírito criativo do homem, nas quais ele não apenas descobre, mas também cria. No momento, é muito mais importante perceber a divergência, a diferença de princípio, entre as duas formas de conhecimento: o científico e o estético.
Através da arte o homem conquista a realidade mediante uma experiência subjetiva. Na ciência, o conhecimento que o homem tem do mundo ascende através de uma escada sem fim, e a cada vez é substituído por um novo conhecimento, cada nova descoberta sendo, o mais das vezes, invalidada pela seguinte, em nome de uma verdade objetiva específica. Uma descoberta artística ocorre cada vez como uma imagem nova e insubstituível do mundo, um hieróglifo de absoluta verdade.
(...) A arte nasce e se afirma onde quer que exista uma ânsia eterna e insaciável pelo espiritual, pelo ideal: ânsia que leva as pessoas à arte. A arte contemporânea tomou um caminho errado ao renunciar à busca do significado da existência em favor de uma afirmação do valor autônomo do indivíduo. O que pretende ser arte começa a parecer uma ocupação excêntrica de pessoas suspeitam que afirmam o valor intrínseco de qualquer ato personalizado. Na criação artística, porém, a personalidade não impõe seus valores, pois está a serviço de uma outra idéia geral e de caráter superior. O artista é sempre um servidor, e está eternamente tentando pagar pelo dom que, como que por milagre, lhe foi concedido. O homem moderno, porém, não quer fazer nenhum sacrifício, muito embora a verdadeira afirmação do eu só possa se expressar no sacrifício. Aos poucos, vamos nos esquecendo disso, e, inevitavelmente, perdemos ao mesmo tempo todo o sentido da nossa vocação humana....
Quando falo do anseio pelo belo, ideal como objetivo fundamental da arte, que nasce de uma ânsia por esse ideal, não estou absolutamente sugerindo que a arte deva esquivar-se da ‘sujeira’ do mundo. Pelo contrário! A imagem artística é sempre uma metonímia em que uma coisa é substituída por outra, o menor no lugar do maior. Para referir-se ao que está vivo, o artista lança mão de algo morto; para falar do infinito, mostra o finito. Substituição ... não se pode materializar o infinito, mas é possível criar dele uma ilusão: a imagem.
(...) Além disso, a grande função da arte é a comunicação, uma vez que o entendimento mútuo é uma força a unir as pessoas, e o espírito de comunhão é um dos mais importantes aspectos da criação artística. Ao contrário da produção científica, as obras de arte não perseguem nenhuma finalidade prática. A arte é uma metalinguagem com a ajuda da qual os homens tentam comunicar-se entre si, partilhar informações sobre si próprios e assimilar a experiência dos outros. Mais uma vez, isso nada tem a ver com vantagens práticas, mas com a concretização da idéia do amor, cujo significado encontra-se no sacrifício: a perfeita antítese do pragmatismo. Simplesmente não posso acreditar que um artista seja capaz de trabalhar apenas para dar expressão a suas próprias idéias ou sentimentos, os quais não têm sentido ao menos que encontrem uma resposta. Em nome da criação de um elo espiritual com os outros, a auto-expressão só pode ser um processo torturante, que não resulta em nenhuma vantagem prática: trata-se, em última instância, de um ato de sacrifício. Mas valerá a pena o esforço, apenas para se ouvir o próprio eco?”

Trechos do ensaio “Arte – anseio pelo ideal”, parte do livro Esculpir o tempo, de Andrei Tarkovski.

terça-feira, 28 de junho de 2011

do princípio do vandalismo latente

"um estudo recente feito pela Universidade Nacional, encomendado pela empresa Homero de elevadores, deu conta de que a conservação e a preservação do interior dos elevadores durava mais em prédios e condomínios com porteiros. isso porque o morador não precisa abrir o portão da rua com sua chave, mantendo-a em sua mão até chegar à porta de casa. neste entreato, o elevador é riscado com iniciais, desenhos obscenos ou traços sem nenhum sentido. a conclusão dos pesquisadores indica, então, a existência de um vandalismo. o homem não depredaria uma propriedade de uso coletivo se não tivesse sido gerada a oportunidade de estar com uma chave em mãos enquanto espera o elevador abrir a porta em seu piso. como simples passatempo, surge o que os pesquisadores nomearam "vandalismo latente". apresentadas em congressos internacionais, as discussões sugerem que o homem reprimiu esse vandalismo, que é externalizado em situações de SSO ("solidão social oportuna"), quando foi obrigado pelas transformações sociais e culturais a tolerar o outro. geralmente está presente uma forma de alteridade tosca e mal definida, mas que conserva algum valor e sentido na sociedade atual (por exemplo, no dito "cada um, cada um" e em diversos outros bastante conhecidos), conhecida como "alteridade primitiva". esta entra em conflito com o lado bestial do homem e o torna ansioso diante do diferente. ele suprime o que considera suas falhas, sem saber que elas nunca foram suprimidas, mas reprimidas. quando se crê sozinho, externaliza-as inconscientemente. há casos de moradores que se mataram com as chaves e outros que desenvolveram agorafobia ou múltiplas personalidades após muito tempo sozinhos no elevador. o homem que não compreende o outro não foi feito para viver em sociedade."

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Trevas


"Nämlich allein, ständig allein
Schrecklich allein, ewig allein

Verdammt dazu, allein zu sein - ein ganzes Leben lang allein
Sieh dich doch um, sieh endlich ein: Du bist allein, du bleibst allein"
http://www.youtube.com/watch?v=Fvh1N_QA1Kk

detalhes

um odor fresco de eucalipto enquanto pensava em ti tudo que fez não fez poderia ter feito adoro-te por mim e por todo o mundo e isso é só meu até o fim de todas as possibilidades entre a distância mantida deliberada precaução necessária para afastar o envolvimento inútil vontade de ficar quieto supera os sentimentos passam com o vento e para longe vai sem parar pela minha cabeça não deixo de imaginar cenas o passado filtrado da maneira que me satisfaz por não ter concluído coisas importantes nem ao menos começado a ficar velho nas atitudes e na postura relaxada na aparência de desleixo foi-se embora o tempo e o odor de eucalipto com a descarga e restou o cheiro de bosta

domingo, 26 de junho de 2011

Explosão




E que se foda!

E que se foda tudo! Foda-se o bom desenho! Desenhei essa história, porque precisava me expressar. Precisava dizer coisas que não havia outro modo de dizer. Precisava sentir coisas, que não havia outro modo de sentir. Precisava me expressar. Precisava de um desenho para liberar minha frustração. E foda-se se ele não está bem desenhado. Fodam-se os desenhos bem feitos! É! Viva o Arthur! E foda-se se a história parece não ter começo. Começo não há e nunca haverá. Começo é só o ponto em que o narrador decidiu colocar o dedo e falar: narro a partir daqui! E o fim é só o momento que ele tira esse dedo e manda tudo se foder!
Que se fodam as coisas e os amores perdidos.
Que se fodam as histórias com começo-meio-fim.
Que se fodam os romances que não vivo.
Que se fodam esses sentimentos amorosos em minha alma.
Que se foda...

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Os Três Niveis do Amor das Flores no Rochedo ou Considerações Sobre a Navalhada, a Punhalada e a Facada

I. A Navalhada da Decepção

Jorge chegou no apartamento de Eduardo de maneira inesperada. Ele acabava de sair do banho quando recebeu a mensagem que Jorge logo estaria ali. Na realidade, sabia que ele viria, só não sabia o horário.
- Então - começou Jorge, depois que já estavam na cozinha, cada um com um copo de cerveja na mão - descobri algo. Algo que vai te animar.
- O que?
- Você precisa ver com seus próprios olhos.
- Fala logo!
- Não! Preciso de mostrar, se não você vai fugir como sempre faz. E, o loco, já vai abrir outra garrafa? Ta tomando muito rápido!
- Eu preciso beber.
- O que aconteceu?
Ficaram em silêncio por algum tempo. Eduardo queria contar ao amigo, só não sabia como. Os pensamentos fluíam em sua mente de maneira desordenada. Uma memória ia para outra, enquanto sentimentos dispares dançavam sobre elas. E tudo isso precisava ser condensado em palavras. Meras palavras. Jorge esperava, enquanto olhava para o amigo. Uma de suas qualidades era saber dar o silêncio para as pessoas quando precisavam. Não sentia a necessidade de ficar falando como um louco. Era isso que fazia dos dois grandes amigos. Eduardo era bem inteligente, mas tinha problemas para passar em palavras suas idéias, o que o fazia demorar, as vezes, para conseguir comunicar algo.
- Então - começou, depois de alguns minutos, enquanto ia pegar a terceira garrafa de cerveja - é a Cristina de novo cara. Sempre ela. Por que eu não consigo esquecê-la? Eu a amo.. Essa é a verdade. A amo mais do que gostaria. E tipo, você me entende não? Eu tento. Eu só gostaria que ela me considerasse um amigo, mas não sei, por mais que a gente converse ela parece me considerar um nada. E ontem, ontem foi foda.
- O que aconteceu?
- Eu descobri que ela vai fazer uma festa de aniversário esse final de semana. Ela convidou todo mundo, menos eu, todo mundo! E ontem eu fiquei com ela a tarde inteira, e ela não mencionou nada. Acredita nisso? E sei la. O que me irrita mais, é que eu converso bastante com ela, conto coisas para ela, que sei la, são coisas que eu só teria coragem de contar para você. E ela me trata como se eu não existisse. Esse esquecimento dela é uma facada pro meu coração.
- Te entendo. Mulheres são cruéis mesmo. Mas você não pode deixar ela te abater assim cara.
- Eu tento. Tento mesmo, mas só a visão dela despedaça meu coração. É muito forte.
- Mas você tem duas opções só, ou você diz tudo para ela ou larga disso.
- Eu tento, mas se eu não consigo que ela se importe comigo como amigo, como esperar que ela se importe comigo como algo mais? Eu realmente tento.
Dessa vez foi Jorge que foi pegar uma outra garrafa de cerveja. Aproveitou o momento para dar um silêncio estratégico.
- Quais tão mais geladas aqui?
- Pega as do fundo.
- Então - começou Jorge, voltando para a mesa - você tem que curtir mais a vida, sair mais. É que você fica limitado no seu mundo, ai ela parece a única opção. Sair e conhecer pessoas, é o que você precisa.
- Não tenho animo, nem curto tanto assim sair, você sabe.
- Chega disso. A gente vai sair, e vai ser hoje!
- Sair aonde?
- Você vai ver, já marquei com o pessoal, o Marcos e o André vão também. Vai ser uma boa oportunidade para gente trocar umas idéias e curtir.
- Sei la..
- É sexta-feira poxa! Você trabalha amanhã? Não! Então, vamo lá! Chega de ficar deprimido e solitário em casa. Vai te ajudar a refrescar a mente.

Algumas horas depois, eles estavam dentro de um astra cinza rumo a algum lugar que Eduardo não sabia aonde era. Mas que os outros, principalmente Jorge, pareciam muito empolgados em ir. Foi só quando entraram naquela rua ali que ele percebeu. Mas já era tarde demais.
- Porra, vocês tão me levando pro puteiro? - falou Eduardo, realmente irritado e com um sentimento de fuga no seu coração. Queria voltar para casa imediatamente, sem pensar.
- Cara, essa casa é das boas! A gente descobriu ela ontem! O nível das mulheres aqui é muito foda! Compensa cada centavo! - disse Marcos.
- Porra! Não quero saber! Caralho. Mancada isso ai! - tentou argumentar Eduardo, mas percebia que os outros nem ligavam.
- Cara, vamos ae. Vamos curtir! Você não precisa pegar nenhuma puta não. A gente nem ta muito afim também. Vamos ficar mais no barzinho tomando uma só e olhando uns peitinhos! Olhar é de graça hehe - disse Jorge.
- Eu não curto essas coisas, po! Vocês sabem disso. Relaxo! Vamos embora. - Eduardo estava realmente frustrado com a situação, queria pular fora do carro, seu coração batia bem rápido.
- Cara, como eu disse, vamos ai só para tomar umas, é de boa! Você não precisa comer nada se não quiser. Vai ficar tomando sozinho em casa? Vamos ae!

Depois de uma longa discussão, finalmente os três conseguiram levar Eduardo para dentro do puteiro, e eles ficaram ali. Procuraram uma mesa, e ficaram tomando umas, enquanto olhavam o movimento no local. Algumas mulheres quase totalmente sem roupas dançavam no palco, outras passavam exibindo suas curvas pelas mesas, provocandos os homens ali. Jorge, André e Marcos pareciam curtir bastante o ambiente. Só Eduardo que estava mais quieto que o de costume. Estava extremamente irritado, considerava os amigos uns traídores. Não confiaria mais neles. Nem um pouco. André e Marcos até vá, mas não esperava isso de Jorge. Nunca de Jorge. Olhava para ele com raiva, mas o amigo retribuía com um olhar sorridente e passava uma mão boba numa das moças em volta.
Em certo momento, Eduardo precisou ir ao banheiro e foi quando estava saindo dele que aconteceu. Trombou com Cristina, ali, saindo do banheiro feminino do lado. Aquelas roupas que ela vestia, ou melhor, aquelas roupas que ela não vestia, aquela maquiagem e aquele lugar, só podiam significar uma coisa. E foi nesse momento que Eduardo sentiu uma navalhada de decepção estilhaçar seu coração.

II. A Punhalada da Rejeição

- Cristina?! - falou com uma voz baixa, mas forte. Ia perguntar para ela o que ela fazia ali, mas a resposta era tão óbvia, que nem terminou de abrir a boca ao fazê-lo.
Ela olhou para ele, soltou uma baforada do cigarro que fumava.
- Olá - disse, como se tivessem se encontrado casualmente entre as prateleiras de um supermercado - Tudo bom? Estou atrasada, depois a gente conversa.
A indiferença dela o irritou. Ela sabia o que ele sentia, ele tinha certeza disso. Não era possível não saber. Ele era um cara óbvio em relação aos seus sentimentos, não sabia disfarçá-los. Se fosse outra situação, ele engoliria essa indiferença dela. Mas ali, misturados a decepção que sentia, não aguentou. Segurou-a pelo braço. Queria a atenção dela. Mas nisso um homem grande de terno os separou.
- Algum problema? - disse o homem.
- Nenhum. Eu só perdi o equilibrio e ele me ajudou a não cair - disse Cristina - Mas agora tenho coisas a fazer - disse ela, e andou até um canto, aonde um homem de uns 50 anos, bem vestido a esperava. A pegou pelo braço e os dois foram para o local aonde ficavam os quartos dando umas risadinhas.
Eduardo ficou em silêncio enquanto observava tudo isso. Voltou para a mesa aonde os amigos estavam, não sem passar no bar antes.
- Estamos pensando em ir embora, já que você nem está curtindo muito - disse André, nisso reparou no copo de uísque na mão de Eduardo - Ou será que você está mudando de idéia?
- Vamos ficar - disse, e virou a dose numa só e pediu outra.
- Encontrou algum rabo de saia que te interessou por ai? - disse Jorge.
Eduardo o olhou. Será que o amigo sabia? Teria trazido ele aqui de propósito? Ficou o olhando, olhando aquele sorriso maroto. Todos sorriam naquele lugar, sem se importar com sua alma em ruínas, com seu espírito em decadência. E em algum canto ali, ela ria também, ria enquanto alguém a comia. A imagem daquele senhor com o bigode entre as pernas dela o desesperava. Sua alma gritava em fúria, e ele descontava na bebida. Em vez de pedir outra dose, pediu a garrafa. Cerveja era muito fraca para aquela agonia.
Suas memórias e seus sentimentos voavam, como se estivessem vivos. Sua pele se arrepiava com as idéias que tomavam conta de sua mente. Ele sempre tentou compreender porque ela não o tratava como amigo. Ele sempre quis essa respostava enquanto esperava por ela. Sempre esperando como um tonto. E tudo que ele pedia a ela, no fundo de seu coração, é que ela esperasse por ele uma vez. Uma vez. Que ela demonstrasse algum interesse por ele. Mas no fim, a verdade era que ele nem existia para ela. A navalha da indiferença retalhava o interior do seu peito, sem misericórdia alguma. E uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Os amigos o olhavam atonitos, e tentavam entender o que aconteceu. Mas ele ignorava as vozes deles. Apenas falava para deixar ele em paz. Foi quando Jorge disse:
- Cara, ela nunca ia dar o cuzinho para você mesmo! Vamos comer umas putas e se divertir!
Eduardo se irritou e agarrou a gola do amigo em fúria. Sentiu olhos virando na direção da mesa. Dois homens de terno vinham rápido em direção a ela. Mas ele soltou logo. Sabia que sua raiva não era em relação ao amigo. Não, o amigo só tinha aberto os olhos dele. Os olhos para a verdade que ele nunca quis ver. Pensava nessas coisas, enquanto Jorge dizia que estava tudo bem para os segurança.
- Ela é uma das mais caras aqui. 400 a hora com ela. - disse Jorge.
- Por que cara? Por que?
- Se eu te dissesse você acreditaria? Você tem que esquecer ela.
- Do que estão falando? - Perguntou André.
- Nada não - disse Jorge.
- Pelo jeito nosso amigo aqui quer uma puta muito cara pro salário dele - disse Marcos, e jogou uma nota de 100 na mesa - Pegai! Te ajudo a pagar!
André fez o mesmo. Jorge olhou para os dois peixinhos, olhou para o amigo, e tacou um cheque de 200 reais na mesa enquanto dizia: "Pronto. Vá viver seu sonho."

III. A Facada do Amor

Eduardo olhou para a grana, e para os amigos. Mas não disse nada, apenas encheu seu copo mais uma vez e começou a beber. Sua alma estilhaçada não permitia a ele esboçar nenhuma reação. André e Marcos logo saíram da mesa para aproveitar a noite com duas putas nas quais estavam de olho por um tempo, Jorge falou que cuidaria de Eduardo enquanto eles estivessem fora.
- Foi mal cara. Eu queria te falar, mas você não acreditaria - Eduardo ficou quieto. A única maneira com que expressava algo era o levantar e baixar do copo - Eu fui falar com ela ontem, quando vi ela aqui. Fiquei bem surpreso, bem surpreso mesmo! E cara, eu falei para ela, falei tudo sobre você, como você é apaixonado por ela e tudo mais, que ela precisava dizer para você que não te ama, assim você poderia ficar mais sussegado e esquecer ela.
- E ai? - Havia certo brilho nos olhos de Eduardo ao ouvir as palavras do amigo. O primeiro sinal de vida que ele dava desde que descobriu a verdade das coisas.
- Bom. Eu sei que é dificil. Mas ela deu uma risada e disse que sabia de tudo, que você era claro como o dia - Eduardo levou a mão no coração. Jorge não precisava de muito para saber que a punhalada do menosprezo entrava ali. - E que ela não ia dizer nada. Que ela gostava de você, assim, atras dela.
Eduardo ia encher outra dose, mas Jorge tirou a garrafa de perto e falou prum garçom levar ela embora, mesmo a protestos de Eduardo.
- Você já bebeu muito hoje cara. Eu queria mesmo ter te dito essas coisas. Mas você não ia acreditar, ia achar que era só eu tentando te incentivar a esquecê-la. Mas é isso, essa é a verdade das coisas. Quando o André e o Marcos voltar a gente vai embora.
Ficaram ali, em silêncio, os dois. Sem mais sorrir. A risada estava morta. Em certo momento, Eduardo se levantou e foi ao banheiro. Ficou ali além do tempo da mijada, apreciando sua própria dor. Quando saiu viu que Cristina e o homem haviam acabado. Ele provavelmente já tinha enfiado e tirado a vara de dentro dela várias vezes nessa hora que ficaram juntos. A raiva de Eduardo voltou a brotar. Ele foi até a mesa, aonde Jorge esperava, pegou a grana e falou:
- Eu vou tê-la. Nem que seja por uma noite. Aquela vadia, puta, vou gozar dentro dela.
Ele foi. Irritado. Esticou as duas notas e o cheque e disse:
- Agora vai ser comigo!
- Já tenho um cliente marcado para daqui 10 minutos. Você não vai conseguir nada comigo hoje. - ela deu um sorriso para ele, enquanto acendia um cigarro.
- Pago o dobro do que você vale!
- Não.
- O triplo! Pago o triplo!
- Não.
- Puta que o pariu! Você é puta ou não é?! Vou ter pagar quatro vezes mais, mas você vai dar para mim!!!!
- Não - disse ela com um sorriso no rosto, enquanto soltava uma baforada no rosto dele.
- Você dá para todo mundo caralho! Por que você não quer dar para mim?
Ela se sentou numa mesa vazia, e apontou para a cadeira a frente. Eduardo, tremendo de raiva se sentou, e os dois ficaram se olhando.
- Para você, o preço é diferente.
- Quanto? Me diz seu valor que eu pago.
- Quero seu coração.
Eduardo ficou parado. Sem entender, confuso. Aquelas palavras quebraram qualquer expectativa que ele poderia ter.
- Quero seu coração - disse ela - Porque não cobro dinheiro de quem amo.
O coração de Eduardo palpitava, teria ele entendido certo?
- Me ama?
- Sim. Meu expediente acaba daqui uma hora, depois que eu atender aquele senhor - apontou para um velho que caminhava em direção a eles.
Eduardo a olhava confuso para ela
- Como assim?
- É só para você saber - Ela se levantou e cochichou no ouvido dele - Saber a hora que pode me acompanhar até em casa - e foi até o velho, pegou no braço dele, e o levou até o quarto.
Eduardo voltou até a mesa sem perceber que sorria. Jorge o estranhou:
- E ai cara?
Eduardo não disse nada. Ficou apreciando a alegria em seu coração. Logo, Marcos e André estavam ali, prontos para ir embora.
- Podem ir - disse Eduardo - Eu vou esperar por ela.

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Esse conto foi escrito em conjunto por Caetano e Zeh (que pensa em um final alternativo hehe)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Duas considerações sobre arte

1- Considerações sobre a concepção romântica da música

A: - Olha só, apesar da sua estupidez insensível e da sua cegueira voluntária diante da evidência da espiritualidade que move a existência, quando você toca essas músicas clássicas eu vejo que existem em você, apesar de tudo, sentimentos elevados que você deveria expressar com mais frequência, viu?

B:- Olha só, apesar do seu palavrório pretencioso e monótono a ponto de causar náuseas mesmo no mais bunda mole dos seres humanos, eu devo dizer que sua avaliação sobre a música não passa de uma puta bobagem. Música é basicamente matemática: cada nota ocupa uma certa posição no violão - instrumento musical material e datado -, e eu junto essas notas de acordo com lógicas preestabelecidas, e eu determino o tempo entre uma nota e outra, e eu determino com a intensidade da palhetada o ritmo e as diferenças de timbre, e você enche d'água seus pequenos olhos ingênuos, acreditando que está diante da comprovação da existência de um princípio eterno e imutável colocado por Deus na arte que se faz possível, apesar da prisão material que é o efemeríssimo corpo humano.

A: - Então você acha que não há motivações emocionais na criação musical!? Então...

B: - Vai... vai... calaboq!!

2- Considerações sobre a atuação no filme Garotas do ABC (Carlos Oscar Reichenbach - 2003)

A: - Eu acho que esse filme é uma merda porque os atores são muito ruins do caralho!

B: - Ah é?! E que porra você entende sobre atuação dramática?!

A: - Eu entendo que um ator representa um papel; então esse ator deve atuar de modo que sua expressão pareça natural.

B: - Pessoas como você assistem filme apenas por distração, e na minha terra isso tem um nome que você vai gostar muito de ter associado à sua pessoa: ALIENAÇÃO!!
[um prato voou na parede]
B: - Pouco me importa que você atire os pratos nessa parede imunda! O que estou dizendo é que você vê uma porra de um filme esperando que ele seja uma porra duma cópia da realidade! Uma porra do que sua mente alienada considera realidade, ou seja, um encadeamento de fatos lógicos compostos por elementos coerentes e ligados de modo a compor um esquema de começo, meio e fim. Você espera que a expressão, assim como a luz a música e o cenário pareçam naturais. Esse seu conservadorismo estético não tem nada a ver com o que você acredita ser natural; tem a ver, na verdade, com a sua espectativa inconsciente de se sentar para ver um filme e ter diante dos olhos aquilo que a tradição hegemônica cinematográfica te faz acreditar ser filme de qualidade e expressão do real-natural.

A: - Então isso quer dizer que a expressão é apenas um elemento que pode ser empregado de diversas formas para a composição da narrativa fílmica, papai?

B: - Claro, filhinho... a expressão não é neutra; não pode ser tratada simplesmente como um aspecto invariável a partir do qual se desdobra todo o resto. Ela mesma é um elemento discursivo.

A: - Ah! que bom então papai! Acho que agora eu entendi, viu!

B: - Te amo, filho! Agora vai tomar seu leitinho que já é hora de voltar à escola!

A: - Oba! eu queria muito mes... ... .. .......... ......

... .