terça-feira, 30 de novembro de 2010

"Desde que as pessoas se tornaram insuportáveis, a ideia de que, apesar disso, ainda posso habituar-me aos livros, tornou-se também insuportável" - Louro José

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

"Eu sei que a burguesia fede, mas tem dinheiro pra comprar perfume."
Falcão

"O cheiro podre vem de você."
João da Silva

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Joãozinho, 10 anos, decidido, conversou com sua mãe:
-- Mamãe, já sei o que eu quero ser?
-- É mesmo meu queridinho! O quê?!
-- Paisagem.
...
Há muitos anos atrás, Joãozinho, um arbusto sem raízes, estava já com mais de metro e meio. Os pais mudaram de casa. Os novos moradores não gostaram do estilo do jardim e, em um dia de churrasco, cortaram Joãozinho na altura das canelas, usaram os braços para acender a churrasqueira e fizeram do tronco o prato principal de uma bela fogueira.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Coletânea de ideias subdesenvolvidas

1- Bom foi o tempo em que eu tocava guitarra todos os dias.
2- Só escreve quem passa mal. Só quem passa bem tem o direito de julgar em que grau é idiota quem escreve.
3- O som de uma cadeira quebrando na parede; o som de um violão quebrando na parede; uma musiquinha bonita de 3 ou 4 notas, vinda não sei de onde, tocando durante horas no meio da madrugada; carrinho de necrotério [?] andando sozinho devagar/rápido no quintal; o som de um crânio sendo quebrado conra o asfalto é sempre prejudicado/abafado pelos miolos que eventualmente/necessariamente o preenchem; o som de alguém vomitando/chorando no meio da noite.
4- anotações de ideias subdesenvolvidas.
5- Bateram na porta às 3:26 da manhã:
- Joãozinho!
- Que foi ?! (gritou raivoso dormindo)
- Posso entrar?
- Pode! (gritou raivoso dormindo)
Abriu a porta e entrou e estava pelada - UAU!, gritou raivoso dormindo - depois entrou mais outra, que Joãozinho nunca antes em sua vida toda havia visto. Essa outra também estava pelada.
1,2,3,4,5,6,7,8,9,10
...
1,2,3,4,5,6,7,8,9,10
Depois entrou mais outra que era igual a anterior, e igualmente estava pelada. Passaram-se dois segundos e entrou pelada mais outra que era igual às duas anteriores. Depois disso, a cada dois segundos entrava pelada uma nova igual à anterior, até que não coubesse mais nada entre as paredes, e mais nada entre o chão e o teto.
Joãozinho estava com muita sede mas não tinha como ir até a cozinha. Os olhos ardiam e ainda faltava tempo até o sol nascer.
6 - Se escrever um blog não fosse apenas passatempo, seria, então, uma profunda imbecilidade.
7- Outro dia descobri que a vida é muito mais simples do que parece. O segredo está em não levar tão a sério as coisas. Sim! É isso! É preciso superar as adversidades/a dominação para evitar a reprodução do fracasso. Então saí de casa capaz de criar novas possibilidades. Entretanto, de repente, sem que eu pudesse evitar, veio um caminhão e me atropelou bem na cabeça! Depois disso os miolos se espalharam sem levar a sério as coisas.
1,2,3,4,5,6,7
...
1,2,3
O asfalto ficou quentinho e nojento.
8- "Isso vai mal" - Graciliano Ramos
9- "Sim. Não. Sim. Não" - Graciliano Ramos

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Rubens e ela 5

"são vocês dois que me ajudam a foder o pedrafilosofal. ela [apontando-a para mim] trabalha na assessoria do partido. não cuida só do pedrafilofal mas tem bastante influência em todo o partido. ele [apontando-me para ela] trabalha no gabinete em brasília. tem controle sobre toda a burocracia que envolve o mandato de senador do pedrafilosofal. decidi apresentá-los porque percebi os dois bastante nervosos nos últimos meses. acho que é a proximidade do ano eleitoral, não?".

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fiquei com cara de bunda, acho, quando o rubens me apresentou a ela com toda essa naturalidade. acho que foi uma cara de merda qualquer porque ela também fez uma cara que misturava incredulidade, alívio e raiva. ou assim quero eu acreditar. não, eu não acreditava que o rubens tinha feito o mesmo plano com outra pessoa. sim, eu estava aliviado de poder dividir o trabalho com mais uma pobre alma. e sim, eu estava com muita raiva, mas não sabia de quê. estávamos congelados, ainda sem saber o que fazer a não ser trocar olhares constrangidos e curiosos. ela disse: "que merda, rubens! qual o seu problema?". ele respondeu que decidiu envolver-me porque precisava de mais controle sobre o pedrafilosofal. não ia contar nada a nenhum de nós dois. mas disse que estava notando uma angústia muito parecida em nós "acho que pode ser a perspectiva de que os dois vão levar na bundinha junto com o pedrafilosofal no fim do ano que vem". isso era verdade. eu sabia desde o começo que ia me foder assim que o pedrafilosofal tivesse sua eleição impugnada pela justiça eleitoral. "vocês dois estiveram dispostos a sofrer todas as consequências desde o começo mesmo sabendo que minha bunda estaria salva. achei que pelo menos isso seria algo em comum entre vocês. sabiam que comigo não ia acontecer nada. no máximo um tarzanzinho ia ficar pendurado. coisa de um peteleco". rubens explicou que no máximo ele seria rebaixado do cargo de redator chefe quando viu a expressão de incompreensão dela ao ouvir a palavra "tarzanzinho". só sei que no fim ficou tudo bem. depois de muita explicação e passada a raiva, começamos a conversar os três sobre o plano. na verdade o rubens mais observava enquanto eu e ela partilhávamos nossas experiências e nossas esperanças para um futuro já não muito distante. às vezes acho que o rubens gosta de brincar de marionetes. antes achava que era com o pedrafilosofal só. pensando bem, agora, acho que comigo e com ela também. rubens filhodaputa. fazer o que? não temos mais volta. o rubens me disse uns meses depois que ela queria falar comigo. e me passou o número dela. então combinamos de foder com o rubens.

domingo, 21 de novembro de 2010

resenha

1. Peter Brötzmann Octet / Machine Gun (Second Take) // Álbum: Machine Gun [1968]

1. -- Calma lá! Há um pouco mais de incompreensão entre nós do que o necessário, deixe-me explicar algumas coisas.
-- Acho que já ouvi o suficiente.
-- Mas, ao menos, preste atenção agora... – e cortou-me no meio da frase. Seu juízo dava-lhe, supunha, segurança para todos os argumentos de autoridade imagináveis. Sorte minha a debilidade de sua imaginação. Mesmo assim aproveitava, com redundâncias, as parcas elaborações que lhe vinham em turbilhão língua afora. Bem poderia eu ter apenas saído de mansinho, rabo entre as pernas, servil, um comportamento exemplar, porém não, resolvo meter os pés pelas mãos, quero elucidar para mim mesmo o quanto estou correto e todos os outros estão errados, ou, no mínimo, potencialmente equivocados até que eu tenha uma opinião sobre seus pensamentos e ações. Lembro-me: a unha do dedinho incomodando, sapato do pé esquerdo justo demais, desgraça, talvez encrave, ou, quem sabe, perco a unha, inútil. De repente, percebo um silêncio e retorno minha atenção para o momento: está a encarar-me, espera minha resposta para sei lá o que de tão grave precisava exortar em minha moral, presumo. Fecho um pouco o olho esquerdo, tamborilo a mão direita no queixo, disfarço refletir, e comento:
-- Sabe... Peço arrego.
Viro as costas e bateria a porta, caso houvesse.



Obs: o vídeo não apresenta a música completa...

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

"Desde que me habituei aos livros, me parece que as pessoas tornaram-se todas insuportáveis." - Ana Maria Braga

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Prometeu que seria a última vez, olhou ao redor, tentou rememorar, sem sucesso, onde estava, saiu do quarto sem dizer uma palavra, tentou passar despercebido, mas teve que dizer dois bons dias antes de encontrar a saída, encarar a rua e tomar um rumo.
Ficou passeando por esquinas aleatórias, sem esperança, apenas pelo prazer de andar durante uma manhã nublada. Não havia nem um bar, um que fosse, pelamordedeus, aberto.
Um ônibus, dois ônibus, parou de contar, passavam pelo ponto em estava sentado. Encarava os passantes para poder dizer bom dia, agora estava mais disposto, queria tirar as pessoas do isolamento matinal, provavelmente prolongado dia afora, fosse pelo trabalho, pela procura deste, pelas ilusões de um dia melhor, pelas desilusões com o momento.
Tempo vai, tempo vem, desistiu. Deixou-se levar pelas horas dos relógios espalhados pelos homens no mundo enquanto apreciava, com calma e alegria, o vagar das nuvens, suas amigas e familiares, que seguiam os caminhos dos ventos para, logo mais, logo menos, dissiparem-se.

domingo, 14 de novembro de 2010

O lagarto achatado na pedra. Escondido, o sol. Na ausência aparente, os abutres desaparecem, interiorizados.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Rubens e eu 4

"mas o que é isso? eu to cercado de putas?". foi quando falei isso que o olhar dela cravou meus pés. eu sabia que tinha ido longe demais. o pai dela que assitira tudo das sombras do canto da sala interveio. "rubinho, você fala muito palavrão". depois daquele dia eu só conseguia me definir a partir de palavras xulas. se eu não falasse assim não me identificaria. no fim das contas era divertido, porra. mas eu sempre ia longe demais.

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"alô? renata? ô minha filha faz o favor de me passar pra assessoria? obrigado, lindinha." a voz do outro lado saiu rouca de cansaço. eu disse: "olha só. eu sei que com as eleições municipais você vai ter que trabalhar com muitos outros candidatos porque é do partido. mas não me perde o filhodaputa de vista. entendeu?". palhaçada me responder com tanta irritação. era só uma recomendação e já recebo bolada no queixo. sei que no fim discutimos. porra. tomar no cu. eu teria que ir na sede do partido pra falar cara a cara com ela. uma hora depois entrei na sala que já estava estourando de tanto papel. "caralho. como você trabalha aqui?". "pois é, rubens! e você fica querendo me foder com mais trabalho". naquele momento eu fiquei sem ação. não por pena. não. porque eu não tinha argumento diante de tanto trabalho."desculpa, porra. não sabia. mas também estou trabalhando pra caralho. e eu sou chefe de redação. qualquer merda que fazem é meu cu que suja, porra." foi quando ela me mandou tomar no cu. tirei a calça, virei a bunda e comecei a gritar: "tá aí meu cu! tá aí, porra! vai ser grossinha? vai?". fiquei nessa situação até ela ter uma reação que foi a de abrir a porta e chamar a segurança. não deu em nada, claro. eu conhecia todo mundo ali. mas ela voltar pro trabalho e me ignorar logo depois me fodeu. aquele mês foi foda. não conseguia nem xingar alguém de carne mijada. tomar no cu, porra.
Exercício de sutileza: viver na surdina, morrer despercebido.

resenha

1. Swans / Blackout // Álbum: Filth [1983]
2. Swans / Thank you // Álbum: Filth [1983]

1. Todos os móveis na rua, quarto vazio, busco uma cadeira, resta aproveitar o que resta. As paredes, após fechada a porta, compõem um ambiente propício. Para quê? Melhor não raciocinar, aliás, isso não é uma virtude. A cadeira passa a ser um excesso, arremesso-a para os quatro cantos até cansar-me. Tonto. Tonto. Encosto e, lentamente, escorrego. A cadeira retorcida no outro canto. Inspiro, expiro. Inspiro, deito, espero.

2. Em um dia qualquer, alguma hora qualquer, decido tornar-me grato pela totalidade das coisas, sejam pessoas, animais, objetos, misturas desses elementos ou todos englobados em uma unidade inseparável e não presumível, vislumbrada apenas em raros momentos de lucidez infantil. Concentro todas as energias possíveis no intuito sincero de ser violentado, e aguardo. [...] No chão, aguço os sentidos e deixo estar.

1 -


“Get drunk
Get drunk
Breathe in
Breathe in
Hold it in
Hold it in
Don’t breathe
Don’t breathe
Blackout
Blackout
Blackout
Blackout
Blackout
Don’t talk until you’re spoken to
Don’t talk until you’re spoken to
Don’t breathe
Don’t breathe
Blackout
Blackout
Blackout
Blackout
Blackout
…”


2 -


“Talk to me
Tell me the truth
This smells sour
Burn my face
…
…
This smells sour
Burn me now
…
…
Burn my face
This smells sour
Burn me now”

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sou tão volúvel que o impulso suicida da noite passada durou apenas até o momento em que a informação de que haveria sorvete de sobremesa no bandejão transformou-o em felicidade verdadeira.

Variação: Dexter

Eles estavam ali: sentados e observando. No céu a lua cheia brilhava, bela, agraciando-os nessa longa noite. Longa. Mas eles tinham paciência. Apreciavam cada minuto em silêncio.

Alguns metros dali estava ele: sentado e observando. Assistia os últimos minutos do jornal no conforto de seu sofá, dentro de sua aconchegante casa. Quando acabou o programa, desligou a TV e foi para seu quarto.

Eles inspiraram com satisfação. As mãos apertadas no volante. A qualquer minuto agora. Faltava pouco, pouco. A noite seria longa, só mais alguns minutos. Precisavam se assegurar que ele já estaria dormindo quando entrassem. Era assim que a caçada funcionava, embora, com certeza, fosse mais divertido quando a caça tinha ciência do seu predador. E eles iriam assegurar que ela soubesse, mas no momento certo. Por enquanto aguardavam. A qualquer momento. Uma hora , uma eternidade, mas o agora chegou, finalmente, e eles desceram do carro.

Caminharam até a porta pelas sombras. Se asseguraram que não havia olhos indesejados e em segundos arrombaram a porta. Estavam experientes nisso já, tão rápidos e eficientes como se tivessem a chave. Moveram-se silenciosamente. Estava escuro, mas não se importaram. Os sentidos estavam no auge. Tudo parecia tão claro. E já estiveram ali, claro, conheciam muito bem a casa. E se moveram rapidamente até o quarto. Deram uma espiada lá dentro. Dormia. Muito bom. Foram ao banheiro primeiro, não porque precisavam usá-lo, mas para deixar uma pequena linda supresa. E retornaram ao quarto, desta vez para ficar.

Observaram a caça e uma estimulante sensação percorreu cada músculo de seus corpos. Eles suspiraram em prazer. Logo ele seria deles. Inspiraram. Logo. Expiraram. Ele tinha uma poltrona logo ao lado da cama. O lugar perfeito para se sentar e observar. Admiravam sua caça, enquanto aguardavam. Não havia graça em eliminá-la assim, inconsciente, sem saber porque e por quem. A qualquer minuto. Cada segundo a fome aumentava. Eles resistiam, sabiam que isso só aumentaria a satisfação. E aconteceu.

Do banheiro uma música começou a soar. Ele acordou assustado. Conhecia aquela música, eles sabiam, e observavam. Ele correu até o banheiro, sem perceber que não estava sozinho no quarto e ali estava ele, dentro da pia, soando. Ele conhecia aquele celular, mas o que fazia ali? Caminhou trêmulo e o pegou. Na tela havia uma mensagem: "Bu!". Eles sabiam que não era muito criativo, mas fazia o serviço, e antes que ele pudesse reagir, um cabo estava em torno do seu pescoço. Tão forte que ele não conseguia respirar.

- É inútil resistir contra nós. - E logo ele estava inconsciente de novo.

A lua, bela, bela, bela lua. No seu auge, tão perfeita, tão cheia, dominando o céu. Assim como eles dominavam o homem na terra. Tão bela lua, os agraciando em seus movimentos. E finalmente o homem acordou. Confuso. Olhou em volta, estava sozinho naquele bosque. Como fora parar ali? Estava na sua casa e... Medo começou a lhe encher a alma. Olhou em volta, conhecia aquele lugar, era familiar. Seus sentidos alerta, se levantou e de novo o cabo estava em torno do seu pescoço. Forte, como da última vez. Sentiu uma pancada nas suas costas e caiu de joelhos. O cabo afrouxou um pouco e conseguiu respirar.

- Reconhece esse lugar? - Eles disseram, saboreando cada palavra.
- Eu, eu... quem é vo... - antes que pudesse terminar a frase sentiu o cabo apertar contra seu pescoço. Não podia respirar.
- Nós sabemos o que você fez. De novo e de novo e de novo. Mas nunca mais. - e eles aliviaram o cabo um pouco, o suficiente para deixá-lo respirar. Eles estavam em controle. E eles garantiram que ele soubesse disso.
- Argh.. Não sei do que estã... - E novamente ficou sem poder respirar. Eles se deliciavam com aquela sensação.
- Nós sabemos. E você sabe também. - Eles respiraram, o ar nunca parecia tão fresco como nesses momentos - vamos começar?

Eles entraram no carro. Estava feito e era hora de se despedirem. Deixou o demônio desvanecer-se nas trevas de sua alma. Ligou o carro. Sacrificou seu poderes para ser humano novamente, por um tempo. Acelerou. Por um tempo apenas, pois eles se veriam de novo e de novo, num ciclo sem fim.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Necessitamos de algum ordenado para sobreviver. Necessitamos ganhar mais para consumir mais. Alguém precisa de dinheiro para comprar um carro e, depois, de ainda mais dinheiro para comprar outro carro. Alguém precisa de dinheiro para comprar um livro e, depois, de ainda mais dinheiro para comprar outros livros, mesmo que não os leia. A escravidão não está abolida, foi interiorizada: o desenvolvimento histórico da propriedade atingiu um ponto em que os seres humanos tornaram-se propriedade dos produtos que podem e/ou desejam consumir.